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Rita Soares: A Resiliência de uma Campeã

A atleta portuguesa reflete sobre os desafios de conciliar carreira desportiva e profissional, enquanto mantém o sonho olímpico vivo.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
07/11/2024 às 12h51 Atualizada em 15/11/2024 às 09h54
Rita Soares: A Resiliência de uma Campeã
Rita Soares

Rita Soares é uma das mais notáveis pugilistas portuguesas da atualidade, com uma carreira repleta de feitos históricos no boxe feminino. Recentemente, conquistou o seu décimo título nacional, um marco que destaca a sua dedicação e talento numa modalidade ainda em crescimento para as atletas femininas em Portugal. Conhecida por sua resiliência e determinação, Rita enfrenta diariamente os desafios de equilibrar a vida profissional, pessoal e desportiva, tudo em nome do sonho de representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Em entrevista, ela partilha os maiores desafios, aprendizados e o impacto que o boxe teve na sua vida.

FightNews: Antes de mais, parabéns por esta conquista histórica, Rita! Como se sente ao alcançar o seu décimo título nacional?

Rita Soares: Muito obrigada pela oportunidade de participar numa entrevista para o vosso site e agradeço também as felicitações. Em resposta à primeira pergunta, este décimo título tem um sabor especial, considerando que é a décima conquista de um campeonato nacional. Tive de experimentar várias categorias, porque, infelizmente, o boxe feminino ainda não conta com um número muito elevado de atletas a participar. Como queria muito fazer o Campeonato Nacional, tentei competir numa categoria acima daquela em que costumo lutar habitualmente. Gostei. É um sabor muito doce. Fiquei muito contente e trabalhei muito para alcançar este título. É um sabor muito especial.

Imagens cedidas Rita Soares

FightNews: Qual considera ter sido o maior desafio ao longo da sua carreira para alcançar este marco?

Rita Soares: O maior desafio para chegar a este patamar tem sido conciliar a vida profissional, a vida pessoal e a carreira desportiva, pois não tenho qualquer apoio, bolsa ou rendimento que me permita dedicar-me apenas à vida de atleta e focar-me em competir. Assim sendo, é difícil gerir a minha vida profissional. Trabalho na área do desporto: sou treinadora de boxe, dou aulas de educação física e aulas de grupo em ginásios, mas tenho de organizar-me entre os treinos da manhã e os da noite e, entre eles, dar as minhas aulas e treinar os meus alunos. Além disso, é preciso gerir a vida pessoal e social, que muitas vezes fica para trás, pois acabo por colocar o boxe e a minha carreira desportiva acima de tudo.

FightNews: Dos dez títulos nacionais que conquistou, há algum que tenha um significado especial ou que destaque como mais marcante?

Rita Soares: Todos os títulos têm um sabor especial, pois foram conquistados em anos e fases diferentes da minha vida e da minha carreira desportiva. Há lesões pelo meio e, por vezes, a parte mental está mais frágil. Quando se conquista um título no meio destas adversidades, cada um deles acaba por ter sempre um sabor especial e de missão cumprida. Contudo, o momento alto da minha carreira até agora não está relacionado com os campeonatos nacionais, mas com a minha participação nos Jogos Europeus em 2023, na Polónia, onde fiquei a um combate de me qualificar para os Jogos Olímpicos. Esse foi, sem dúvida, o auge da minha carreira até agora. Espero vir a alcançar algo ainda maior.

FightNews: Como foi a sensação de quase representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Paris 2024?

Rita Soares: Como mencionei na resposta anterior, fiquei a um combate de me qualificar para os Jogos Olímpicos, durante os Jogos Europeus. Esse combate, uma final entre mim e a atleta de Espanha, decidia quem fazia história para o seu país e conseguia a qualificação olímpica para representar o seu país nos Jogos de Paris 2024. Infelizmente, perdi esse combate por unanimidade dos juízes, e não consegui o apuramento para os Jogos. Foi um momento muito triste, mas que me motiva, todos os dias, a trabalhar e a melhorar para alcançar este grande sonho, que é representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Como não foi possível em Paris, vou trabalhar mais um ciclo olímpico, mais quatro anos, para conseguir o apuramento e a qualificação para Los Angeles em 2028.

Imagens cedidas Rita Soares

FightNews: Ao olhar para trás, desde o início da sua carreira até agora, qual acha que foi a maior lição que aprendeu no boxe?

Rita Soares: O boxe ensinou-me muitas lições a vários níveis. Quando comecei na modalidade, em 2004, tinha 12 anos e passava por uma fase difícil na adolescência, lidando com o bullying e momentos mais frágeis que abalavam a minha autoestima. Não comecei no boxe por esses motivos, mas sim por influência do meu pai, que praticava a modalidade e achou que eu me identificaria e gostaria de praticá-la. E o que é certo é que até hoje continuo na modalidade com o meu treinador de sempre. Desde então, a minha autoestima melhorou muito, e o boxe trouxe-me uma maior capacidade de autodefesa e de superação, não só no desporto, mas em toda a minha vida. Se desistir não é opção no ringue, cá fora também não deve ser. E nas adversidades da vida, o boxe ensina que é preciso resistir para alcançar os nossos objetivos. A maior lição que o boxe me deu é a resiliência: não desistir e continuar a lutar.

FightNews: Quais são os seus próximos objetivos? Tem planos de competir em mais torneios internacionais ou há algum título específico que ainda ambicione?

Rita Soares: Os meus objetivos passam muito pelos torneios internacionais, pois o boxe em Portugal é limitado em termos de número de atletas e de evolução. Sinto que, lá fora, tenho mais oportunidades de crescer e superar os meus erros. Em Portugal, treinamos e trabalhamos ao nível do que se faz lá fora, e é em torneios internacionais de seleções e de clubes que evoluímos mais. No entanto, tenho muito orgulho em competir em casa, e sempre que há torneios nacionais de nível internacional, como o Braga Open ou o Porto Box Cup, gosto de participar, pois também contribuem para a minha evolução. O meu foco é, sobretudo, na qualificação olímpica, e espero alcançar esse objetivo nos próximos ciclos, em 2027 e 2028, para chegar aos Jogos Olímpicos.

Imagens cedidas Rita Soares

FightNews: Como vê o futuro do boxe feminino em Portugal? Acredita que a modalidade está a crescer e a atrair mais jovens atletas?

Rita Soares: Sem dúvida. A modalidade tem crescido muito em geral, especialmente no boxe feminino em Portugal. Quando comecei a praticar, em 2004, lembro-me de haver poucos atletas femininos, mas agora vemos muito mais atletas, de vários escalões e clubes, e a competitividade é maior. Espero que o crescimento continue e que a imagem do boxe, como sendo um desporto apenas para homens ou violento, continue a ser desmistificada, como tem acontecido até aqui. O boxe é um desporto de valores, de inteligência, e não é só para homens, é para todas as pessoas. Acredito que, em breve, teremos um panorama de boxe feminino em Portugal ainda mais positivo.

FightNews: Ao longo da sua carreira, quem foram as pessoas ou equipas que mais a apoiaram e contribuíram para o seu sucesso?

Rita Soares: Sinto-me muito acarinhada por todos os portugueses, independentemente da região ou do clube. Contudo, tenho que destacar a minha equipa, pois o meu crescimento acontece com o que aprendo em casa, com os atletas que treinam comigo diariamente. Também agradeço à minha equipa de apoio, aos meus familiares e amigos, que me dão o impulso necessário nos momentos difíceis e me incentivam a continuar a lutar. A minha equipa e todos os colegas de treino são fundamentais para a minha evolução diária.

Imagens cedidas Rita Soares

FightNews: Para finalizar, que mensagem gostaria de deixar às jovens pugilistas que se inspiram no seu percurso e que sonham em seguir uma carreira no boxe?

Rita Soares: O meu conselho para as jovens pugilistas é que, embora o caminho seja difícil e, por vezes, desmotivador, não desistam. Quando comecei, muitas vezes não tinha adversárias na minha categoria, o que era frustrante. Mas, com o tempo, surgiram mais oportunidades de combate e de ir ao estrangeiro. Se tivesse desistido nas fases iniciais, não teria alcançado o nível que tenho hoje. O boxe é uma modalidade que fica connosco para a vida. Nos momentos difíceis, lembrem-se de que tudo se vai alinhar e que vale a pena persistir.

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