
Com uma vida inteiramente dedicada às artes marciais, mestre Francisco Azevedo é um dos nomes históricos do Muay Thai brasileiro. Membro antigo da Confederação Brasileira de Muay Thai (CBMT), mestre formado pela entidade, delegado e árbitro sénior, o treinador participou na formação de diversos campeões nacionais e contribuiu para o desenvolvimento de atletas que chegaram ao topo mundial.
Nesta entrevista, o mestre recorda o início da sua caminhada, aborda a evolução do Muay Thai no Brasil e revela os valores que considera essenciais para dentro e fora do ringue.

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FightNews: Como surgiu a sua paixão pelas artes marciais e de que forma começou o seu percurso no Muay Thai?
Acredito que, como a maioria das crianças, comecei na capoeira com o mestre Timbó, mas não deu para mim, porque era muito duro. Ainda na infância, conheci o judo com o grão-mestre Milton Martelo. Em 1986 e 1987 comecei na musculação e fui convidado pelo professor Pedro a treinar para competir no fisiculturismo pela Academia Floriano de Carvalho. Nunca consegui melhor do que um terceiro lugar.
No final de 1989 conheci o boxe tailandês e fiquei completamente fascinado. Nunca mais saí. Comecei no Muay Thai com a mestra Marlene Lopes. Para melhorar o meu jogo de mãos procurei o boxe inglês com o professor Santa Rosa. O meu ídolo era Marcos Ruas. Eu queria bater como ele (risos).
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: Ao longo de décadas ligadas ao desporto, quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória?
Tenho vários, mas aquilo que mais me marcou e me fez levar os treinos a sério foi um chute que levei no rosto de um colega de treino, o Sérgio. Arrancou-me um dente e partiu as pontas dos dentes frontais superiores. Quase perdi um pedaço da língua.
Ali mudei completamente a minha mentalidade. Treinei muito até devolver-lhe o "couro" que me deu. A partir daí nunca mais perdi uma luta para ele.
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: Como avalia a importância da Confederação Brasileira de Muay Thai na organização e desenvolvimento da modalidade?
É de suma importância e relevância. Antes, o boxe tailandês tinha apenas uma secretaria dentro da Federação de Boxe, gerida pelo grão-mestre Gold Narane.
Hoje temos a CBMT, a primeira entidade brasileira da modalidade filiada aos dois maiores organismos mundiais de Muay Thai, a WMF e a PAMC. Isso permite-nos competir pelo mundo. Na minha opinião, a CBMT organizou e representa diretamente o crescimento do desporto no Brasil.
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: Sendo um dos membros mais antigos da CBMT, como viu a evolução do Muay Thai brasileiro?
Posso dizer que a luta foi grande. No Rio de Janeiro, o grão-mestre Gold Narane trouxe o primeiro tailandês para realizar um seminário em terras brasileiras.
O grão-mestre Flávio Molina iniciou, juntamente com o grão-mestre Luiz Alves, a fundação da CBMT. Mais tarde, o grão-mestre Luiz Alves começou a viajar para a Tailândia e para a Holanda, trazendo novos conhecimentos para o Brasil.
Foi nessa altura que chegaram os aparadores de chutes, os cinturões abdominais, os paos de Muay Thai e as combinações de golpes utilizando membros superiores e inferiores. O grão-mestre Artur Mariano também teve um papel importante, viajando e treinando na Tailândia e na Holanda ao lado do grão-mestre Luiz Alves.
FightNews: Qual é a importância da formação e da credibilidade da arbitragem?
Quando se fala em arbitragem é preciso compreender que cada entidade possui as suas próprias regras. No entanto, é essencial que existam constantemente novos árbitros e que todos estejam em permanente reciclagem. Só assim se consegue garantir total credibilidade ao quadro de arbitragem.
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: O que representa para si acompanhar o sucesso dos seus atletas?
Formei campeões brasileiros, cariocas, pan-americanos e mundiais. Isso representa para mim uma enorme sensação de trabalho realizado.
Sinto que cumpri o meu dever para com eles. Ver os meus atletas comemorarem cada conquista deixa-me orgulhoso e muito feliz.
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: Quais são os valores mais importantes que um praticante de Muay Thai deve transportar para dentro e fora do ringue?
Para mim são três: humildade, lealdade e honra. Não abro mão desta trindade.
FightNews: Qual é o legado que gostaria de deixar às futuras gerações?
Gostaria de deixar uma escola pujante, coesa e vibrante, sem abrir mão da humildade, da lealdade e da honra.
As pessoas poderão dizer o que quiserem a meu respeito, mas nunca poderão dizer que deixei um dos meus para trás.
Imagem cedida mestre Francisco Azevedo
FightNews: Que mensagem gostaria de deixar a todos aqueles que acompanharam a sua caminhada?
Em primeiro lugar, quero agradecer a Deus por segurar a minha mão e nunca me abandonar. É por Ele que ainda estou aqui, por isso toda a honra e toda a glória pertencem a Ele.
A todos os que treinaram comigo e que contribuíram de alguma forma para a minha caminhada, deixo a minha gratidão. Muito obrigado.
E quero dizer que, acima de tudo neste mundo, o Senhor Jesus ama cada um de vocês e convida-vos a cear com Ele. Não se preocupem com a forma como vão. Podem ir do jeito que estiverem. Basta ir.
Com décadas de dedicação ao desporto, Francisco Azevedo ajudou a construir a história do Muay Thai brasileiro dentro e fora do ringue. Entre a formação de campeões, a arbitragem e o trabalho desenvolvido na Confederação Brasileira de Muay Thai, o mestre continua a ser uma referência para várias gerações de atletas, mantendo intactos os valores que marcaram toda a sua trajetória: humildade, lealdade e honra