
A atleta portuguesa Mariana Gomes vai representar Portugal no Campeonato do Mundo de Kung Fu Tradicional, que decorrerá em Emeishan, na China, a terra natal do tai chi. Após conquistar o pódio no Europeu, a convocatória para o Mundial surge como a confirmação do trabalho desenvolvido e como um novo desafio na sua ainda recente, mas promissora, carreira na modalidade. Em entrevista, Mariana fala sobre a preparação intensa, a importância de competir no palco máximo do Kung Fu, os objetivos para a prova e deixa uma mensagem de motivação para todos os jovens atletas.

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FightNews: Como foi receber a notícia de que foste convocada para representar Portugal no Campeonato do Mundo de Kung Fu Tradicional?
Ser convocada para representar Portugal no Campeonato do Mundo é uma conquista em si mesma. Foi uma confirmação do resultado que conquistei no Europeu de Kung Fu Tradicional. É mais uma oportunidade de dar voz ao tai chi, como modalidade competitiva.
FightNews: Como tens organizado os teus treinos para chegar em excelente forma ao Campeonato?
Os meus treinos estão divididos em condicionamento físico, treino de tai chi, aperfeiçoar as formas que vou apresentar em prova, treino mental, e repouso – essencial à optimização do treino.
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FightNews: Tens trabalhado algum aspeto técnico ou físico específico para este evento?
Sim, tenho. Esta fase de pré-competição é o momento para consolidar a amplitude física. Estou a implementar estratégias de treino mental e a sistematizar treino de rotina, como a fluidez, elasticidade e posições baixas. Estou a dar ênfase ao trabalho do Fajin, a explosão de força, a deslocação da energia para um impacto em potência. O domínio do Fajin é uma prática que pode demorar anos de experiência a desenvolver. Ter essa consciência permite resistir à vontade de precipitar algo que tem um tempo próprio.
Outra especificidade que não posso deixar de trabalhar é o reforço dos grandes grupos musculares e dos músculos que apoiam os joelhos. Não me lesionar é um objetivo em si mesmo.
FightNews: Como concilias a rotina de treinos com outras responsabilidades do dia a dia?
Os treinos acontecem sempre que possível. Uns treinos são antes do nascer do sol, antes de ir trabalhar, outros são ao final da tarde, outros à hora de almoço, dependendo da disponibilidade dos treinadores e da minha em termos familiares e laborais. Exige bastante organização e disciplina na rotina. Nem sempre é fácil, não é linear.
O meu caso será semelhante ao de muitas pessoas que fazem desporto de forma não profissional em Portugal. Não podemos deixar de trabalhar para treinar. Os treinos, os campeonatos, as deslocações, a recuperação, a alimentação custam dinheiro. O nosso país não tem estrutura desportiva que apoie estas modalidades. Se queremos continuar, temos de ter alicerces familiares que nos segurem, e não podemos relegar o treino para o momento de motivação. A motivação vacila, a disciplina persiste.
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FightNews: Quais são os teus objetivos pessoais para este campeonato em Emeishan?
O meu objetivo principal para este campeonato é fazer a melhor prova que já fiz.
De notar que não conheço de antemão as adversárias, tenho uma ideia de quem possam ser. Não conheço os critérios do júri do mundial, podem ser mais orientados para a marcialidade ou para um tai chi mais tradicional. Há regulamentos a cumprir, no entanto a modalidade assenta em parte em avaliação de carácter subjetivo.
Tenho um respeito profundo e admiração pelas atletas contra quem poderei competir, contudo apenas saberei ao certo quem são no dia da prova ou uns dias antes, quando saem as listas da competição. Desta forma, o meu objetivo só pode passar pelo que conheço: a minha preparação. Será, portanto, uma prova contra mim própria.
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FightNews: Que significado tem para ti representar Portugal num evento tão importante?
É a minha estreia num campeonato mundial.
A esta distância, a dimensão de um palco destes, na China, parece avassaladora, e cumulativamente é um combustível para uma garra e atitude renovadas.
Estou ciente e entusiasmada por ir competir na casa-mãe, a terra natal, do tai chi.
Há em mim um respeito solene, quase divino, em relação à narrativa que vou personificar em Emeishan.
Ter consciência de que repetir o pódio do Europeu pode não ser alcançável, desta vez, ainda, mas estou a trabalhar como se fosse, removendo esse obstáculo do caminho.
Há uma tradição estatística em que atletas asiáticas conquistam os lugares cimeiros da tabela, naturalmente devido ao trabalho exímio que desenvolvem. Veremos se Portugal quebra essa tradição e se eu sou aquela que impulsiona a mudança.
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FightNews: Depois deste campeonato, quais são os teus próximos objetivos no Kung Fu?
Agora, estou concentrada nos treinos para este campeonato. Continuarei a trabalhar, a aprender, a explorar esta prática milenar, na qual apenas entrei formalmente há 3 anos.
Pretendo ser consistente no meu treino e almejar para além do tai chi tradicional, de preferência ser uma embaixadora do tai chi em Portugal.
É uma longa caminhada, da qual estou a tirar o melhor partido e a devolver o meu máximo.
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FightNews: Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos jovens atletas que te veem como exemplo?
Aos atletas da minha idade, continuem, tracem objetivos, façam o que vos motiva, tudo é possível. Eu sou prova disso!
Aos atletas mais novos, apareçam no tai chi, como complemento ou atividade principal, é um excelente promotor de vitalidade.
A mensagem vai igualmente no sentido de se aplicarem no treino mental. Lembrar que se o treino foi perfeito é porque não nos estamos a desafiar o suficiente. O corpo consegue fazer muito mais do que a limitação dos nossos medos. Há que acolhê-los, cuidar deles e transformar esses medos em entusiasmo.