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“O ringue não tem género”: Lara Firmino e a ascensão de uma nova geração no Boxe

A atleta da Escola de Boxe de Tavira fala da paixão pelo desporto, das vitórias, da primeira derrota e do futuro.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
30/11/2025 às 10h59
“O ringue não tem género”: Lara Firmino e a ascensão de uma nova geração no Boxe
Imagem cedida Miriam Rautenberg

“O início de uma paixão pelo Boxe” — Entrevista com Lara Firmino

 

Aos 14 anos, Lara Firmino entrou pela primeira vez num ginásio sem imaginar que aquele dia iria mudar a sua vida. Hoje, com apenas 16, é já uma das jovens mais promissoras da Escola de Boxe de Tavira, acumulando vitórias em competições como a Portimão Box Cup, o Braga Open Boxe e o Infante.
Nesta entrevista franca e inspiradora, Lara fala sobre o início da paixão pelo Boxe, a rotina de atleta, o impacto das vitórias e derrotas, e a forma como vê o futuro do Boxe feminino em Portugal.

Início e motivação

FightNews: Lara, tinhas apenas 14 anos quando começaste no Boxe. Lembras-te do teu primeiro treino? O que sentiste nesse dia?

Lembro-me perfeitamente, como se tivesse sido ontem. Fui sem grandes expectativas, mais por curiosidade. Mas assim que começou o treino, percebi que estava a descobrir algo diferente de tudo o que já tinha experimentado. Saí de lá completamente rendida. Senti-me desafiada, intrigada e, ao mesmo tempo, surpreendida comigo própria. Foi a primeira vez que um desporto me fez querer voltar logo no dia seguinte, não por obrigação, mas por verdadeira vontade. Senti que tinha encontrado um lugar onde podia crescer.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: Disseste que foram as tuas amigas que te convidaram. O que te fez voltar e continuar, mesmo depois do primeiro treino?

O motivo para continuar fui eu mesma. Descobri que gostava da sensação de superação que o Boxe me dava. A cada treino havia algo novo para aprender: uma técnica, um movimento, um detalhe que fazia diferença. Percebi que estava a evoluir, e essa sensação era viciante. Não voltei por ninguém, voltei porque senti que o Boxe puxava o melhor de mim.

FightNews:  O que é que mais te atrai no Boxe – a parte física, mental ou o espírito de superação?

Sem dúvida, o espírito de superação. Gosto de sentir que estou constantemente a ultrapassar limites, sejam eles físicos, mentais ou emocionais. O Boxe ensina-te a não desistir, a acreditar mais em ti e a perceber que o progresso acontece um dia de cada vez. Para mim, essa evolução constante é o que mais me apaixona no desporto.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

Primeiras competições

FightNews: Depois de algumas semanas a treinar, começaste a pensar em competir. O que te inspirou a dar esse passo?

Depois de algumas semanas de treino, comecei a sentir que queria mais. Queria testar-me a sério, perceber até onde podia ir e qual era o resultado da minha dedicação. Competir não foi uma decisão impulsiva, foi algo que veio naturalmente. Queria sentir aquela adrenalina do combate, aquela pressão boa de estar no ringue a aplicar tudo o que tinha aprendido.

FightNews: Como foi a sensação de ganhar o teu primeiro combate no campeonato regional?

Foi um momento especial e difícil de explicar por palavras. A adrenalina que senti naquele combate foi algo completamente novo. Quando ouvi o meu nome como vencedora, senti uma mistura de orgulho, alívio e realização. Foi como se todo o esforço tivesse valido a pena e, ao mesmo tempo, a confirmação de que este era o caminho certo para mim.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: Entrar na equipa de competição mudou alguma coisa na tua rotina, confiança ou forma de ver o desporto?

Mudou completamente. Aumentou a disciplina, a responsabilidade e fez-me perceber que o Boxe não era apenas um hobby — era algo sério. Passei a ter horários mais definidos, compromissos mais rigorosos e treinos mais intensos. Com isso, a minha confiança também cresceu. Passei a olhar para mim não apenas como alguém que pratica Boxe, mas como atleta.

Evolução e desafios

FightNews:  Baixaste de peso para competir nos 63 kg e conquistaste várias vitórias — Portimão Box Cup, Braga Open Boxe e o Infante. Qual foi a mais especial?

Sem dúvida, a Portimão Box Cup. Foi a minha primeira competição internacional de alto nível e senti um orgulho enorme por estar ali, entre atletas tão fortes. Foi um momento que me marcou, porque percebi verdadeiramente que tinha capacidade para competir ao mais alto nível.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: Tiveste agora a tua primeira derrota. Como lidaste com isso emocionalmente?

Foi duro, não vou mentir. Ninguém gosta de perder, e eu não sou exceção. Mas tentei ver a derrota de forma madura. Fui rever o combate com calma, analisei os erros e percebi exatamente onde tinha falhado. A derrota fez-me voltar ao treino com ainda mais vontade e foco. No fundo, ajudou-me a crescer.

FightNews: Achas que as derrotas ensinam mais do que as vitórias?

Acho que sim. As vitórias motivam-nos, claro, mas as derrotas obrigam-nos a refletir e a evoluir. Na vitória celebramos, mas na derrota aprendemos. No Boxe e na vida, é muitas vezes na aprendizagem mais difícil que damos os maiores passos.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

A vida de uma jovem atleta

FightNews: Como consegues equilibrar os treinos, a escola e o descanso?

É uma questão de organização e respeito pelos meus limites. Estudo quando preciso, descanso quando o corpo pede e treino com foco. Percebi que sem descanso o rendimento cai. E sem escola o futuro complica-se. Então tento sempre equilibrar tudo da forma mais saudável possível.

FightNews: O que dizem os teus colegas e professores quando sabem que és pugilista?

A reação da maior parte das pessoas é de surpresa, porque não é muito comum ver raparigas novas a praticar Boxe. Muitos colegas e professores ficam admirados e começam a fazer perguntas sobre treinos, competições e resultados. No geral, o feedback é positivo e encorajador.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: Tens alguma inspiração feminina no desporto?

Sim, sem dúvida. Adoro ver a Katie Taylor e a Seniesa Estrada. São atletas completas: fortes, inteligentes, técnicas e extremamente determinadas. São exemplos que me inspiram e motivam a evoluir.

O futuro

FightNews: Quais são os teus próximos objetivos no Boxe?

O meu foco agora é continuar a evoluir tecnicamente, ganhar os meus próximos combates e entrar em competições maiores. Quero desafiar-me cada vez mais.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: Imaginavas um dia representar Portugal internacionalmente?

Quando comecei, nem sequer passava pela minha cabeça. Eu só queria treinar, aprender e sentir-me melhor a cada treino. Nunca pensei em competir fora do país. Mas com o tempo fui percebendo que estava a evoluir rápido e que havia potencial para algo maior. Representar Portugal já não é um sonho distante — é uma meta concreta.

FightNews: Que mensagem deixas a outras raparigas que querem começar no Boxe, mas têm medo ou vergonha?

Diria que o medo é normal. Todas nós sentimos alguma coisa antes de entrar num ambiente novo. Mas o Boxe ensina-nos a construir força interior. A minha mensagem seria: não deixes o medo decidir por ti. Experimenta, sente o ambiente e dá-te a oportunidade de descobrir que és muito mais forte do que pensas.

A mulher e o Boxe

FightNews: No teu ginásio há muitas raparigas? Como é a convivência?

Ainda não somos muitas, mas cada vez mais raparigas aparecem. Isso torna o ambiente mais equilibrado e mostra que o Boxe não é só para rapazes. Todos treinamos com o mesmo objetivo: evoluir.

FightNews: Já sentiste olhares diferentes por seres rapariga?

Sim, já senti algumas vezes. Há sempre aquele olhar inicial de surpresa, como se não esperassem que uma rapariga treinasse com intensidade. Mas isso muda rápido. Basta um round mais puxado para o respeito aparecer.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

FightNews: O que achas que o Boxe te trouxe como mulher?

Trouxe-me força — não só física, mas mental. Deu-me postura, autoconfiança e ajudou-me a acreditar mais em mim.

FightNews: Achas que haver mais mulheres como treinadoras faria diferença?

Sim, faria. Não por falta de qualidade dos treinadores homens, mas porque ver mulheres em posições de liderança inspira e representa as atletas.

FightNews: Quando tens árbitras mulheres nos combates, sentes diferença?

No combate em si, não. Mas sinto orgulho. É bom ver mulheres em posições de liderança.

FightNews: O que gostarias que mudasse no futuro do Boxe feminino em Portugal?

Gostava que houvesse mais oportunidades, mais torneios, mais apoio, mais visibilidade e mais investimento. Há muito talento escondido.

Imagem Instagram

FightNews: Que mensagem deixarias às meninas que estão agora a começar?

Diria para nunca terem medo de ser fortes. O Boxe não tira feminilidade — dá poder. Ensina-nos a estar seguras e a confiar no nosso corpo.

FightNews: Como achas que podes ajudar outras meninas a crescer?

Acho que posso ajudar partilhando a minha experiência, estando presente nos treinos, puxando por elas e mostrando que ninguém está sozinho. Quero ser um exemplo positivo e mostrar que com disciplina, humildade e coragem qualquer menina pode chegar longe.

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