
Por Miriam Rautenberg
Nancy Moreira prepara-se para disputar o título WBA Africa Super Welterweight, no próximo dia 10 de maio, em Acra, no Gana, num evento de grande visibilidade internacional. A atleta portuguesa e cabo verdiana de Boxe vive um dos momentos mais marcantes da sua carreira, conciliando a exigência da alta competição com a maternidade e o papel de treinadora. Nesta entrevista, revela a sua jornada, os desafios e a mentalidade com que encara este combate decisivo.

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FightNews: Estás prestes a disputar um título africano da WBA em Acra. O que significa este combate para ti, neste momento da tua carreira?
Significa a realização de um sonho.
Comecei a praticar boxe com 23 anos.
Fui aos Jogos Olímpicos com 35.
E agora o meu primeiro título aos 37.
É tudo como sempre imaginei e lutei para o ser.
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FightNews:Como tens vivido esta preparação física e mentalmente? Sentes que estás no melhor momento da tua carreira?
Sinto que estou pronta para este momento, sinto que não vou deixar a decisão para os juízes, sinto que vou conseguir.
FightNews:O que aprendeste ao longo dos anos que hoje faz a diferença na forma como encaras este tipo de desafio?
Aprendi que a disciplina, a paciência e a consistência fazem toda a diferença.
Hoje vejo estes desafios com mais maturidade e mais confiança.
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FightNews: Há algo diferente desta vez? Na tua preparação, mentalidade ou motivação?
Muitas pessoas sempre me perguntavam se eu sentia alguma pressão por estar muitas vezes nos grandes palcos ou em grandes eventos.
A minha resposta sempre foi não. Mas, no fundo, eu nunca pensei verdadeiramente em mim.
Desta vez coloco em mim uma enorme responsabilidade, pensando mesmo em abandonar caso não consiga este título.
Parece radical mas não é.
Estar no boxe tem-me custado a vida, estar longe dos meus filhos, lutar tanto fora do ringue por condições básicas.
Acho que cheguei mesmo ao meu limite.
Então este combate para mim, só a vitória interessa.
FightNews: Quando olhas para o teu percurso até aqui, o que sentes ao chegar a este momento?
Orgulho gigante.
Só eu sei todos os desafios que passei e passo para continuar de pé e na modalidade.
Este momento para mim é apenas o resultado de anos de trabalho sem nunca desistir.
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FightNews:Representas muito mais do que a ti própria. Sentes isso como uma pressão ou como uma força?
Sinto uma responsabilidade.Pressão não.
É muito bom saber que sou referência para alguém e, com o meu percurso, incentivar mais mulheres a seguir o mesmo caminho nesta área ou na vida.
FightNews: Disseste que ser mulher no boxe em Portugal ainda exige muita força. Em que momentos isso se tornou mais evidente para ti?
Em Portugal o boxe não é valorizado, tanto para os homens como para as mulheres.
Não existem promotoras a investir nos atletas, mas sim promotoras a ganhar com os atletas.
Não existem patrocinadores a investir realmente no atleta e, sem isso, é quase impossível viver apenas do boxe.
FightNews: Voltaste ao ringue depois de seres mãe. Hoje sentes-te mais forte, enquanto atleta e enquanto mulher?
Costumo dizer que mudei muito a minha forma de estar e ser no boxe depois da maternidade.
Ser mãe e atleta de alta competição deu-me uma força e uma motivação bem maior.
Hoje sou mais resiliente, mais focada e com uma mentalidade ainda mais forte dentro e fora do ringue.
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FightNews:De que forma a maternidade mudou a tua forma de competir e de lidar com desafios?
Pensar neles é como sentir uma energia extra. É lutar até ao fim sem nunca pensar em desistir.
Em todas as competições dou o meu melhor para voltar rapidamente para os braços dos meus meninos.
Não é fácil gerir tudo, mas o facto de ser mãe trouxe-me ainda mais maturidade para lidar com tantas situações menos boas que já me aconteceram.
FightNews:Em fases exigentes como esta preparação, o que te ajuda a manter o equilíbrio no dia a dia?
O que mais me ajuda é manter uma rotina, e ter o apoio da minha família torna tudo bem mais fácil.
Saber gerir o tempo entre os treinos, descanso e a vida pessoal para mim é muito importante.
Além disso, manter o foco nos meus objetivos e lembrar-me do porquê de tudo isto dá-me força para continuar, mesmo nos dias mais difíceis e cansativos.
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FightNews:O que ainda precisa de mudar para que o boxe feminino em Portugal cresça ao nível que merece?
Precisamos de muitas competições, estágios fora do país, precisamos valorizar o atleta com um salário, pois isto é mais do que um trabalho de 8 horas.
Isso mudaria tudo, principalmente os resultados.
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FightNews:Este combate traz visibilidade. Que impacto gostarias de ter junto de outras mulheres?
Quero principalmente que possam acreditar que é possível, com trabalho, dedicação, respeito e resiliência.
Nada é fácil e nada cai do céu.Mas é possível.
Então bora acreditar hoje e todos os dias.
FightNews: Depois deste combate, quais são os próximos objetivos?
Vou responder a essa pergunta depois do meu combate.
FightNews:Que mensagem deixas às mulheres e meninas que te vão ver lutar e que talvez estejam a dar os primeiros passos no boxe?
Primeiro lutem sempre por vocês e não pelos outros.
Só assim vão ter força para continuar mesmo quando ninguém estiver ao vosso lado.
Escolham sempre o melhor caminho, não o da fama, porque esse acaba rápido, nem das vitórias fáceis ou da ilusão de ser atleta de boxe. Isso não existe.
Lutem por vocês, lutem por um propósito grande. Não pensem pequeno.
E, por mais maluco que seja o vosso sonho, tentem, lutem e não desistam.
Nancy Moreira entra em Acra não apenas para disputar um título, mas para afirmar uma carreira construída com sacrifício, resiliência e paixão pelo Boxe. Entre o papel de mãe, atleta e inspiração para uma nova geração, carrega consigo mais do que ambição — leva um propósito. E, como a própria afirma, desta vez há apenas um caminho: a vitória.
DATA: 10 de ABRIL
TRANSMISSÃO: DAZN