
Num contexto em que o Karate continua a afirmar-se como uma das disciplinas mais estruturadas dentro das artes marciais, tanto pela sua dimensão formativa como pelo rigor competitivo, o percurso de Arthur Nogueira ajuda a compreender o que está por trás de um título internacional.
Formado na Academia Machida, Arthur construiu o seu caminho desde cedo num ambiente onde a prática ultrapassa a técnica e se inscreve numa lógica de disciplina, exigência e desenvolvimento pessoal. A conquista do título mundial da JKA, alcançada no Japão em outubro de 2024, representa não apenas um resultado competitivo, mas a consolidação de um processo longo e consistente.
Nesta entrevista à Fight News, Arthur Nogueira revisita as suas origens, a formação e a experiência no Mundial, abordando também o impacto do acompanhamento técnico no momento competitivo, com destaque para o papel do sensei Paulo Pestana na gestão do foco e da performance. Um testemunho que permite olhar para o Karate para além do combate, enquanto prática que molda comportamento, decisão e identidade.
Fight News: Como começou a tua ligação ao Karate?
Arthur Nogueira: Quando eu era criança, por volta dos 5 anos, a minha professora disse à minha mãe que eu tinha alguma dificuldade em socializar com as outras crianças. Foi aí que ela decidiu colocar-me na Academia Machida da Pedreira, onde comecei a treinar Karate, Judo e Capoeira. Com o tempo, acabei por deixar as outras modalidades e escolhi dedicar-me apenas ao Karate.

Imagem: Arthur Nogueira e Sensei Machida
Fight News: O que é que o Karate representa para ti hoje?
Arthur Nogueira: Essa formação fez-me olhar para o Karate de uma forma muito mais especial do que apenas uma luta. Para mim, é uma arte marcial com uma filosofia muito bonita, que colocou pessoas muito importantes na minha vida e teve um papel fundamental na construção do meu caráter.
Fight News: Quem foram as pessoas mais importantes no teu percurso dentro do Karate?
Arthur Nogueira: Vários senseis passaram pela minha vida na Academia Machida, e cada um teve um grau de importância na pessoa que sou hoje. Posso destacar o sensei Machida, o sensei André, o sensei João e outros, mas principalmente o sensei Lucas, que construiu a base do meu Karate desde o início até aos meus 13/14 anos. Depois disso, o sensei Vítor foi quem mais me acompanhou, sobretudo na musculação e na preparação para o kumite.

Imagem: Arthur Nogueira e Sensei Vítor

Imagem: Arthur Nogueira e Sensei Lucas
Fight News: O que significou para ti conquistar o título mundial da JKA?
Arthur Nogueira: Para mim, foi a realização de um sonho que durante muito tempo pareceu impossível. Lembro-me de quando comecei a treinar mais a sério para competir e perguntava ao meu sensei como eram o Campeonato Brasileiro e o Mundial, quem eram os melhores atletas — e tudo isso parecia muito distante da minha realidade. Mesmo assim, sempre sonhei em ser campeão mundial da JKA. Pesquisava, via tudo o que podia sobre isso. Por isso, até agora, o dia 25/10/2024 foi o dia mais feliz da minha vida.

Imagem Ringo Oshima - (Sensei Andre e Sensei Paulo Pestana)
Fight News: Como viveste a experiência de competir no Japão?
Arthur Nogueira: O Japão sempre foi o país que eu mais queria visitar. Desde que o avião aterrou, eu já estava a chorar de felicidade, porque parecia que estava a viver um sonho acordado. Aproveitei muito a viagem antes da competição, mas havia um motivo muito forte para estar ali. Todas as noites, antes de dormir, imaginava como seria ganhar o campeonato. Quando visitámos o ginásio, entrei num dos tatamis para sentir o ambiente e imaginar-me a lutar com tudo o que tinha.
No dia da competição, estava 100% focado, mais do que em qualquer outro campeonato. Não pensava “e se eu perder?”. Na minha cabeça só existia uma ideia: “Eu vou ser campeão mundial.” À medida que as lutas iam passando, a minha confiança aumentava. E, quando chegou a final, não havia mais nada além do momento presente e do pensamento: “Não cheguei à final para ficar em segundo.”

Imagem: Ringo Oshima
Fight News: Como foi a tua experiência com o sensei Paulo Pestana durante o Campeonato do Mundo?
Arthur Nogueira: Conheci o sensei Paulo no próprio Campeonato do Mundo, mas praticamente só falei com ele pela primeira vez no dia da competição. Antes disso, a minha mãe já sabia que ele seria o técnico e disse-lhe: “O meu filho tem cara de que não bate em uma mosca, mas ele é bom.” Eu nem sabia disso.
No dia da competição, o sensei Paulo ajudou-me muito a manter o foco no objetivo principal. Dizia-me para observar as lutas dos adversários, orientava-me em relação ao que estava a acontecer no momento e ajudou a alimentar a minha confiança.
Lembro-me de que, depois de uma das primeiras lutas, ele perguntou como eu me sentia e eu respondi: “Eu vou ganhar.” E ele disse: “Eu acredito nisso.”
Foi muito importante para mim nessa parte mental, manter o foco, ajustar a minha atenção ao que estava a acontecer e conseguir maximizar a minha performance até à última luta.

Imagem: Ringo Oshima - (Arthur Nogueira e Sensei Paulo Pestana)
Fight News: Que valores levas do Karate para a tua vida?
Arthur Nogueira: Os principais valores que levo comigo são saber controlar-me diante de situações adversas, respeitar as pessoas para também ser respeitado, comprometer-me verdadeiramente com aquilo que faço e não dar desculpas à toa.

Imagem: Ringo Oshima
Fight News: Quais são os teus objetivos para o futuro?
Arthur Nogueira: A curto prazo, quero continuar a treinar o que for possível na universidade, tentando conciliar os estudos com o Karate, o que tem sido difícil. Quero competir no Campeonato Brasileiro da JKA este ano e participar em todos os campeonatos que forem possíveis. Mas, para além das competições, não quero deixar de treinar Karate nunca e também quero manter-me próximo da família que o Karate me deu.
Fight News: Que mensagem deixarias a quem está a começar no Karate?
Arthur Nogueira: Diria para persistirem no Karate, porque é uma arte marcial com uma filosofia muito bonita. Para além dos benefícios para a saúde, vai ajudar-te a evoluir como ser humano. Assim como trouxe muitas coisas boas para a minha vida, também pode trazer para a tua.













