Sábado, 16 de Maio de 2026
12°C 18°C
Cascais, 11
Publicidade

Peter Ligier e a construção da BDZ Management: “O talento sozinho já não chega no MMA moderno”

Entre gestão de carreira, imagem, contratos e estrutura profissional, o fundador da BDZ Management fala sobre a nova realidade do MMA contemporâneo.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
07/05/2026 às 09h22 Atualizada em 14/05/2026 às 22h34
Peter Ligier e a construção da BDZ Management: “O talento sozinho já não chega no MMA moderno”
Imagem BDZ Management

Num momento em que o MMA português procura consolidar a sua identidade competitiva e estrutural no panorama europeu, surgem também novos protagonistas fora da jaula. Peter Ligier, antigo lutador profissional franco-português, é um desses casos. Depois de uma carreira construída entre França, Suíça e Estados Unidos — onde treinou com nomes de topo mundial nos Blackzilians, atualmente Kill Cliff — decidiu transitar para o management de atletas, fundando a BDZ Management em Portugal.

Mais do que uma simples agência de representação, a BDZ nasce com uma proposta de acompanhamento integrado, cruzando gestão de carreira, produção audiovisual, estratégia mediática e enquadramento desportivo. Com atletas como Zé Machado, Alex Rita e Mário Ferreira no plantel, Ligier defende uma abordagem baseada em proximidade, visão a longo prazo e compreensão real das exigências do combate profissional.

Nesta entrevista à Fight News Portugal, o fundador da BDZ Management fala sobre o estado atual do MMA nacional, os desafios estruturais do mercado português, o papel do manager moderno e a necessidade de construir carreiras sustentáveis num desporto em rápida transformação.

FightNews: Como começou o teu percurso nos desportos de combate e de que forma essa experiência como atleta influenciou o teu trabalho atual como MMA Sports Management Agency?

O meu percurso começou no grappling. Depois de competir a nível nacional em França, fui integrado na seleção francesa e tive a oportunidade de combater nos campeonatos do mundo. Concluído esse ciclo, sentia necessidade de um novo desafio, e a transição para o MMA impôs-se naturalmente.

Na altura, o MMA era ilegal em França. Para poder ir até ao fim dos meus objetivos, tive de me expatriar para a Suíça, na Fight Move Academy do Nelson Carvalho, que me ajudou imenso na vida para além do desporto. Estive lá quase três anos, antes de partir para os Estados Unidos para me juntar ao Volkan Oezdemir, atualmente lutador do UFC, na Blackzilians, na Florida (hoje Kill Cliff). Alí, treinei com a elite mundial do MMA.

Entre 2013 e 2018, disputei treze combates profissionais, conquistei dois cinturões europeus e fui main event de um Bellator contra Michael McDonald, antigo lutador do UFC. Foram capítulos que me custaram muito, mas que também me ensinaram tudo.

Hoje faço este trabalho porque gostaria de ter tido alguém como eu ao meu lado quando era atleta. Na minha época, o “manager” era muitas vezes apenas alguém que te propunha um combate e ficava com a sua comissão. Ninguém te explicava os termos do contrato, ninguém construía um plano de carreira, ninguém te dizia quando devias recusar um combate. Era arcaico e, no fundo, nem sequer era uma verdadeira profissão.

Por falta de oportunidades e por necessidade financeira, aceitei combates difíceis, muito mal pagos e que nunca foram pensados numa lógica de carreira.

É precisamente essa experiência que utilizo hoje para fazer as coisas de forma diferente. Na BDZ Management trago um enquadramento profissional, estruturado, com proximidade real aos meus atletas. Sei o que é entrar numa jaula tendo sacrificado tudo, porque vivi isso. E é precisamente essa compreensão íntima do combatente que faz a diferença na forma como lido com a negociação, aconselho e protejo os meus atletas.

Imagem Instagram

FightNews: O que te levou a fazer a transição de atleta para empresário e agente de lutadores?

Honestamente, nunca tinha imaginado que um dia me tornaria manager. O clique veio de uma conversa.

No dia em que conheci o Zé Machado, ele falou-me das suas dificuldades, das más experiências com o enquadramento anterior e daquele período de dúvida que estava a atravessar sem manager. Enquanto o ouvia, era o meu próprio passado que vinha à superfície. Os mesmos bloqueios, as mesmas injustiças, os mesmos silêncios que eu próprio tinha vivido alguns anos antes.

Mas não foi logo a seguir que tomei a iniciativa de avançar. Nessa altura estava em pleno desenvolvimento da minha academia de MMA, a BadAzz Station, no norte de Portugal. Tinha também começado uma nova vida cá há pouco tempo e não tinha a cabeça num projeto desta dimensão.

Ainda assim, aquela conversa ficou.

Algumas semanas depois apanhei-me a pensar nela e tive a impressão clara de ter uma missão a cumprir, algo que devia tanto ao meu próprio percurso como a ele.

Liguei-lhe. Fui totalmente transparente: disse-lhe que nunca tinha trabalhado em management, que seria potencialmente o meu primeiro lutador, mas que estava pronto para me investir a fundo para construirmos algo sólido juntos.

Considerava ter vivência e compreensão suficientes do meio do MMA para avançar, e o facto de gerir em paralelo uma empresa na área do audiovisual dava-me ferramentas que poucos managers têm: a capacidade de produzir conteúdo, de gerir uma marca e de pensar carreira em todos os eixos.

Foi assim que a transição se fez. Não por cálculo, não por ambição. Por uma conversa honesta entre dois lutadores e pela convicção de que podia oferecer aquilo que ninguém me ofereceu quando precisei.

Imagem BDZ Management

FightNews: Como nasceu a BDZ Management e qual é a sua principal missão no mercado dos desportos de combate?

Depois da nossa primeira conversa, o Zé Machado quis encontrar-se comigo uma segunda vez. Não procurava apenas um manager, mas alguém em quem pudesse confiar.

Algumas semanas mais tarde apresentou-me à sua equipa e foi, rodeado pelo seu treinador principal, Luís Barneto, e por André Lopes, que assinámos o contrato. Esta forma de fazer as coisas, em que a decisão passa pelo coletivo e pela confiança antes de passar pelo contrato, definiu o tom de tudo o que se seguiu.

BDZ é o acrónimo de BadAzz. Quis manter esta ligação à primeira academia de MMA que criei, para preservar a mesma filosofia: a da “brotherhood”, a fraternidade entre lutadores.

Foi também nessa altura que surgiu a ideia de construir um verdadeiro ecossistema que ligasse as minhas atividades. Uma sinergia entre o meu ginásio, a BadAzz Station, onde os lutadores podem treinar, e a minha empresa de audiovisual, a The Nice Guys, que trabalha ao serviço das duas estruturas.

Esta integração vertical é hoje um dos maiores trunfos da BDZ: poucas estruturas em Portugal conseguem oferecer a um atleta um enquadramento de treino, produção de conteúdo profissional e gestão de carreira, tudo sob o mesmo teto.

Concretamente, a BDZ acompanha os seus atletas em todas as dimensões da carreira: negociação de contratos de combate, planeamento estratégico (escolha de adversários, timing e organizações), gestão de imagem e comunicação, procura de patrocinadores, produção de conteúdo através da The Nice Guys, gestão administrativa e logística associada aos combates, e aconselhamento na decisão de aceitar ou recusar oportunidades. Todos estes serviços estão detalhados no nosso site.

A nossa filosofia assenta num princípio simples: qualidade em vez de quantidade. Atualmente acompanhamos três atletas, e esse número não é por acaso. Antes do talento, procuro três características num lutador: fiabilidade, vontade e confiança. O nível e o potencial contam, naturalmente, porque o objetivo continua a ser ganhar combates, mas não são suficientes por si só. Sem estes três pilares humanos, nenhuma carreira se sustenta a longo prazo.

O que distingue a BDZ no mercado é, antes de mais, o facto de ninguém ter ainda tomado esta iniciativa em Portugal. Para já, a minha prioridade é clara: dar visibilidade aos talentos locais. O mercado português tem um viveiro de lutadores que merece mais do que aquilo que lhe é oferecido atualmente. É por aí que tudo começa.

Imagem BDZ Management

FightNews: Trabalhas com atletas como Zé Machado e Alex Rita. O que procuras num atleta para decidir integrá-lo na tua agência?

A seleção de um atleta é provavelmente a decisão mais importante que um manager toma. Uma vez assinado o contrato, comprometemos o nosso tempo, a nossa credibilidade e a nossa rede com essa pessoa. É por isso que levo o meu tempo antes de dizer sim.

No caso do Zé Machado, o trabalho de filtragem já estava meio feito antes mesmo de nos conhecermos. Vários lutadores do meu círculo próximo já me tinham falado dele de forma consistente e elogiosa. Quando este tipo de feedback chega de várias fontes em quem confiamos, é um sinal forte sobre a fiabilidade humana de um atleta. O resto confirmou-se pessoalmente.

Para o Alex Rita, o percurso foi semelhante. O Alex é amigo próximo do Zé, competiram juntos nos campeonatos IMMAF e acumularam experiência relevante em paralelo. Foi o Luís Barneto que me sugeriu o seu nome após o segundo combate dele no WOW, e alinhámos muito rapidamente.

O Alex traz também um perfil diferente do Zé, o que enriquece a “direção artística” da agência. Ter lutadores que se complementam, em vez de se assemelharem, é também uma força para a marca BDZ.

Para além das recomendações, a minha vantagem como manager é ter sido combatente. Quando tenho a oportunidade de treinar pontualmente com um atleta que estou a considerar, consigo perceber em poucos minutos coisas que dificilmente são visíveis de fora: a forma como gere o cansaço, como reage à pressão, como interage com os parceiros de treino e como integra as correções do treinador.

São estes sinais discretos que revelam a verdadeira vontade de um lutador, muito mais do que aquilo que ele possa dizer numa reunião.

Já recusei vários atletas que me foram recomendados. Alguns porque simplesmente não cumpriam os meus critérios humanos. Outros porque não demonstravam, na sua abordagem, o nível de compromisso que esta profissão exige.

E depois há casos mais complexos. Recentemente, tive de recusar um combatente angolano muito promissor, simplesmente porque ainda não tenho os recursos necessários para o trazer para o continente europeu. As organizações europeias tendem a privilegiar atletas locais por razões financeiras e logísticas e, sem uma estrutura sólida de acompanhamento, trazê-lo para cá seria prestar-lhe um mau serviço.

O meu mercado prioritário continua a ser Portugal, mas estou aberto ao espaço lusófono assim que as condições o permitam.

Em resumo, o que procuro num atleta é esta combinação rara: um nível que imponha respeito dentro da jaula, uma vontade que se sente antes mesmo de ser verbalizada e uma fiabilidade humana confirmada por quem o conhece há muito tempo. Quando estes três elementos se alinham, comprometo-me a fundo. Caso contrário, prefiro esperar.

Imagem BDZ Management

FightNews: Qual é a importância de uma agência de management na construção da carreira e da imagem de um atleta de MMA nos dias de hoje?

É uma questão essencial, porque na maioria dos casos os lutadores não se colocam verdadeiramente a questão das funções reais de um manager. Descobrem a amplitude do papel depois de o viverem, raramente antes. E, no entanto, cada detalhe conta.

Um bom manager cobre hoje várias dimensões críticas. Saber recusar um combate no momento certo — aquilo a que chamo o “não estratégico” — pode salvar uma carreira.

Construir uma narrativa mediática coerente ao longo do tempo evita que um atleta fique fechado numa única imagem. Antecipar o pós-carreira protege o homem para quando o atleta um dia pendurar as luvas. Gerir a pressão psicológica antes de um combate é, por vezes, o fator que faz a diferença entre vitória e derrota. E proteger o atleta de contratos tóxicos é simplesmente vital, porque um mau contrato pode ter consequências durante anos.

Para além da carreira desportiva, a imagem tornou-se indispensável. Vivemos numa época em que, se não te veem, não existes, por muito bom que sejas.

Mas é importante ter atenção a um ponto: a imagem não se constrói por imitação. Querer parecer-se com o McGregor não é uma boa estratégia, porque só existe um McGregor. Cada lutador tem a sua própria personalidade, e o papel do manager é ajudá-lo a construir a sua identidade, a sua assinatura e a gerar envolvimento através de canais de comunicação alinhados com quem ele realmente é.

Um exemplo concreto aconteceu com o Zé Machado no seu último combate. Preparámos uma camisola do Real Madrid com o nome dele nas costas, e a ideia era entrar com uma camisola do Cristiano Ronaldo e a bandeira portuguesa bem visíveis, retirando-a a meio do percurso para revelar a sua. O público madrileno reagiu muito bem a esse momento.

Em terreno hostil, conseguir conquistar o público é uma vantagem enorme, e isso não acontece por acaso. São estes detalhes, pensados previamente, que distinguem uma presença comum de uma presença marcante.

Paralelamente, é importante ter consciência de uma realidade: um lutador que tenta gerir tudo sozinho acaba por estar em todas as frentes ao mesmo tempo. Negocia contratos, constrói a sua imagem, gere patrocinadores, responde aos media e trata da logística. Cada hora dedicada a estas tarefas é uma hora retirada ao treino. A alto nível, esta dispersão é incompatível com a performance.

O papel do manager é assumir essas responsabilidades para permitir ao atleta focar-se no que faz melhor: lutar.

Por fim, o papel do manager evolui com o nível do atleta. Não se trata de favoritismo, mas de exigências diferentes. Um principiante precisa de estrutura e orientação. Um lutador em ascensão precisa de posicionamento e visibilidade. Um profissional consolidado precisa de proteção, timing e estratégia de fim de carreira.

Cada vitória aproxima-nos do objetivo, mas algumas têm mais peso do que outras e saber quais priorizar é precisamente aquilo que define o valor de um verdadeiro manager.

Imagem BDZ Management

FightNews: Quais são os principais desafios que encontras no mercado português para desenvolver atletas e profissionalizar ainda mais o MMA?

O principal desafio é adaptarmo-nos a um mercado que ainda está pouco desenvolvido e atrasado em relação a outros países europeus. Não é uma crítica, é uma constatação.

O MMA português é um desporto jovem na sua estruturação, e é precisamente esta fase de construção que o torna tão interessante de acompanhar atualmente.

O primeiro ponto crítico, do meu ponto de vista, é a ausência de um circuito amador estruturado. Atualmente, o MMA está ligado à Federação Portuguesa de Lutas Amadoras, o que constitui um enquadramento, mas insuficiente para criar uma verdadeira progressão desportiva.

Falta um circuito nacional com competições regulares e um ranking oficial que permita aos atletas amadores evoluir, ganhar experiência e transitar para o profissionalismo com um percurso validado.

Neste momento, dependemos em grande parte do IMMAF para garantir essa progressão internacional, e as vagas são limitadas. Sem um circuito amador nacional sólido, muitos talentos perdem-se pelo caminho por falta de estrutura.

O segundo ponto é a formação dos treinadores. Para que um desporto se profissionalize, é essencial que seja ensinado por pessoas qualificadas. Na minha opinião, deveriam existir formações específicas de MMA reconhecidas pelo IPDJ, garantindo um nível pedagógico e técnico consistente em todo o país.

Atualmente, a qualidade do ensino varia bastante de clube para clube, o que cria desigualdades significativas entre atletas, dependendo do contexto em que se formam.

O terceiro desafio é cultural. Ao contrário do futebol, profundamente enraizado no ADN português, o MMA ainda não faz parte da cultura popular.

No entanto, há sinais claros de evolução. A entrada de Cristiano Ronaldo como investidor no universo do MMA é um sinal forte, e a organização, pelo WOW FC, de um dos maiores eventos de MMA alguma vez realizados em Portugal pode marcar um ponto de viragem.

A exposição de talentos portugueses em palco nacional, com visibilidade internacional, pode atrair novos investidores, patrocinadores e contribuir para uma mudança na perceção do público.

Para além destes desafios estruturais, o meu desafio diário enquanto manager é posicionar os meus atletas em eventos que façam sentido do ponto de vista estratégico e garantir que competem com regularidade, num nível adequado à sua progressão.

Quando o mercado nacional não oferece oportunidades suficientes, é necessário procurar combates em Espanha, França, Reino Unido ou outros mercados, mantendo, no entanto, o atleta ligado à sua base.

Construir uma carreira internacional sem perder o enraizamento português exige um equilíbrio constante.

Estes desafios são reais, mas não devem ser vistos como obstáculos. São, acima de tudo, oportunidades para quem quiser contribuir para o desenvolvimento do MMA em Portugal de forma estruturada e profissional. É precisamente essa a razão de ser da BDZ Management.

Imagem Instagram

FightNews: Consideras que os atletas em Portugal já têm consciência da importância da gestão de carreira e da sua marca pessoal?

A consciência está a evoluir, mas ainda de forma desigual. Hoje, a maioria dos lutadores portugueses já reconhece a importância da gestão de carreira e da marca pessoal. O que falta não é a consciência do tema, mas sim o saber-fazer.

Existe também uma clara diferença geracional. A nova geração, entre os 18 e os 25 anos, cresceu com as redes sociais e habituou-se a ver lutadores como Conor McGregor, Khabib Nurmagomedov ou Israel Adesanya a construírem a sua imagem em paralelo com o seu percurso desportivo.

Para eles, a marca pessoal é algo natural.

Por outro lado, alguns lutadores mais experientes vêm de uma fase em que se competia sem qualquer preocupação com a imagem, e essa transição nem sempre é evidente. Alguns adaptaram-se bem, outros ficaram para trás e acabam por sentir isso ao nível da visibilidade.

Mesmo entre os que têm essa consciência, noto frequentemente o mesmo erro: concentram toda a energia na produção de conteúdo para redes sociais, sem uma estratégia sólida para construir uma marca duradoura.

O MMA é um desporto com um ciclo de carreira limitado, por vezes bastante curto. Um lutador que publica diariamente sem refletir sobre o seu posicionamento, coerência e público-alvo está apenas a gerar ruído, não a construir uma marca.

E quando termina a carreira, não fica nada. É precisamente isso que deve ser evitado.

Outro ponto ainda pouco integrado por muitos atletas é que a sua imagem é um ativo financeiro. A um nível mais elevado, a imagem pode gerar receitas superiores às próprias bolsas de combate. Patrocínios, contratos com marcas, presença mediática, monetização de audiências e oportunidades no pós-carreira, tudo isto depende da marca construída ao longo do percurso. Muitos atletas continuam a acreditar que o seu valor está apenas no cartel. Isso é um erro. O cartel abre portas, mas é a imagem que cria valor.

Um erro frequente, sobretudo entre os mais jovens, é tentar vender uma imagem antes de ter um percurso desportivo que a sustente. Uma marca pessoal sólida assenta em bases reais. Sem isso, não se mantém no tempo. É por essa razão que, no trabalho com os meus atletas, abordo tanto a gestão de imagem como a gestão financeira, a importância do enquadramento profissional e a necessidade de se rodearem, desde cedo, de contabilistas, advogados e bons conselheiros. Porque a verdadeira questão não é apenas “o que vais fazer durante a tua carreira”, mas sim “o que vais fazer com aquilo que construíres ao longo dela”.

É precisamente esta dimensão de educação a longo prazo que muitos atletas só descobrem quando trabalham com um manager sério. E é por isso que a consciência do mercado continuará a evoluir à medida que surgirem mais estruturas capazes de acompanhar os atletas neste processo.

Imagem BDZ Management

FightNews: Como vês o momento atual dos desportos de combate em Portugal, especialmente no MMA?

O MMA português vive um momento particular, com vários sinais positivos. A cena está a ganhar estrutura, visibilidade e ambição. Não se trata de uma explosão, mas de uma progressão consistente, e isso já é bem visível.

A entrada de Cristiano Ronaldo no universo do MMA não é propriamente uma surpresa. Ele já acompanhava o desporto há algum tempo, como adepto e espectador, e o seu envolvimento atual poderá desencadear uma nova dinâmica. Ainda é cedo para medir o impacto, mas o sinal é forte.

A par disso, a organização, por parte da WOW FC, de um dos maiores eventos de MMA alguma vez realizados em Portugal deverá marcar um ponto de viragem. Quando um desporto atinge este nível de exposição no seu próprio território, perante o seu público, a perceção do grande público muda e abrem-se portas a novos intervenientes.

No plano desportivo, também vejo sinais concretos de crescimento. Os meus três atletas, Zé Machado, Alex Rita e Mário Ferreira, têm todos percurso na IMMAF, e os seus resultados demonstram que, apesar da dimensão do país, Portugal tem talento capaz de competir ao mais alto nível.

Para além disso, uma nova geração de lutadores está a emergir nas competições amadoras internacionais, e surgem cada vez mais espaços dedicados ao treino um pouco por todo o país. É um sinal claro de desenvolvimento local.

Dito isto, é importante manter uma leitura realista: o MMA está a evoluir muito mais rapidamente noutros países. Por isso, muitos lutadores portugueses que chegam a grandes organizações como a UFC ou a PFL já não residem em Portugal. Procuraram fora aquilo que não encontraram cá: estruturas, parceiros de treino de alto nível, oportunidades e um ecossistema completo.

É uma realidade que não pode ser ignorada. Se quisermos afirmar o MMA português no panorama internacional, temos de ser capazes de reter talento, melhorando as condições no país. Isso implica um esforço coletivo que envolve organizações, investidores, instituições e meios de comunicação.

No plano económico, começa também a haver uma mudança de mentalidade. Muitos lutadores já percebem que a sua imagem é um ativo. Hoje, a sustentabilidade financeira não depende apenas das bolsas de combate, mas também de patrocínios, parcerias com marcas, presença mediática, monetização de audiências e oportunidades no pós-carreira. Esta evolução é fundamental para a profissionalização do desporto a longo prazo.

A minha leitura sobre este contexto é também influenciada pelo meu percurso pessoal. Sou de origem franco-portuguesa, nascido em França, e tive a oportunidade de observar o funcionamento do MMA noutros contextos, em França, na Suíça e nos Estados Unidos, nomeadamente junto dos Blackzilians. Essa experiência deu-me referências, ideias para aplicar e também consciência do que deve ser evitado.

Esta visão mais ampla é hoje um dos meus principais ativos na construção da BDZ.

Quando cheguei a Portugal, percebi rapidamente que havia muito por fazer, mas também um potencial significativo, desde que o desenvolvimento fosse estruturado. É precisamente esse momento que o MMA português está a atravessar. E é exatamente por isso que estou aqui.

Imagem BDZ Management

FightNnews:Quais são os principais objetivos da BDZ Management para 2026 e que desafios antecipas para o futuro?

Para 2026, o meu primeiro objetivo é manter-me plenamente investido junto dos atletas fundadores da BDZ. Quero continuar a construir com o Zé, o Alex e o Mário, sem precipitar o desenvolvimento da agência.

A curto prazo, não pretendo ultrapassar os sete lutadores no total. É um limite que estabeleci para garantir uma presença real junto de cada atleta e evitar cair na armadilha do volume, que dilui a qualidade do acompanhamento.

No plano desportivo, os objetivos são claros para cada um. O Zé Machado vai, numa primeira fase, procurar o cinturão interino do WOW FC, seguido do cinturão oficial, que depois terá de defender. A nossa relação com o WOW é excelente e queremos continuar a crescer em conjunto.

O Alex Rita prepara a sua estreia profissional, enquanto o Mário Ferreira está no início do seu percurso, com um cartel de 1-1. Ambos têm potencial para disputar um cinturão do WOW nas respetivas categorias.

Um ponto positivo é o facto de competirem em divisões diferentes, o que evita conflitos internos e permite a cada um desenvolver o seu próprio caminho. Tudo dependerá da prestação no dia 22 de maio, porque cada combate abre ou fecha oportunidades.

No plano de negócio, o objetivo é garantir pelo menos um patrocínio relevante para cada atleta ao longo de 2026. O ecossistema começa agora a reunir as condições para isso, e é uma etapa fundamental para a profissionalização das suas carreiras.

Outro objetivo importante é colocar um primeiro atleta numa organização de tier 2, ou mesmo tier 1, como a UFC ou a PFL. Isso exige timing, resultados e também um trabalho contínuo de posicionamento e relacionamento com matchmakers internacionais, que venho a desenvolver há vários meses.

Para a BadAzz Station, a minha academia, o objetivo é começar a lançar os primeiros lutadores formados internamente. É um trabalho de longo prazo — não se forma um lutador em poucos meses — mas, quando começarmos a ver atletas formados de raiz na BadAzz a subir a eventos oficiais, isso vai validar a coerência do ecossistema que estou a construir: academia, management e produção audiovisual.

Tenho também outros projetos em desenvolvimento que prefiro não divulgar nesta fase. São iniciativas que exigem tempo de maturação e que serão comunicadas no momento certo. O que posso adiantar é que 2026 será um ano de estruturação, mais do que de expansão acelerada.

Quanto aos desafios, o primeiro será fazer crescer o ecossistema sem comprometer a qualidade do acompanhamento. Com três atletas, é possível estar presente em todas as dimensões. Com sete, será necessário estruturar melhor, delegar de forma inteligente e criar processos, sem perder a proximidade humana que define a identidade da BDZ.

O segundo desafio será a dependência de um número ainda reduzido de organizações profissionais em Portugal. Atualmente, o WOW é o nosso principal parceiro e a relação é positiva, mas, a médio prazo, será importante diversificar para garantir mais oportunidades aos atletas.

O terceiro desafio, mais discreto mas igualmente essencial, será encontrar e formar as pessoas certas para crescerem comigo. Uma estrutura como a BDZ não pode depender indefinidamente de uma única pessoa.

A longo prazo, estou aberto ao mercado europeu, mas a minha prioridade mantém-se clara: consolidar a BDZ como uma referência sólida em Portugal antes de expandir. É a partir de uma base local forte que se constrói uma expansão sustentável.

FightNews: Por fim, se pudesses deixar uma mensagem aos atletas e a todos os envolvidos no mercado dos desportos de combate, o que dirias enquanto empresário e fundador da BDZ Management?

Antes de mais, à minha mulher. Nenhum dos meus projetos se sustenta sem o seu apoio. Está ao meu lado no dia a dia, em tudo o que construo, e a verdade é que tudo aquilo que carrego hoje, carrego-o também graças a ela.

Depois, ao Zé Machado e a toda a sua equipa. Sem aquele primeiro encontro, sem aquela primeira confiança depositada, não existiria BDZ Management. Não esqueço que tudo isto começou com eles.

A todos os atletas: o desporto que praticam é dos mais exigentes que existem. Pede-vos o corpo, o tempo, a vida pessoal, a saúde mental, por vezes até a família. Merecem ser acompanhados por pessoas que compreendam verdadeiramente o que isso implica, porque o viveram.

Não façam este caminho sozinhos. O talento não chega, a vontade não chega. É preciso estrutura, é preciso um enquadramento, é preciso uma equipa que pense por vocês quando já não têm energia para o fazer. Pedir ajuda não é uma fraqueza, é inteligência.

Aos mais novos que estão a começar, deixo uma mensagem clara: não queimem etapas. Construam primeiro o vosso percurso desportivo antes de pensarem na imagem. A marca pessoal nasce da verdade dentro da jaula, nunca o contrário.

Confiem no processo, não como um slogan, mas como uma disciplina diária. Cada treino conta, cada detalhe conta, cada combate conta.

A todos os intervenientes do setor — organizações, patrocinadores, instituições e meios de comunicação — o momento é agora. O MMA português tem tudo para se afirmar como uma cena respeitada a nível europeu e internacional. Mas isso não acontecerá sem um esforço coletivo.

Quanto mais construirmos em conjunto, mais protegemos os nossos talentos, mais oportunidades criamos localmente e mais o desporto cresce como um todo. É do interesse de todos.

Para terminar, não tenho a pretensão de ter todas as respostas. Ainda estou a aprender este papel de manager, cometo erros e ajusto-me constantemente. O que posso garantir é a vontade de fazer bem, o respeito pelo atleta e a paciência para construir a longo prazo.

É nisso que acredito, e é nisso que a BDZ Management assenta.

A entrevista com Peter Ligier revela uma visão rara e profundamente contextualizada sobre o momento atual do MMA português. Mais do que gerir atletas, o fundador da BDZ Management procura construir estruturas, relações e carreiras sustentáveis num mercado ainda em crescimento. Entre a experiência acumulada como antigo lutador profissional e a criação de um ecossistema integrado entre academia, management e produção audiovisual, Ligier apresenta uma leitura pragmática sobre os desafios do setor, mas também sobre o potencial real que existe em Portugal.

Num desporto cada vez mais competitivo e profissionalizado, a sua abordagem assenta menos na quantidade e mais na construção estratégica, humana e a longo prazo — uma filosofia que poderá tornar-se cada vez mais relevante no futuro do MMA nacional.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Lenium - Criar site de notícias