
Por ocasião das comemorações dos 100 anos do Gracie Jiu-Jitsu, a Fight News entrevista uma das suas vozes mais marcantes: Kyra Gracie.
Quarta geração do clã que revolucionou as artes marciais, Kyra construiu uma trajetória que uniu tradição e ruptura. Foi a primeira mulher da família a competir em alto nível, a conquistar a faixa-preta e a tornar-se campeã mundial em um universo dominado por homens. Mas esse caminho não foi imediato: no início, enfrentou resistência e até preconceito dentro da própria família, que não via espaço para mulheres no tatame. Só após as conquistas internacionais e a consagração com a faixa-preta é que seu lugar passou a ser reconhecido e respeitado.
Hoje, Kyra não é apenas referência como atleta, ela é também empresária, comentarista, palestrante, mãe e professora. À frente do projeto Gracie Kore, leva o Jiu-Jitsu como ferramenta educacional, emocional e social, sem perder de vista as raízes de Carlos e Hélio Gracie. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre infância, desafios, conquistas, projetos e sua visão crítica sobre os rumos do Jiu-Jitsu contemporâneo.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Quem é Kyra Gracie?
Kyra Gracie: Eu nasci no tatame. Sou a quarta geração da família Gracie e comecei no jiu-jitsu ainda criança, inspirada por uma linhagem com muitos professores e campeões. Com o tempo, transformei essa herança em propósito de vida. Fui atleta profissional, conquistei os maiores títulos internacionais, me tornei a primeira mulher da família a competir, a alcançar a faixa-preta, e única mulher na história a unificar os dois Hall da fama (Kimono e Submission). Atuei como comentarista esportiva em grandes canais e hoje sou empresária, palestrante, influenciadora, mãe e professora. Minha trajetória é uma combinação de tradição, inovação e a missão de inspirar outras pessoas — especialmente mulheres e crianças — a encontrarem sua força interior através do jiu-jitsu educacional com o foco no estilo de vida.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Crescer em uma família marcada por lutadores homens deve ter sido um desafio. Como foi encontrar o seu espaço nesse ambiente e lidar com preconceitos dentro e fora do tatame?
Kyra Gracie: Crescer em uma família de lutadores foi uma escola intensa e desafiadora. Desde cedo, estava cercada por homens fortes, competitivos e muito exigentes. Aos 11 anos comecei a competir e precisei conquistar meu espaço com disciplina, coragem e resultados. Não havia muitas mulheres no tatame naquela época, então enfrentei preconceitos dentro e fora do esporte. Tive que provar que competência não tem gênero. Essa vivência me fortaleceu e me motivou a abrir portas para outras meninas e mulheres que vieram depois.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Você conquistou títulos históricos e abriu caminhos inéditos para as mulheres. Qual foi o momento mais decisivo da sua carreira em que percebeu que estava a construir a sua própria história além do sobrenome Gracie?
Kyra Gracie: Um momento marcante foi quando conquistei meu primeiro título do ADCC. Ali percebi que não era “só” uma menina Gracie: eu era a Kyra que podia escrever a própria história além do sobrenome.
Aquela vitória me deu projeção internacional, abriu caminhos ao redor do mundo e consolidou a ideia de que eu poderia ser uma referência dentro da modalidade.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Depois da carreira como atleta, veio a experiência na televisão. Como foi a transição dos tatames para os bastidores, especialmente como comentarista em grandes canais como Combate, SporTV e Globo?
Kyra Gracie: A transição para os bastidores foi desafiadora, enriquecedora e me deu uma projeção nacional muito além do nicho do Jiu-Jitsu.
Trabalhar como comentarista no Combate, SporTV e Globo me ensinou que eu poderia colocar o que aprendi no Tatame para me superar na vida. Eu precisava traduzir a linguagem do tatame para o grande público, o que ampliou minha visão sobre o esporte e minha capacidade de inspirar novas pessoas a conhecerem essa arte. Antes da TV eu tinha muita dificuldade em falar em público e foi uma grande escola trabalhar na Globo por sete anos.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Hoje você está à frente da Gracie Kore e de vários projetos sociais e educacionais. Pode nos contar em detalhe quais são os pilares desse trabalho e qual o impacto que deseja gerar?
Kyra Gracie: Hoje, meu maior projeto é a Gracie Kore e suas ramificações. Uma escola que nasceu para transmitir o jiu-jitsu de forma educativa assim como Carlos e Helio faziam, com objetivo de formar alunos emocionalmente inteligentes e acessível a todos os perfis — de crianças pequenas a adultos de alta performance, da terceira idade a alunos com necessidades especiais. Nossa metodologia combina aprimoramento técnico de muita qualidade, valores humanos (através do Código 753), defesa pessoal e inteligência emocional. É o estilo de vida do Jiu-Jitsu na prática assim como fazia a primeira geração da Família Gracie.
Além da academia, lidero iniciativas sociais através do Instituto Gracie Kore, que oferece aulas para crianças de comunidades carentes,também aos pais das crianças para que tenham mais qualidade de vida, ensinamos Defesa Pessoal para meninas e Mulheres em situação de vulnerabilidade e também estou à frente da plataforma Gracie Kore, que leva cursos profissionalizantes de jiu-jitsu e mentorias para professores(as) do Brasil e do exterior. Acabamos de lançar a certificação em nossa metodologia de ensino e está um sucesso.
Também atuo como palestrante em empresas e eventos, levando os valores das artes marciais para o mundo corporativo. Tenho três tipos de palestras: O desafio constrói uma nova história; A violência não começa com um soco; Desperte a Campeã que existe em você.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Muitos ainda enxergam o Jiu-Jitsu apenas como competição ou defesa pessoal. Na sua visão, quais são os verdadeiros valores que as artes marciais transmitem para a vida e como vocês trabalham isso na Gracie Kore?
Kyra Gracie: O jiu-jitsu vai muito além do kimono e das competições. Ele ensina autocontrole, respeito, resiliência, disciplina e a capacidade de manter a calma em momentos de pressão. Só que para ser internalizado no aluno é necessário de fato escolher um espaço com professores que estejam conectados a filosofia. Para os alunos da Gracie Kore nosso foco é saúde, bem estar, defesa pessoal e principalmente autocontrole e princípios pra vida. Nosso foco é ensinar ferramentas para a vida, fortalecendo corpo, mente e emoções.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News:Quais são os próximos passos que sonha para o Jiu-Jitsu educacional, para a Gracie Kore e para o fortalecimento do papel feminino dentro da arte? E como você enxerga o cenário competitivo atual?
Kyra Gracie: Meus sonhos continuam grandes. Quero expandir a Gracie Kore internacionalmente, começando pelos Estados Unidos, levando nosso método educacional a mais pessoas com a certificação de professores.
Também tenho planos de fortalecer cada vez mais a parte educacional e feminina usando o jiu-jitsu como ferramenta, criando programas que formem novas lideranças. Competir novamente não está nos meus planos, acho que o meio da competição é um espaço que majoritariamente estimula atitudes que não são boas, condutas erradas que viraram certas e ninguém quer falar sobre esse assunto por medo de boicote, federações que exploram atletas, só pensam em lucrar e não ajudam projetos sociais. Não há democracia, tem o mesmo presidente pra sempre, hoje temos faixa branca assinando diploma de faixa preta na federação. É absurdo atrás de absurdo e ninguém fala nada. Por isso o meu foco hoje é legado do Jiu-Jitsu como filosofia de vida e bem-estar.

Fotos cedidas Kyra Gracie
Fight News: Portugal tem uma comunidade crescente no Jiu-Jitsu. Que mensagem gostaria de deixar aos praticantes portugueses e, em especial, às mulheres que sonham em iniciar no tatame?
Kyra Gracie: Estarei em Portugal em Junho 2026. Aos praticantes portugueses, eu diria: valorizem cada treino e cada detalhe dessa arte. Às mulheres que querem começar, saibam que o tatame é também um espaço de empoderamento, confiança e evolução pessoal, mas tenham muita cautela ao escolher o espaço que vão praticar pois poucos estão preparados para receber a mulher de uma forma respeitosa. E a todos que acompanham minha trajetória: obrigada pelo carinho. Estamos juntos construindo essa história linda!
Mais do que títulos, Kyra Gracie representa uma transformação cultural no universo do Jiu-Jitsu. Sua trajetória mostra que, mesmo dentro de uma família lendária, foi preciso quebrar barreiras de preconceito para conquistar respeito e espaço. Hoje, seu trabalho une tradição e inovação, e sua voz crítica aponta para um futuro onde o Jiu-Jitsu seja mais democrático, educativo e inclusivo.











