
Com um percurso sólido nos desportos de combate e uma paixão que vai muito além do ringue, Vera Monge é hoje uma das grandes vozes femininas na arbitragem em Portugal. Árbitra desde 2016 de Kickboxing e Muay Thai, recentemente assumiu também funções no boxe, onde continua a inspirar e a abrir portas a outras mulheres. Nesta entrevista, fala sobre o seu caminho, os desafios da arbitragem e a importância da representatividade feminina no desporto.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Quem é a Vera Monge, para além do boxe?
Vera Monge: Para além do ringue, sou uma pessoa bastante comum. Tenho uma vida profissional fora do desporto, mas é nos desportos de combate que encontro a minha paixão e o meu propósito. Gosto de me manter ativa, de aprender constantemente e de passar tempo com a família e amigos, que são o meu grande suporte.
FightNews: Como surgiu a vontade de ser árbitra de boxe?
Vera Monge: Tudo começou com um convite que veio coroar o meu percurso. Sendo árbitra na FPKM desde 2016 e, mais recentemente, tendo sido honrada com a nomeação para Delegada Representante dos Árbitros, fui convidada a ingressar na formação de arbitragem de boxe. Este convite foi um reconhecimento do meu trabalho e uma oportunidade de crescimento que abracei de imediato.
O meu caminho no boxe foi, assim, um passo natural, impulsionado pelo desejo de alargar horizontes e contribuir com a minha experiência para enriquecer esta modalidade. A FPKM foi sempre um esteio fundamental nesta jornada, e este novo desafio, com o apoio que igualmente tenho na Federação Portuguesa de Boxe, permitiu-me não só evoluir como profissional, mas também reforçar o meu compromisso de abrir portas e inspirar outras mulheres a seguir cargos de liderança no desporto, principalmente nestas modalidades em que o papel da mulher era bastante reduzido.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: É possível ser árbitra sem nunca ter sido atleta?
Vera Monge: A minha experiência é um pouco particular, pois fui atleta de Muay Thai. Essa vivência dentro do ringue deu-me uma perspetiva inestimável. Consigo entender intuitivamente o timing, a distância, o esforço e a estratégia dos atletas, o que é uma mais-valia enorme para tomar decisões precisas.
No entanto, não é um requisito obrigatório. O que é verdadeiramente fundamental é um estudo profundo e obsessivo das regras, uma preparação física de excelência para se estar no sítio certo à hora certa e, acima de tudo, a integridade e o carácter para se ser imparcial. Conheço excelentes árbitros que nunca competiram, mas que se tornaram especialistas através de muita dedicação, observação e vontade de aprender.
A paixão pelo desporto e o compromisso com a sua justiça são o verdadeiro alicerce.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: O que é que é preciso para se tornar árbitra – pode qualquer pessoa conseguir, com esforço e dedicação?
Vera Monge: É preciso três ingredientes principais: conhecimento, preparação física e carácter. O caminho começa com a frequência de um curso de formação, onde se aprendem as regras na teoria e na prática. Depois, é necessário um período de estágio, onde se arbitra sob supervisão.
Sim, com esforço, dedicação e uma paixão genuína pelo desporto, qualquer pessoa pode conseguir. A mentalidade certa é tão importante quanto a capacidade física.
FightNews: O que é que aprendeu para a sua vida pessoal ao ser árbitra?
Vera Monge: Aprendi lições incríveis. A tomar decisões sob pressão, a manter a calma em situações de grande tensão e a lidar com críticas de forma construtiva. A arbitragem ensina-nos a ser justos, assertivos e humildes ao mesmo tempo. Fora do ringue, estas são competências preciosas para a vida.
FightNews: De que forma o boxe mudou a sua vida?
Vera Monge: O boxe, e os desportos de combate no geral, deram-me uma confiança que não sabia que tinha. Deram-me uma comunidade, uma família desportiva. Ensinaram-me disciplina, respeito e a lutar pelos meus objetivos, literal e figurativamente. Dirigir um combate no centro do ringue é uma experiência que fortalece o carácter de uma forma única.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews. Qual é a sensação de estar no ringue como árbitra?
Vera Monge: É uma sensação de responsabilidade absoluta. Há um silêncio peculiar dentro do ruído da arena, onde toda a minha concentração está naqueles dois atletas. É um misto de adrenalina e foco total. Sinto o peso da decisão, mas também a honra de garantir que o combate é justo e seguro. É onde me sinto completamente no meu elemento.
FightNews: Os resultados dos combates são muitas vezes contestados – como podemos trazer mais justiça e transparência às competições?
Vera Monge: A justiça e a transparência constroem-se através de vários pilares. Primeiro, é essencial investir na formação contínua e uniformizada de todos os oficiais, assegurando que árbitros e juízes estão todos alinhados com os critérios de avaliação mais atuais e consistentes.
Segundo, a tecnologia é uma aliada fundamental; a implementação do replay instantâneo (Instant Replay Review), já utilizado em competições de alto nível, permite retificar decisões liminares erradas e aumenta a confiança de atletas e espetadores.
Terceiro, a diversidade nos painéis de juízes enriquece a tomada de decisão, trazendo diferentes perspetivas e reduzindo possíveis enviesamentos. Por fim, uma comunicação clara sobre as regras e critérios de pontuação para atletas, treinadores e público ajuda a gerir expetativas e a promover um entendimento mais alargado das decisões.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: O que é que as mulheres no boxe (árbitras, atletas, treinadoras) podem fazer para trazer mudança?
Vera Monge: Podemos, em primeiro lugar, existir. A nossa presença já é uma mudança. Depois, podemos desempenhar os nossos papéis com a máxima competência e profissionalismo, calando pela qualidade do nosso trabalho.
Podemos ser mentoras, apoiar as mais novas, denunciar situações de desigualdade e insistir para termos um lugar à mesa onde as decisões são tomadas.
FightNews: O que pode cada mulher, individualmente, fazer dentro do desporto para abrir caminho às outras?
Vera Monge: Cada uma deve focar-se em ser excecional no que faz, seja a dar uma aula, a treinar ou a arbitrar. Devem ser confiantes, afirmarem-se e voluntariarem-se para oportunidades.
Mas, talvez o mais importante, é serem solidárias. Partilhar conhecimento, recomendar outra mulher para um evento, ou simplesmente dar uma palavra de apoio faz toda a diferença.
FightNews: De que forma as mulheres podem ajudar-se e apoiar-se mutuamente no boxe?
Vera Monge: Criando uma rede de suporte. Em vez de vermos outras mulheres como concorrência, devemos vê-las como aliadas. Partilhar experiências, formar uma associação, organizar sessões de formação só para mulheres para ganharem confiança... são gestos que fortalecem todas nós.
Uma puxa pela outra, literalmente.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Existem outras modalidades, dentro e fora dos desportos de combate, das quais o boxe feminino pode aprender?
Vera Monge: Sem dúvida. O ténis e o futebol feminino são excelentes exemplos de modalidades que lutaram pela sua visibilidade e direitos iguais.
Dentro dos desportos de combate, o judo tem uma representação feminina muito forte há muitos anos, tanto em atletas como em treinadoras e árbitras. Devemos estudar as estratégias que elas usaram para conseguir mais cobertura mediática e patrocínios.
FightNews: O que é que o boxe pode aprender de outras artes marciais ou modalidades onde já existem mais mulheres – como é que essas modalidades conseguiram evoluir?
Vera Monge: Pode aprender que a representação gera representação. Essas modalidades promoveram ativa e intencionalmente as suas atletas, criaram ídolos e histórias com que as miúdas se pudessem identificar.
Investiram na base, na formação de jovens, e normalizaram a presença feminina em todos os níveis. O boxe precisa de fazer o mesmo: dar palco às suas mulheres, não só como atletas, mas como treinadoras, dirigentes e árbitras, para mostrar que este é um espaço que também nos pertence.

Imagem cedida Miriam Rautenberg
O exemplo de Vera Monge mostra que cada mulher pode encontrar o seu lugar no boxe, seja como atleta, treinadora, árbitra ou dirigente.
Com dedicação, coragem e espírito de entreajuda, é possível inspirar outras mulheres e transformar o futuro da modalidade.