
DESIGN E DESENVOLVIMENTO DE PRODUTO LINCE KIMONOS
Por trás de cada kimono existe muito mais do que tecido, cortes e costuras. Existe um processo de criação que procura conciliar identidade, funcionalidade, conforto e as exigências de quem vive diariamente o tatami. Na Lince Kimonos, esse trabalho é desenvolvido a partir de uma estreita ligação entre o design e a realidade dos atletas, com o feedback de quem treina a assumir um papel fundamental.
Nesta entrevista à Fight News Portugal, a designer e responsável pelo desenvolvimento de produto da Lince fala sobre o percurso que levou à criação da marca, os desafios de desenvolver equipamento para Jiu-Jitsu, a importância dos atletas no processo criativo, a expansão para o No-Gi e outros produtos, bem como a visão da Lince sobre identidade, durabilidade e sustentabilidade.

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FightNews: Como começou a sua ligação à Lince e qual é, na prática, o papel de uma gestora de projetos e designer dentro de uma marca de equipamento para Jiu-Jitsu?
A minha ligação à Lince começou de uma forma bastante diferente daquela que talvez se possa imaginar. Eu não sou praticante de Jiu-Jitsu. A minha ligação à modalidade surge através do meu marido, que pratica e que, desde o início, sempre esteve muito ligado a este universo.
Foi, aliás, ele quem me lançou o desafio de criar uma marca de kimonos. Na altura, eu vinha de muitos anos ligada à moda, ao design e ao desenvolvimento de peças, sobretudo na área de peças feitas à medida. O Jiu-Jitsu era um universo que eu conhecia pouco, mas aceitei o desafio.
E foi precisamente aí que percebi que havia uma oportunidade muito interessante: juntar o conhecimento que ele tinha do Jiu-Jitsu e das necessidades de quem pratica com a minha experiência enquanto designer e criadora de produto.
Enquanto ele dá a cara pela marca e tem uma ligação muito próxima aos atletas e à modalidade, eu estou sobretudo por trás de tudo aquilo que é criação e desenvolvimento. Sou eu que penso os produtos, os cortes, os materiais, os detalhes, a identidade visual e acompanho todo o processo até chegarmos ao produto final.
Curiosamente, o facto de eu não praticar Jiu-Jitsu também me obriga a estar constantemente a ouvir, observar e questionar. Não parto do princípio de que sei o que o atleta precisa. Procuro perceber. Falo com quem treina, recolho opiniões, testo soluções e cruzo essa informação com aquilo que sei fazer.
A Lince nasceu, portanto, dessa complementaridade. Ele trouxe o conhecimento do tatami; eu trouxe o conhecimento do design e do produto. E foi desse encontro que começou a nascer a Lince.
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FightNews: Quando começa a desenvolver um novo kimono ou uma nova coleção, o que surge primeiro: o conceito visual, uma necessidade identificada no tatami ou a escolha dos materiais?
Não existe uma fórmula única, mas normalmente surge primeiro uma ideia ou uma necessidade.
Pode nascer de algo que observo no tatami, de uma conversa com um atleta ou simplesmente de uma vontade de fazer algo diferente. A partir daí começo a construir o conceito e só depois entro na escolha dos materiais e restantes componentes.
Tenho uma preocupação acrescida em ouvir quem está no tatami e perceber aquilo que realmente faz falta. Não quero desenvolver uma peça apenas porque é visualmente interessante ou porque existe uma tendência no mercado. Pergunto sempre: o que estamos a acrescentar? O que pode ser melhor? O que podemos fazer de forma diferente?
Depois vem todo o trabalho de transformar essa ideia em algo real. E aí entram os materiais, a construção, os detalhes e os testes.
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FightNews: Um kimono precisa de reunir estética, conforto, resistência, mobilidade e, em alguns casos, leveza para competição. Qual é o desafio de equilibrar todos esses elementos sem sacrificar nenhum deles?
Esse é provavelmente um dos maiores desafios no desenvolvimento de um kimono, porque todos esses elementos estão ligados entre si.
Um kimono pode ser visualmente muito forte, mas se não for confortável ou se limitar o movimento, não cumpre a sua função. Da mesma forma, pode ser extremamente resistente, mas se for demasiado pesado ou rígido, deixa de responder às necessidades do atleta.
Por isso, procuro que a estética e funcionalidade não sejam pensadas como coisas separadas. O design tem de nascer da própria função da peça.
A minha experiência na moda ensinou-me precisamente a olhar muito para a construção da peça. No Jiu-Jitsu, essa preocupação torna-se ainda mais exigente porque estamos a falar de um equipamento que é sujeito a uma enorme quantidade de movimento, tração e desgaste.
No final, o objetivo é encontrar o equilíbrio: criar uma peça com identidade, mas onde cada detalhe esteja ligado à funcionalidade.
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FightNews: Como funciona o percurso entre a primeira ideia e o produto final? Quantos protótipos, testes e alterações são normalmente necessários até uma peça estar pronta para chegar ao mercado?
É um processo bastante mais longo do que aquilo que muitas vezes se imagina.
Entre uma ideia e o produto final existem desenhos, fichas técnicas, escolha de materiais, desenvolvimento, primeiro protótipo, provas e testes. E raramente o primeiro protótipo fica perfeito.
Há detalhes que só conseguimos perceber quando temos a peça fisicamente à nossa frente. Às vezes é o corte, outras vezes uma medida, uma costura, a posição de um elemento ou simplesmente a forma como o tecido reage ao movimento.
Por isso, fazemos alterações e novos protótipos sempre que é necessário. Prefiro atrasar um lançamento e corrigir aquilo que não está bem do que colocar no mercado um produto em que ainda não acredito a 100%.
Para mim, desenvolver produto é muito isso: experimentar, testar, questionar e melhorar. E, neste caso, ouvir quem está diariamente no tatami é uma parte essencial desse processo.
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FightNews: Qual é o papel dos atletas nesse processo? O feedback de quem treina e compete já levou a Lince a alterar um corte, um material ou algum detalhe que inicialmente parecia resolvido?
Os atletas têm um papel fundamental, porque são eles que colocam o produto à prova nas condições para as quais foi pensado.
Podemos estudar, pesquisar e desenvolver uma solução, mas quem está diariamente no tatami consegue identificar coisas que, enquanto designer, posso não perceber imediatamente.
Por isso, valorizamos muito esse feedback.
E sim, o feedback dos atletas pode levar-nos a alterar detalhes que inicialmente pensávamos estar resolvidos. Faz parte do processo. Aliás, considero isso uma vantagem, não uma fragilidade. Um produto que está aberto a ser melhorado torna-se um produto mais forte.
A Lince não quer simplesmente dizer ao atleta o que ele deve usar. Queremos ouvi-lo e desenvolver com ele.
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FightNews: A Lince já não se limita aos kimonos e apresenta também rashguards, calções, roupa de treino e acessórios. Como é pensada a expansão da marca para outros produtos sem perder a sua identidade?
Essa é uma preocupação constante.
A Lince nasceu do Jiu-Jitsu e essa ligação tem de continuar presente em tudo aquilo que fazemos. Não queremos transformar a marca numa etiqueta que simplesmente coloca um logótipo em diferentes produtos.
Cada novo produto tem de fazer sentido dentro do universo Lince.
Mesmo quando desenvolvemos uma peça mais casual, como uma t-shirt ou um hoodie, queremos que exista uma ligação à cultura da modalidade e àquilo que a marca representa.
Para mim, identidade não significa repetir sempre o mesmo desenho ou o mesmo logótipo. É uma linguagem que deve conseguir adaptar-se a diferentes produtos sem deixar de ser reconhecível.
E, como designer, gosto precisamente desse desafio: conseguir levar a identidade da Lince para produtos diferentes sem perder a coerência da marca.
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FightNews:O desenvolvimento de peças para No-Gi apresenta desafios muito diferentes dos encontrados num kimono? O que muda no processo criativo quando o produto precisa de acompanhar diretamente os movimentos do corpo?
Sim, muda bastante.
No kimono temos uma estrutura muito própria, com tecidos mais robustos, casaco, calças, lapela e toda uma construção pensada para suportar a pressão de cada ponto de tensão.
No No-Gi, o corpo está muito mais diretamente envolvido com a peça.
Isso obriga-nos a pensar ainda mais no movimento, na elasticidade, no ajuste e na forma como o tecido acompanha o corpo sem criar limitações.
É também um território muito interessante para mim enquanto designer, porque permite explorar mais o corte e a relação entre o corpo e o movimento.
Mais uma vez, não parto apenas da minha perceção. Procuro perceber junto de quem pratica como a peça se comporta em situações reais.
No fundo, continuamos a procurar a mesma coisa: que a peça acompanhe o atleta e não seja uma distração durante o treino ou competição.
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FightNews: Num mercado com cada vez mais opções de equipamento e vestuário para Jiu-Jitsu, como decide quais os produtos que fazem sentido integrar no catálogo da Lince?
Tentamos não seguir simplesmente aquilo que o mercado está a fazer.
É muito fácil olhar para outras marcas, perceber quais são os produtos que vendem e tentar reproduzi-los. Mas isso não constrói necessariamente uma identidade.
Perguntamo-nos primeiro se aquele produto faz sentido para a nossa comunidade e se conseguimos acrescentar alguma coisa.
Também somos muito exigentes com aquilo que colocamos no catálogo. Prefiro ter menos produtos e sentir que cada um tem uma razão para estar ali, do que ter uma oferta enorme sem uma verdadeira coerência.
A Lince está a crescer, mas queremos que cresça com intenção. Cada produto deve ter uma função, uma identidade e uma razão para existir dentro da marca.
FightNews: A marca assume um compromisso com a preservação ambiental. Como é possível transformar essa intenção em decisões concretas de produção, materiais, embalagens e durabilidade, especialmente numa indústria que trabalha com lançamentos e novas coleções?
É um desafio enorme, sobretudo numa indústria como a moda, onde existe uma cultura muito forte de produzir e lançar constantemente coisas novas.
Para nós, sustentabilidade não pode ser apenas uma palavra utilizada na comunicação. Tem de estar relacionada com decisões reais.
Uma das coisas em que acredito muito é precisamente na durabilidade. Um produto que é bem desenvolvido, bem construído e que pode acompanhar o atleta durante muito tempo já está a contribuir para uma lógica de consumo mais responsável.
Também procuramos tomar decisões mais conscientes relativamente aos materiais, à produção e às embalagens, sempre dentro daquilo que é possível para uma marca que está a crescer.
Não acredito em prometer uma perfeição que não existe. Acredito mais numa evolução contínua e em questionarmo-nos constantemente se conseguimos fazer melhor.
FightNews: Na sua visão, o que faz com que um kimono deixe de ser apenas equipamento obrigatório e se transforme numa peça com identidade — algo que representa o atleta dentro do tatami?
Acho que começa precisamente na relação que o atleta cria com a peça.
Um kimono é equipamento, claro. Mas no Jiu-Jitsu acaba por ser muito mais do que isso. Está presente em centenas ou milhares de horas de treino, em competições, em vitórias, adversidades, evolução e momentos que ficam connosco.
Por isso, quando desenvolvo um kimono, não penso apenas em como ele vai parecer numa fotografia. Penso na pessoa que o vai vestir vezes sem conta.
Quero que exista uma identidade, mas sem que a estética se sobreponha à função. Quero que o atleta olhe para aquele kimono e sinta que existe ali alguma coisa com que se identifica.
E talvez seja essa a grande ambição da Lince: criar equipamento que não seja apenas usado pelo atleta, mas que passe a fazer parte da sua jornada.
Porque, no final, o kimono é apenas uma peça. A história é construída por quem o veste.




