
Gustavo Ximú, ex-lutador profissional de MMA, faixa-preta de Jiu Jitsu e antigo aluno do mestre Marco Ruas, pioneiro no cross training, fez parte de uma geração que começou a unir várias artes marciais numa só. Ximú construiu uma trajetória marcada pela dedicação, resiliência e paixão.
Nesta entrevista, partilha os bastidores da sua jornada, os aprendizados das artes marciais e a filosofia que o mantém ativo até hoje.

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FightNews: Como foi a tua trajetória até te tornares lutador profissional de MMA?
Gustavo Ximu: Então, eu comecei no Judô aos 4 anos de idade e fiz até aos 10. Aos 12 fui para a Capoeira e fiquei até aos 14, e logo após fui para o Boxe tailandês — que hoje todos chamam Muay Thai. Treinei bastante Muay Thai na academia onde comecei, em Niterói (RJ). O meu professor era muito técnico, e por isso aperfeiçoei muito a parte técnica. Mas eu queria lutar, e lá eles não gostavam de competir. Então, através de um amigo mais velho, fui para uma academia no Rio, no Leme, onde o Marco Ruas dava aulas. Comecei lá em 1993 e nunca mais parei. Comecei a lutar campeonatos de Muay Thai, Boxe, luta livre — e daí começou a minha jornada no mundo da luta.

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FightNews: Começaste no Muay Thai numa época em que ainda havia resistência em misturar modalidades. Que aprendizados o Muay Thai trouxe para a tua vida nesse início, especialmente com a influência do Marco Ruas? E depois, quando mergulhaste no Jiu Jitsu, quais foram os principais ensinamentos?
Gustavo Ximu: Nessa época eu confiava muito no Muay Thai, só na luta em pé. Não sabia nada de chão, nem Jiu Jitsu nem luta livre. Mas após começar na academia do Marco Ruas isso mudou, porque ali além de Muay Thai havia wrestling também, com o Beto Leitão. Então fui naturalmente percebendo o conjunto da luta — o que na época chamávamos “Vale Tudo”. Em pé era Muay Thai, nas quedas o wrestling, e no chão a luta livre. Seguindo o mestre Marco Ruas, tínhamos de estar prontos para tudo — na academia e na rua.

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FightNews: Quais foram os obstáculos mais difíceis que enfrentaste no caminho até te tornares um nome conhecido?
Gustavo Ximu: O obstáculo seria eu mesmo — ter vontade de vencer e acreditar em mim. Os outros eram o financeiro, o dia a dia. Andava de autocarro para ir treinar, não havia telemóvel. Saía de casa de manhã cedo, ia trabalhar, depois treinar e estudar. Foi uma guerra. Ainda nadava de manhã e jogava polo aquático num centro desportivo do governo, um projeto social. O meu dia era tomado — começava às seis da manhã e só chegava a casa à meia-noite. Foram anos e anos assim.

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FightNews: Quem foram as tuas principais influências no começo?
Gustavo Ximu: Foram alguns filmes de Kickboxing com Van Damme, e logo quando começou o primeiro UFC na TV. Identifiquei-me muito.
FightNews: Com o tempo de carreira, que ajustes fizeste no teu treino ou estilo de luta para evitar lesões e manter a longevidade?
Gustavo Ximu: Quando és mais novo, não pensas nisso — queres treinar, lutar, e pronto. A minha primeira grande lesão foi a 24 de maio de 2000: quebrei o tornozelo e tive de colocar placa e parafusos. A partir daí comecei a cuidar-me mais, fortalecer o corpo. Mas é inevitável — numa luta ou num sparring acabas por te magoar. Tenho um total de seis cirurgias e 21 parafusos no corpo — na mão, no braço, no joelho. Mesmo assim continuo ativo, a treinar e competir. Sinto-me bem e adoro a adrenalina.

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FightNews: Que conselho darias aos jovens que querem seguir no MMA, em termos técnicos e mentais?
Gustavo Ximu: Hoje em dia perguntas a alguém novo que quer lutar MMA e ele diz: “Treino MMA”. Mas eu acho que o lutador tem de ter uma origem, ser muito bom em pé ou muito bom no chão — Jiu Jitsu. Eu comecei em pé, e a minha origem é o Muay Thai. Mantive sempre as minhas lutas em pé. Mas nos últimos 10 anos venho a dar muita ênfase ao Jiu Jitsu — o meu nível subiu muito. Tenho todos os títulos da IBJJF e da CBJJ, só me falta o Europeu. Não o conquistei ainda por questão financeira, mas acredito que este ano ou o próximo será o momento.

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FightNews: Qual foi a luta mais marcante da tua carreira?
Gustavo Ximu: A minha primeira luta foi no Japão — ganhei por nocaute em um minuto. Senti-me muito bem, feliz, e já queria lutar de novo. A segunda foi no Meca, no Brasil, valendo tudo, com regras do Pride — dois tempos de 10 minutos e um overtime de 5. Essa luta foi onde me conheci, porque aos 4 minutos já estava morto de cansaço. Falei ao Beto Leitão: “Cansei, acho que não dá mais”. Ele olhou e disse: “Não dá o caralho, vais voltar lá e brigar!”. Voltei, e no primeiro minuto acertei uma joelhada no nariz do adversário... foi ali que percebi que a mente é o que te salva.
FightNews: Como vês a evolução do MMA no mundo nos últimos anos, e na Europa?
Gustavo Ximu: No mundo todo vem crescendo. Primeiro o Japão dominava, depois a América. A Rússia também está forte há algum tempo. Na Europa ainda está mais devagar, mas acredito que vai explodir nos próximos anos, graças à visibilidade que o UFC tem dado.

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FightNews: Que mensagem deixas aos jovens atletas que sonham em viver da luta?
Gustavo Ximu: Acreditar sempre. Treinar muito. Esqueçam essa ideia de fazer “camp” só quando há luta — têm de treinar o ano inteiro, estar sempre preparados para qualquer oportunidade que apareça. Se eu, com todos estes anos de luta, continuo sempre pronto, imaginem quem quer chegar ao topo. Têm de querer mais do que todos. Mente de Campeão é a minha metodologia. Um abraço e obrigado a todos que acompanham o meu trabalho.