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CrossPunch e o futuro do Boxe feminino: entrevista com o treinador Gonçalo Pinto

O treinador fala sobre filosofia, formação, desafios do Boxe feminino e o impacto do desporto na sua vida.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
20/11/2025 às 15h10 Atualizada em 20/11/2025 às 16h13
CrossPunch e o futuro do Boxe feminino: entrevista com o treinador Gonçalo Pinto
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“O Boxe consolidou-me valores para a vida”: Entrevista a Gonçalo Pinto, treinador da CrossPunch

 

O treinador Gonçalo Pinto, responsável pela CrossPunch, tem sido uma das vozes ativas na promoção do Boxe em Portugal — especialmente no que toca ao crescimento da vertente feminina. Com uma abordagem inclusiva, rigor técnico e um foco profundo na formação, o treinador partilha connosco a sua filosofia, a evolução da modalidade e os desafios que ainda permanecem para que o Boxe português alcance outro patamar.

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Nesta entrevista, Gonçalo fala sobre o seu percurso pessoal, explica porque considera o Boxe uma verdadeira “escola da vida”, analisa o panorama feminino e aponta caminhos concretos para um futuro mais inclusivo e profissional.

Imagem Pedro Fonseca

Caminho pessoal & Filosofia

FightNews: Como chegaste ao boxe?

A minha chegada ao boxe veio através de outras modalidades.
Com 10 anos de idade comecei a praticar Kung fu, nomeadamente Sanda que é a vertente de combate do Kung Fu. A sede pela competição foi eminente. No Sanda a competição era muito reduzida, fazia 3 ou 4 combates por ano, portanto comecei a competir em Kickboxing logo aos 14 anos, e foi aí que me apercebi da importância do boxe.
Em 2008 fui às instalações do F.C.Porto e iniciei a minha carreira de boxe lá, com o Treinador Rafael Silva e o Luís Palmeira, fiz o meu primeiro combate amador em Espanha do qual saí vencedor. A partir daí nunca mais parei.

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FightNews: Que filosofia procuras viver e transmitir no teu ginásio CrossPunch?

O desporto, nomeadamente o Boxe, é para todos, seja qual for o seu objetivo, competitivo, saúde ou simplesmente lazer. Essa é a minha principal visão.
Quero acabar com o estereotipo de que o Boxe é um desporto masculino, e perigoso.
Qualquer pessoa que venha treinar connosco vai-se sentir incluída, capaz e satisfeita por estar a praticar uma modalidade olímpica e nobre como o boxe.
O Boxe é um desporto individual, que na minha visão como técnico desportivo e também Pai, acho muito mais benéfico para a formação de uma criança do que os desportos coletivos (nomeadamente o famoso futebol que todos os pais procuram). No CrossPunch apesar do atleta estar sozinho em cima do ringue, houve todo um processo em equipa que o tornou capaz de estar ali sozinho, a expor-se frente a um adversário e a uma bancada cheia, portanto a equipa tem um papel fundamental na formação e prestação do atleta (individual), o que faz com que este desporto seja altamente inclusivo e social.

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FightNews: O que é que o boxe pode ensinar que também serve para a vida do dia a dia?

Já o disse anteriormente, o Boxe, para mim é a escola da vida, quando achamos que somos os melhores aparece sempre alguém para mostrar que não é bem assim e que temos que continuar a trabalhar arduamente. Esta premissa é transversal para tudo na vida. Trabalha arduamente que as oportunidades vão surgir.
E é isso que tento passar para os meus alunos. Nunca podemos estar satisfeitos com nenhum resultado, temos sempre que querer sempre mais e melhorar constantemente.
Continuo a achar que o Boxe devia ser dado nas escolas, por pessoas formadas e adequadas, acho mesmo que seria uma mais valia para todas as crianças.
Sou muito agradecido aos meus pais por me terem levado para as artes marciais, e posteriormente para o Boxe.
E sou muito agradecido aos meus atletas e respetivos pais por me confiarem a sua saúde e integridade física. Por isso eu continuo a estudar para lhes dar sempre os melhores treinos e estar ao nível do crescimento deles.

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Boxe feminino em Portugal

FightNews: Que mudanças tens observado no boxe feminino nos últimos anos em Portugal?

Não tantas quanto gostaria. Mas vou vendo algumas melhoras.
A existência de mais arbitras do sexo feminino é uma enorme mais valia. Vejo algumas treinadoras e também mais atletas que antigamente.
O vosso movimento por si só já é muito positivo, as meninas vêm que têm acesso à modalidade, já existem muitos mais clubes com treinadores formados, e as mulheres não vão ser descriminadas mas sim tratadas de igual forma aos atletas do sexo masculino.

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FightNews: Onde ainda existem obstáculos ou desafios?

Eu tenho várias atletas comigo, que treinam mesmo muito. Sofrem com a questão alimentar, treinam duas vezes por dia a conciliar com trabalho, e muitas vezes chegamos a campeonatos e não temos adversárias… é triste e inglório.
Acho que as instituições (federação, clubes) têm que ser mais inclusivas com as mulheres.

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FightNews: O que falta mudar para que o boxe feminino continue a crescer em Portugal?

A mentalidade dos treinadores e clubes.
É preciso saber receber, ajustar o discurso para serem mais inclusivos. O ambiente ainda é muito pesado em algumas academias e também em alguns eventos… isso tem que mudar.

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FightNews: Que medidas concretas poderiam ajudar a trazer mais raparigas e mulheres para o boxe?

Primeiro não tentarem generalizar regras. Somos diferentes, e ao tentarem igualar, na minha opinião só vão afastar.
Tentaram retirar os capacetes das mulheres, que felizmente não avançou.
Acho mesmo que temos que abordar a modalidade da seguinte forma:
• Boxe Feminino
• Boxe Masculino
Porque são distintos, e devem ser tratados como tal.
Mais arbitras mulheres, fazer ações de formação com mulheres de sucesso na área, por exemplo: falar com uma campeã olímpica e trazê-la cá para partilhar a experiência.
Obrigar as atletas a ter um nutricionista, ainda me choca ver mulheres atletas (com muita experiência) a treinar o ano todo de fato sauna… já não se usa. Um bom nutricionista consegue evitar isso. E os treinadores têm que saber que uma mulher a perder peso é muito diferente de um homem. E os treinadores em Portugal ainda não estão preparados para isso.
Criar um departamento de psicologia nos clubes ou federação (para ambos os sexos) e perceber o impacto que a competição, perda de peso, relação da modalidade com o quotidiano tem na sua mentalidade.

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O teu ginásio & o teu papel

FightNews: O CrossPunch é conhecido por ter uma das maiores equipas femininas de competição em Portugal. Como conseguiste atrair tantas mulheres para o boxe?

Não sei em que ponto é que me comecei a “especializar” mas penso que é por tudo aquilo que mencionei acima. Eu não trato nenhuma delas de igual forma. Conheço todas as “manias” e requisitos de cada uma, e com isso consigo guiá-las para o sucesso da forma que eu acredito que seja a melhor.
É muito mais fácil conseguir a admiração e respeito de um atleta masculino do que uma atleta feminina. Por isso temos que nos adaptar.
O Respeito é a base, eu respeito-as e elas respeitam-me.
Sou o maior fã delas todas.

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FightNews: O que é que outros clubes e treinadores podem aprender com a tua experiência?

Com tudo o que disse acima, mudem a forma de falar, e respeitem as atletas.

FightNews: O que gostarias ainda de melhorar ou desenvolver para trazer ainda mais mulheres para a modalidade?

Há um evento na Suécia, que já participamos, e fiquei fã. Golden Girl.
Achei incrível ver 500 mulheres a competir, treinadores, dirigentes, foi mesmo brutal. Foi sem dúvida o evento mais bonito que estive.
Adorava fazer um torneio desses em Portugal, quem sabe um dia.
Mas podemos começar mais pequeno, uma gala exclusivamente feminina, num bom pavilhão com a devida publicidade. Acho que pode ser um começo.

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FightNews: A tua equipa tem várias atletas femininas… O que muda na dinâmica da equipa?

Ter várias meninas a competir é, sem dúvida, uma vantagem. Elas treinam umas com as outras e estão em constante evolução.
Todas elas têm estilos diferentes e isso faz com que todas tenham que se adaptar (só não tenho nenhuma esquerdina)
Para além das meninas que competem, tenho outras com grande nível de boxe que também fazem parte da evolução da equipa. E isso é mesmo gratificante.

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Dimensão pessoal

FightNews: Que impacto teve o boxe na tua própria vida?

Eu escolhi o Boxe, não vim cá parar ao acasos ou porque os meus pais me obrigaram. Experimentei várias modalidades, competi muito noutras áreas, mas o Boxe foi o que mais me identifiquei.
Montei toda a minha vida, tanto pessoal como profissional, à volta do Boxe.
Hoje vivo por cima do meu ginásio, consigo ser um pai e marido presente, consigo ter uma equipa altamente competitiva com grandes ambições internacionais, e ter um negócio que está a prosperar.
Não imagino a minha vida sem o Boxe, de maneira nenhuma. Quando há grandes eventos de Boxe a minha mulher acorda comigo de madrugada para assistir aos combates, por isso a família toda adora o Boxe.

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FightNews: O que significa para ti este desporto – para além do ringue?

Sempre fui uma pessoa disciplinada e com rotinas, isso mantém-me motivado e feliz. O Boxe consolidou-me os valores que os meus pais e familiares sempre me transmitiram.
Ser resiliente, nem sempre as coisas correm como expectamos, e temos que saber lidar com isso e dar a volta por cima.
Ser humilde, o trabalho tem que ser constante, tanto no desporto, no negócio e nas relações (amor e amizade).
Nada nesta vida é garantido, por isso temos que estar sempre a criar novas dinâmicas para não cairmos naquela rotina que hoje pode ser boa, mas amanhã pode ser fatal.
Isto e muito mais foi-me ensinado pelo Boxe.

Comparação com o CrossFit

FightNews: Em Portugal, a percentagem de mulheres no CrossFit é maior do que no boxe. Porquê?

O Crossfit tem esquemas de competição muito mais abrangentes… existe uma categoria de “Scale” que é um escalão mais iniciado, como existe no Kickboxing o Light contacto. Não sei se isto se poderia aplicar no Boxe, mas no Kickboxing e CrossFit funciona muito bem.
Depois a comunidade do CrossFit é muito mais unida… No Boxe há muitas intrigas e inimizades inexplicáveis… As pessoas querem ser todas melhores que o vizinho do lado… acredito que esse não seja o caminho… Somos tão poucos, acho mesmo que eventos em conjunto, torneios, Seminários, Workshops, entre nós todos seria o caminho para alcançarmos o número de praticantes do CrossFit (feminino).

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FightNews: O que é que o boxe poderia aprender com o CrossFit?

Foi o que disse na questão acima, não afastar, mas sim incluir.
Criar escalões de competição, dar testemunhos de atletas já praticantes, ir às escolas, organizar mais galas/torneios.

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FightNews: Que ideias do CrossFit poderiam ser integradas no boxe para atrair mais mulheres?

Associar a modalidade a boas marcas desportivas, as meninas são vaidosas, e se marcas desportivas usarem a nossa imagem pode ajudar a promover a modalidade, e posteriormente trazer mais atletas.
Volume de torneios, galas, Workshops. O CrossFit está sempre a organizar provas, isso gera dinâmica e cria relações.
O boxe tem que ser mais social, mais inclusivo, os pais não podem ter receio de ir a um ginásio de boxe e inscrever as suas filhas.

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