
Com apenas dois anos de prática, Pia Gracia tornou-se uma apaixonada pelo Boxe. A treinar na CrossPunch, encontrou no desporto não apenas uma modalidade competitiva, mas uma paixão transformadora que moldou a sua disciplina, confiança e visão para o futuro. Nesta entrevista, a jovem atleta partilha como o Boxe entrou na sua vida, o impacto profundo que teve no seu desenvolvimento pessoal e escolar, a importância das mulheres na modalidade e o papel fundamental da união feminina no ginásio.
FightNews: Como chegaram ao Boxe?
Pia Garcia: Comecei a praticar boxe há dois anos. Nunca me tinha imaginado fazendo boxe, mas depois de praticar muitos desportos e nunca encontrar a minha paixão, uma amiga minha convenceu-me a fazer uma aula de boxe. Desde esse primeiro dia, adorei todo. Ao início só ia a duas aulas por semana, mas com o tempo, gostava mais e mais dos treinos e agora já não me imagino sem o boxe.
FightNews: O Boxe mudou alguma coisa na vossa vida?
Pia Garcia:Para mim o boxe mudou todo. Fez-me a criar uma rotina diária que me ajudou a ser mais disciplinada não só nos treinos, mas também nos na escola. Estou no décimo-primeiro ano da escola e há muitas vezes que sinto dificuldade em lidar com todo o trabalho que tenho para a escola e também com os treinos diários, mas depois de dois anos no boxe, sinto-me capaz de lidar com todo isto. Mas mais do que isso, graças ao boxe, sou uma pessoa muito mais confiante do que era antes. Aprendi que consigo fazer qualquer coisa se eu trabalhar o suficiente para o alcançar e também aprendi a não ter medo do que as pessoas pensam ou dizem.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews:Como se sentem a treinar no vosso ginásio, onde há várias mulheres?
Pia Garcia: Sinto que treinar num ginásio com tantas mulheres ajuda-me a sentir-me mais confortável e inspirada. Pode ser intimidante fazer um desporto que as pessoas veem como masculino. Parece que as pessoas não me levam a sério quando digo que faço boxe. Mas ter um ginásio no qual a maioria dos atletas de competição são mulheres devolve-me toda a confiança que eu preciso. Sinto que posso contar com elas para qualquer coisa e que tenho sempre alguém que percebe como é fazer boxe como mulher.
FightNews: Acham que ter muitas mulheres na equipa faz diferença?
Pia Garcia: Acho que sim. Sinto que aprendemos muito umas das outras e cria uma sensação de comunidade na equipa que duvido que exista em clubes com menos mulheres. Acho que a experiência de praticar boxe é muito diferente para mulheres e ter uma equipa maiormente feminina faz todo menos intimidante e estamos lá para nos ajudar entre nós.

Imagem Instagram
FightNews: Isso ajuda na motivação e na melhoria no treino diário?
Pia Garcia: Ter muitas colegas de equipa femininas ajuda muito na melhoria no treino diário porque conseguimos puxar-nos ao nosso máximo potencial. Às vezes quando faço sparring com os rapazes da equipa eles sentem receio porque não querem magoar e por isso não conseguimos treinar ao máximo. Com as raparigas, isso não existe. Puxamos até o limite para nos combates estarmos no nosso melhor.
FightNews:Há mais espírito de apoio ou também rivalidade?
Pia Garcia: Tem muito espírito de apoio enorme entre nós e também amizade, e por isso acho que também há um espírito de rivalidade, só porque sabemos todo o esforço que fazemos nos treinos e nas dietas e queremos tanto que…

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Porque decidiram participar em competições de Boxe?
Pia Garcia: Eu decidi competir porque pensava que era uma maneira de mostrar todo o esforço que eu fazia nos treinos. Depois de um ano a treinar, o meu treinador perguntou-me se eu queria começar a competir. Eu ao início estava com dúvidas e não tinha certeza que queria competir, mas o meu treinador continuou a insistir. Comecei a imaginar-me na equipa e a entrar em ringues, gostei mais e mais da ideia. Outro problema foi tentar convencer os meus pais que ao início estavam completamente contra eu competir.
FightNews: O que acreditam que mudou desde que começaram a competir?
Pia Garcia: Eu aprendi a lidar com o stress e os nervos, o que é uma coisa que sempre foi difícil para mim. Não é nada fácil subir a um ringue com pessoas a olhar para ti e uma adversária que também quer muito ganhar. Mas com estas experiências de competições, aprendi a ultrapassar tudo isso e focar no que realmente importa, que é mostrar o trabalho e o esforço.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews:Ainda há poucas mulheres no Boxe em Portugal. O que poderia mudar isso?
Pia Garcia: Acho que o que falta é motivação para as mulheres juntarem-se ao boxe. É um desporto muito diferente ao resto que quer confiança, mas temos de mostrar a toda a gente que está bem-vinda.
FightNews: Acham importante trazer mais mulheres para o Boxe?
Pia Garcia: Acho importante para poder aumentar o nível de competição e especialmente o número de adversárias. Agora, as minhas colegas da equipa sempre competem contra as mesmas adversárias em campeonatos que não sejam internacionais porque existe um número muito pequeno de mulheres a competir.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews:Que medidas poderiam ajudar a aumentar o número de participantes femininas?
Pia Garcia: Acho que criar eventos que promovem a participação feminina no boxe pode motivar as pessoas a aderir e a criar mais visibilidade que atualmente ainda não é muito comum.
FightNews: Conseguem imaginar-se como treinadora, árbitra ou dirigente no futuro?
Pia Garcia: Eu admiro muito o esforço e a dedicação dos meus treinadores e todo que fazem por nós para nos preparar para combates, não só ao nível técnico e físico, mas também mental. Acho que um bom treinador muda todo na vida dum atleta e se calhar, no futuro gostava de formar parte dessa comunidade e ajudar atletas a chegar à sua melhor versão.
Sobre funções de liderança, por agora não sei. É um trabalho muito importante para melhorar os eventos de competições e a organização, mas não sei se eu imagino ter essa responsabilidade.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Que mensagem deixariam a uma rapariga que nunca experimentou Boxe?
Pia Garcia: A minha mensagem seria que não tenham medo de experimentar porque nunca sabem o que vos pode trazer a vida. O boxe pode não ser para vocês, mas também pode mudar a vossa vida como mudou a minha. Não consigo imaginar o meu dia a dia sem o boxe e acho que foi a melhor coisa que já me aconteceu.
FightNews:Quais são para vocês as maiores vantagens de praticar Boxe?
Pia Garcia: Praticar boxe tem tantas vantagens. Aprende-se a ser disciplinado, trabalhador e a nunca desistir. Pode parecer um desporto muito agressivo, mas sinto que ajuda a controlar e a liberar emoções, o que é importante de saber fazer em qualquer altura da vida.