
E essa diferença é uma das maiores evoluções do MMA moderno. Um atleta de 10 anos não tem a mesma preparação física, técnica e maturidade de um atleta de 17 anos, muito menos de um profissional. Por isso, as regras acompanham o crescimento do atleta.
Na estrutura da International Mixed Martial Arts Federation (IMMAF), os Youth estão divididos em quatro escalões: Youth D, Youth C, Youth B e Youth A. Cada etapa acrescenta progressivamente novas possibilidades técnicas, mantendo outras ações proibidas.
Nos escalões mais jovens, a prioridade é aprender. Movimentação, distância, quedas, controlos, posições, transições e finalizações são desenvolvidos com limitações adequadas à idade. Não se procura criar atletas mais agressivos, mas sim atletas mais completos e capazes de controlar aquilo que fazem.
É por isso que no Youth D e C existem fortes restrições a determinadas técnicas, como guilhotinas, submissões às pernas, omoplata, wristlocks, biceps/calf crushes, suplexes (projeções de grande amplitude) e outras ações de maior risco.

Imagem cedida João Vitor Costa
À medida que o atleta cresce, algumas dessas técnicas começam a ser introduzidas. No Youth B, por exemplo, determinadas submissões das pernas passam a ser permitidas sob condições específicas. A guilhotina também aparece, mas tem de ser arm-in (braço encaixado dentro da técnica) e finalizada no solo. Outras técnicas, como kneebars, toe holds e heel hooks, continuam proibidas.
No Youth A, aos 16 e 17 anos, o jogo aproxima-se mais do MMA dos escalões seguintes. A kneebar passa a ser permitida e existem situações de solo onde são autorizados golpes de punhos fechados dirigidos ao corpo. Mas continuam a existir limitações importantes.
Uma regra que atravessa todos os escalões Youth: não são permitidos golpes à cabeça ou à face. Também permanecem proibidas técnicas como cotovelos, heel hooks, toe holds, twisters, neck cranks e manipulações da coluna, entre outras.

Imagem cedida João Vitor Costa
Esta progressão mostra algo fundamental: no MMA, uma técnica não passa simplesmente de proibida a permitida e é introduzida quando o atleta está preparado para assumir a responsabilidade de a executar.
E isso também exige uma arbitragem diferente. O árbitro Youth tem de conhecer profundamente as regras específicas de cada escalão e perceber que está perante atletas em formação, sempre com a máxima de que a segurança está acima do resultado. Se um jovem deixa de conseguir defender-se de forma inteligente, o combate pode ser interrompido antes mesmo de existir um tap.
É esta filosofia que torna os Youth tão importantes. O objetivo não é descobrir quem é o jovem mais agressivo, é começar a formar atletas capazes de pensar, controlar, respeitar e competir.
Os escalões Youth são ainda relativamente recentes no MMA internacional e, por isso, ainda estamos a assistir à formação da primeira geração que poderá fazer todo o percurso, desde os primeiros passos no Youth até ao nível profissional.

Imagem cedida João Vitor Costa
Será que esses atletas chegarão ao topo mais completos? Terão uma compreensão diferente da modalidade? Serão capazes de aproveitar melhor todas as ferramentas do MMA profissional? Ainda não sabemos.
Mas talvez os próximos grandes atletas estejam precisamente entre aqueles jovens que hoje estão a aprender uma queda, a defender uma posição ou a perceber porque determinada técnica ainda não lhes é permitida.
Porque um atleta de 10 anos não deve competir como um profissional. No MMA, crescer não significa apenas poder fazer mais, significa estar preparado para assumir mais responsabilidade. E é por isso que os Youth não são pequenos profissionais.
São o início da construção dos futuros atletas.