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Uma equipa, diferentes caminhos: as mulheres que estão a fortalecer o Boxe no Lusitânia de Lourosa

Mabel Provazi, Rubí Soublette Guerra, Carolina de Lima Figueiredo, Fabiana Moreira e Bruna Coutinho partilham o seu percurso no Boxe e mostram que o Boxe é também um espaço de união, superação e evolução coletiva.

Redação
Por: Redação Fonte: Miriam Rautenberg
15/03/2026 às 11h42 Atualizada em 16/03/2026 às 12h24
Uma equipa, diferentes caminhos: as mulheres que estão a fortalecer o Boxe no Lusitânia de Lourosa
Imagens cedida More Women in Boxing

Uma equipa, diferentes caminhos, o mesmo crescimento no Boxe feminino

 

No Clube Lusitânia de Lourosa, está a nascer uma equipa feminina de Boxe que demonstra que a modalidade é cada vez mais inclusiva e transformadora. Entre atletas que treinam pelo bem-estar e outras que se preparam para competir no Porto Box Cup, que decorre entre 25 e 28 de março, o grupo partilha algo em comum: a vontade de evoluir, aprender e crescer juntas.

Mais do que resultados desportivos, estas atletas representam um exemplo de união e desenvolvimento coletivo. Cada uma traz a sua história, os seus desafios e a sua visão sobre o Boxe, contribuindo para a construção de uma comunidade forte dentro e fora do ringue.

Nesta entrevista coletiva, começamos por ouvir Mabel Provazi, que partilha como o Boxe entrou na sua vida e se transformou numa paixão.

Imagem cedida More Women in Boxing

 

Mabel Provazi: “O boxe deixou de ser exercício e virou paixão”

FightNews: Quando e como foi o teu primeiro contacto com o boxe?

Foi numa aula de grupo, no ginásio FitnessUp São João da Madeira.

FightNews: Porque achas que não encontraste o boxe mais cedo?

Nunca tive muito interesse pela modalidade por achar ser um desporto violento.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: O que precisaria de mudar para que mais meninas começassem a praticar boxe desde jovens?

Dentro da bolha em que vivia não tinha acesso a muitas informações sobre o que realmente era o Boxe, e muito menos o Boxe feminino. Ter mais exemplos femininos por perto e mais destaque sobre o que podemos esperar da modalidade — a modalidade real, não apenas para quem vai a um combate, mas o que se aprende diariamente nos treinos — poderia ser um começo.

FightNews:  Muita gente ainda associa o boxe a um desporto masculino ou violento. Como responderias a esse estereótipo?

Como disse, eu mesma me enquadrava nessas pessoas que achavam ser um desporto violento, e a minha sugestão seria pedir para a pessoa apenas experimentar, permitir-se sentir o Boxe e tudo o que ele pode transmitir na sua vida: aspetos cognitivos, melhoria do tempo de reação, parte social, coordenação motora, foco e concentração.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: Como reagiram as pessoas à tua volta quando começaste a treinar boxe?

A maior parte ficou surpresa e com receio de que eu me pudesse magoar. Venho de um desporto, a ginástica, em que a imagem de quem o pratica é diferente da imagem do Boxe, o que pode ter causado essa surpresa.

FightNews: De que forma o boxe mudou a tua vida?

Mudou em tudo. Ganhei força física, equilíbrio emocional e uma confiança que me acompanha dentro e fora do ginásio.

FightNews: O que aprendeste sobre ti mesma através do boxe?

Aprendi que sou mais forte e determinada do que imaginava. Posso cair, mas também levantar-me com mais garra.

FightNews: Que mensagem deixarias para outras mulheres que ainda pensam que o boxe não é para elas?

Diria para experimentarem. O Boxe não é sobre lutar contra o outro, mas sobre descobrir a força que já existe dentro de si.

Imagem Instagram

Rubí Guerra: “Entre golpe e golpe encontro uma forma de me conectar comigo mesma”

FightNews: Quando e como foi o teu primeiro contacto com o boxe?

O meu primeiro contacto com o Boxe foi há cerca de um ano. Ia a uma aula de cycling no meu ginásio, mas cheguei atrasada e a única aula disponível era de Boxe.

FightNews: Porque achas que não encontraste o boxe mais cedo?

Nunca tinha tido qualquer interação com o Boxe como desporto, por isso via-o como algo distante e pouco acessível.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews:Como responderias a quem ainda vê o boxe como um desporto agressivo?

Partilharia a minha própria experiência. O Boxe ensinou-me a gerir melhor o meu corpo, a respirar e a mover-me com eficiência. É muito mais do que dar murros.

FightNews:Treinar num grupo de mulheres faz diferença?

Sinto que tudo muda. Treinar com mulheres dá-me tranquilidade, porque existe empatia e compreensão. Mas isso não significa menos exigência — continuamos a motivar-nos para dar sempre mais.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: De que forma o boxe mudou a tua vida?

Foi uma experiência transformadora, tanto a nível físico como mental. Aprendi a expandir limites que pensava não ser possível ultrapassar.

FightNews:O boxe continuará a fazer parte da tua vida?

Completamente. Conheci pessoas muito valiosas através do Boxe e espero continuar a fazê-lo.

Imagem cedida More Women in Boxing

Carolina de Lima Figueiredo: “O boxe é uma forma de me conhecer melhor”

FightNews: Quando começou o teu percurso no boxe?

Comecei a praticar boxe no final de 2022, pouco tempo depois de entrar no ginásio. Ver aquele ringue no meio do espaço despertou logo a curiosidade em mim, e decidi experimentar. Desde a primeira aula senti que era um desporto onde me ia sentir bem. As pessoas foram muito receptivas, mostraram vontade de ensinar e ajudar, o que me fez querer voltar.
Na altura, ainda era um ambiente maioritariamente masculino, poucas mulheres participavam nas aulas, o que me motivou ainda mais a continuar e a fazer parte dessamudança.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: Por que achas que não encontraste o boxe mais cedo?

O boxe não é um desporto acessível em todo o lado. Na zona onde vivo, não era comum encontrar um ginásio ou estúdio com aulas de boxe. Só nos últimos anos é que comecei a notar um crescimento na oferta e, consequentemente, na visibilidade do desporto.

FightNews:O que precisaria mudar para que mais meninas começassem a praticar boxe desde jovens?

Acho que ainda precisamos de mais espaços dedicados e de maior visibilidade feminina dentro do boxe. Faltam modelos e referências: há poucas mulheres treinadoras e poucos combates femininos com destaque. Se houvesse mais representação e exemplos próximos,
acredito que mais meninas se sentiriam inspiradas e confiantes para começar.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: Muita gente ainda associa o boxe a um desporto “masculino” ou violento. Como responderias a esse estereótipo a partir da tua experiência?

Penso que esse estereótipo surge da falta de visibilidade do boxe feminino. É verdade que muitos homens chegam aos treinos com mais facilidade em aplicar força ou em lidar com o contacto físico, talvez por questões anatómicas e culturais, já que desde cedo têm mais
contacto com desportos de combate, mesmo em brincadeiras.
Por outro lado, é normal que algumas mulheres sintam receio ao início, sobretudo quando têm de treinar com colegas bem maiores. Mas o boxe é muito mais do que força, é técnica, controlo, equilíbrio e respeito. E isso é algo que se aprende e se desenvolve,independentemente do género.

 FightNews: Como reagiram as pessoas à tua volta quando começaste a treinar boxe? Surpresa?Apoio? Dúvida?

No início, acho que muita gente pensou que seria apenas uma fase e que eu não ia durar muito, alguns ainda mostraram preocupação. Com o tempo foram-se habituando à ideia e perceberam que o boxe faz mesmo parte da minha rotina. Ainda assim, quando digo que pratico boxe, há sempre quem fique surpreendido..

Imagem cedida More Women in Boxing

 FightNews: Como foi o início — especialmente sendo mulher num ambiente ainda muito masculino?

Não senti grandes dificuldades em treinar com homens, porque todos foram sempre muito acessíveis. Para além do treinador, que me incentivou desde o início, os colegas de treino já tinham alguma experiência e ajudaram-me a melhorar semana após semana.
Treinar com pessoas de nível mais avançado e com estaturas maiores fez com que evoluísse bastante. A maior dificuldade era, por vezes, encontrar alguém com uma estatura semelhante à minha, mas felizmente fui tendo sempre a oportunidade de treinar com uma ou outra colega também.

FightNews: O que muda quando se treina num grupo de mulheres — como nos encontros do More Women in Boxing ou no vosso grupo na Lusitânia de Lourosa?

Treinar num grupo de mulheres traz uma energia diferente, mais leve, mas ao mesmotempo muito focada. Há um verdadeiro espírito de partilha e de apoio mútuo. Talvez porque todas reconhecemos a dificuldade que é encontrar espaços onde possamos viver esta paixão em comum e sentir-nos representadas.
Há uma compreensão natural entre nós, uma motivação coletiva que faz cada treino ter um significado especial.

Imagem cedida More Women in Boxing

Fabiana Moreira: “O boxe ensinou-me a manter a guarda também na vida”

FightNews: Que situações da tua vida o boxe te ajudou a enfrentar melhor?

O boxe ajudou-me a enfrentar momentos de stress, ansiedade e insegurança. Ensinou-me a respirar fundo, a manter a calma e a não desistir à primeira dificuldade. Percebi que, tal como no ringue, o segredo está em manter a guarda e continuar a lutar, mesmo quando a vida acerta alguns “golpes”.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: Fala-nos da disciplina que o boxe te ensinou — como ela influenciou o teu dia a dia fora do treino?

O boxe deu-me uma estrutura que levei para tudo: trabalho, rotina e até relacionamentos. Aprendi a ser mais constante, a respeitar os meus limites e a perceber que evolução leva tempo. Fora do treino, essa disciplina traduz-se em foco e responsabilidade — é uma mentalidade que se aplica a tudo.

FightNews: Acreditas que as mulheres já têm o mesmo espaço e oportunidades no boxe que os homens?

Ainda não, mas estamos a caminhar para lá. As mulheres têm mostrado cada vez mais talento e dedicação, mas falta visibilidade, apoio e igualdade nas oportunidades. Iniciativas como o More Women in Boxing são essenciais para abrir portas e inspirar mais meninas a entrar neste mundo.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: O que te motiva a continuar, depois de tantos anos a treinar?

A sensação de superação. Cada treino é um desafio novo e uma vitória pessoal. Motiva-me ver o quanto evoluí — não só no físico, mas mentalmente. O boxe é uma espécie de terapia em movimento: descarrego, foco e reencontro comigo mesma.

FightNews: Que mudanças gostarias de ver no boxe feminino em Portugal?

Gostava de ver mais investimento, mais eventos dedicados às mulheres e maior reconhecimento das atletas. Também mais treinadoras e árbitras — porque a representação importa. O boxe feminino em Portugal tem imenso potencial; só precisa de mais visibilidade e oportunidades para brilhar.

Imagem cedida More Women in Boxing

Bruna Coutinho: “O boxe é a minha âncora, o meu refúgio, o meu espaço de silêncio interior…”

FightNews: Dizes que o boxe é a tua “prescrição médica diária”. O que é que o boxe cura em ti?

O boxe é a minha terapia. O meu psicólogo mudo-passivo. O boxe curou as minhas noites mal dormidas, a minha falta de energia e a minha ansiedade. Revitalizou o meu organismo e trouxe-me clareza mental. O boxe devolveu-me a mim mesma e foi bem mais barato que terapia.

FightNews: Falas de dias em que amas o boxe e outros em que o odeias. O que muda dentrode ti nesses dias?

Em dias bons, o corpo responde, a técnica flui e o treino é libertador, dominamos,ganhamos. É esses dias que reforçam a paixão e o propósito.
Mas há dias maus, em que o cansaço pesa, as lesões aparecem, a dor é real e afrustração mental domina. O que muda dentro de mim nesses dias é o foco – no confronto com os meus limites e fragilidades. Absurdamente, são estes dias que nos ensinam mais.
Mas faz tudo parte da jornada e a oscilação é o que torna o boxe terapêutico. O amor alimenta o impulso de continuar, o ódio traz humildade e autoconhecimento.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: Quando o boxe te obriga a olhar para dentro, o que é que descobres em ti mesma?

Descubro a versão mais honesta e essencial de mim mesma.

FightNews: Que emoções libertas no treino que talvez não mostres no dia a dia?

No treino de boxe liberto emoções que muitas vezes reprimo no meu dia a dia,nomeadamente raiva, tensão, frustração, ansiedade, medo ou até tristeza. O objetivo é canalizar essas emoções que se acumulam silenciosamente no corpo e na mente,
em energia e movimentos.
Sair do treino exausta, mas com a mente leve, é sinal de que o meu corpo libertou oque a rotina muitas vezes obriga-me a esconder.

Imagem cedida More Women in Boxing

FightNews: O que dirias a alguém que ainda vê o boxe apenas como violência?

Diria que é um olhar incompleto. O boxe não incentiva a violência, transforma-a. Onde há raiva, nasce foco; onde há medo, constrói-se coragem; e onde havia descontrolo,cria-se disciplina. Essa é a verdadeira essência do boxe — ensinar a ser forte comserenidade.

O grupo feminino do Clube Lusitânia de Lourosa mostra que o Boxe pode ser muito mais do que competição. É uma ferramenta de crescimento pessoal, união e descoberta.

Entre atletas que treinam por bem-estar e outras que se preparam para competir no Porto Box Cup, o espírito é o mesmo: evoluir juntas, apoiar-se mutuamente e provar que o Boxe feminino em Portugal tem cada vez mais força, talento e futuro.

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