XXVI Campeonato Brasileiro JKA em edição histórica pelos 80 anos do Shihan Yoshizo Machida
Com curso internacional, Copa 80 anos, presença de Tatsuya Naka, o sensei Paulo Pestana fez a cobertura para a Fight News, em um evento que reuniu atletas, técnicos e mestres de várias regiões do Brasil em uma das edições mais simbólicas da JKA Brasil
Por: RedaçãoFonte: Redação FightNews
05/05/2026 às 12h39Atualizada em 05/05/2026 às 14h17
Fight News Portugal
Belém foi o centro do karatê Shotokan JKA no Brasil durante a realização do XXVI Campeonato Brasileiro JKA 2026, uma edição que ultrapassou o calendário competitivo e assumiu dimensão histórica. O evento aconteceu junto ao Curso Internacional de Karatê-Dô JKA e à Copa 80 anos Shihan Yoshizo Machida, reunindo atletas, técnicos, instrutores, árbitros e praticantes de diferentes estados em torno de três eixos centrais: competição, formação técnica e celebração de legado.
A programação oficial ocorreu entre os dias 22 e 26 de abril, no complexo do Mangueirinho, em Belém, com a presença do Shihan Yoshizo Machida, presidente da JKA Brasil, do mestre japonês Tatsuya Naka, vindo do Hombu Dojo da JKA Japão, e de Chinzo Machida, que participou como palestrante com uma proposta complementar ao treinamento do karatê, voltada para aplicação, defesa pessoal e preparação mental.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
Segundo os números levantados pela organização, o curso reuniu 735 participantes, a Copa contou com 230 participantes e o Campeonato Brasileiro teve 365 competidores. Mais do que o volume de inscritos, a edição chamou atenção pela atmosfera de encontro nacional, pela força simbólica da homenagem ao Shihan Machida e pelo nível técnico apresentado nos tatames.
A Fight News esteve presente com cobertura especial do sensei Paulo Pestana, correspondente no evento, que entrevistou algumas das figuras mais importantes do campeonato: o próprio Shihan Yoshizo Machida, Take Machida, promotor e organizador da edição, Kazuo Nagamine, diretor técnico da JKA Brasil, Roberto Pestana, presidente da JKA Rio de Janeiro e técnico da seleção do RJ, Fábio Simões, técnico da seleção de São Paulo, André Sampaio, técnico da seleção do Pará, e Chinzo Machida, um dos nomes convidados para ampliar a reflexão sobre o karatê contemporâneo.
sensei Take Machida, shihan Machida e sensei Paulo Pestana Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
Para o Shihan Yoshizo Machida, a edição teve um significado profundamente pessoal e coletivo. Ao recordar sua chegada ao Brasil, em 1968, e a construção de quase seis décadas de trabalho, o mestre definiu o momento como um sentimento de gratidão. Em sua visão, o karatê “plantado” no país cresceu com o apoio de muitos professores, alunos e famílias. A metáfora usada durante a entrevista resume o espírito da edição: uma semente que demorou a florescer, mas que hoje dá frutos.
Cheguei ao Brasil em 1968, sozinho. Aquilo que foi plantado cresceu, deu frutos e só foi possível com a ajuda e o apoio de todos vocês, porque sozinho ninguém constrói nada. O sentimento é de profundo agradecimento.
O Shihan também destacou o crescimento técnico do karatê brasileiro. Segundo ele, Tatsuya Naka elogiou o nível apresentado no país, mas o próximo passo passa por um desafio mais amplo: a formação de árbitros com elevado padrão técnico. Para Machida, a evolução de atletas e instrutores precisa caminhar ao lado da qualificação da arbitragem, para que o Brasil possa competir em nível cada vez mais alto no cenário internacional.
Ainda assim, sua mensagem principal foi para além do resultado. Ao falar aos atletas, técnicos e instrutores, o Shihan reforçou a importância de Shin Gi Tai, do respeito, do Reigi e do Dojo Kun como princípios que não devem ficar restritos ao dojo. Para ele, o karatê deve acompanhar o praticante na vida cotidiana, independentemente da profissão ou do ambiente.
sensei Kazuo Nagamine e sensei Paulo Pestana
Essa visão foi reforçada por Kazuo Nagamine, diretor técnico da JKA Brasil. Para Nagamine, a edição teve várias camadas: uma afetiva, pela celebração dos 80 anos de Yoshizo Machida, e outra técnica, pela possibilidade de reunir professores e atletas de todo o país para aferir o trabalho desenvolvido ao longo dos anos. Na sua leitura, a competição dentro da JKA não é apenas um evento esportivo, mas parte de um processo educacional.
Esta edição tem várias faces, e uma delas é afetiva. Trata-se da comemoração dos 80 anos do Sensei Machida, um dos precursores do karatê no Brasil e uma referência de grande nível no karatê Shotokan JKA, não apenas no país, mas no mundo inteiro.
Celebrar os seus 80 anos aqui é muito importante para todos nós. É um marco. Por outro lado, a mobilização de tantas pessoas de todo o Brasil para participarem da Copa Machida e do Campeonato Brasileiro mostra o comprometimento de todos os que puderam estar presentes e também daqueles que, mesmo comprometidos, não conseguiram vir.
Do ponto de vista técnico, isso é fundamental. Permite que senseis e professores participantes possam aferir o que foi treinado ao longo do ano. Sem dúvida, esse processo produz um grande avanço para o karatê brasileiro.
O conhecimento precisa ser compartilhado com todos. Funcionamos como um corpo, com todas as suas células, e cada praticante contribui, efetivamente, não só para a história, mas para o desenvolvimento do karatê como um todo.
Nagamine também destacou a presença de Tatsuya Naka como um dos pontos centrais da edição. Mais do que um nome internacionalmente reconhecido, o sensei Naka foi apresentado como um pesquisador e pensador do karatê, alguém capaz de unir técnica, filosofia, estudo corporal e introspecção. A sua vinda ao Brasil, segundo o diretor técnico, teve uma preocupação pedagógica: fortalecer o desenvolvimento do karatê JKA sem romper com a estrutura tradicional da escola.
Imagem: instagram JKA Brasil
Para Take Machida, promotor e organizador do evento, o Campeonato Brasileiro é, antes de tudo, uma grande confraternização. Embora o lado competitivo seja forte, ele ressaltou que o encontro representa união, amizade e família. A edição de Belém teve peso especial por acontecer na cidade onde Yoshizo Machida construiu sua trajetória no Brasil e por marcar os seus 80 anos de vida.
O Campeonato Brasileiro, como o meu pai sempre nos disse desde crianças, é uma festa de confraternização. É o momento de união com os amigos. Claro que existe o lado competitivo, que é muito forte, mas o mais importante é essa união, essa celebração entre as pessoas. É isso que acontece aqui. É isso que traz todos para perto.
Vemos as famílias a unirem-se, os pais a conviverem com outros pais, todos com orgulho de estarem juntos. O karatê tem esse sentido de grupo familiar muito forte, de apoio mútuo, e isso é muito marcante para nós. Faz parte da proposta da JKA.
Esta edição acontece na comemoração dos 80 anos do Mestre Machida, que representa praticamente 60 anos de trabalho no Brasil. Ele chegou ao país com 22 anos e iniciou aqui uma trajetória construída através do karatê. Por isso, o sucesso que hoje a família Machida tem também pertence, de alguma forma, a todos os karatecas do Brasil, que colaboraram para que esse caminho se tornasse cada vez maior. É isso que estamos a celebrar: os 80 anos do Mestre Machida.
sensei Take Machida e sensei Paulo Pestana Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
Take Machida destacou ainda que a escolha de trazer Tatsuya Naka foi estratégica. O objetivo era fortalecer a união entre karatecas de diferentes origens e mostrar a força agregadora da JKA. Segundo ele, havia praticantes de outras federações, estilos e linhas do karatê presentes no evento, o que reforçou a proposta de integração e também registrou que, por causa da homenagem ao Shihan Machida, karatecas de outras federações, tradicional, olímpica e interestilos, confirmaram participação.
O objetivo de trazer o Sensei Naka era exatamente fortalecer essa união. Aqui, temos pessoas do interestilos, do karatê tradicional e de outras linhas do karatê, todos presentes e a participar dessa construção junto connosco.
A presença do Sensei Naka veio para reforçar ainda mais esse espírito de integração e mostrar que a JKA tem força para isso. Ele tem uma característica muito especial: estuda o karatê como arte marcial. Não está preso a uma visão fechada, pensa fora da caixa. Visita academias de kendô, de aikido, procura compreender outras modalidades e perceber como certos princípios podem dialogar com o karatê.
O Sensei Naka tem uma qualidade técnica e humana muito grande, e a sua presença acrescenta muito a este movimento.
O organizador também falou sobre legado. Para Take, trazer um evento dessa magnitude a Belém, depois de tantos anos, não se resume a organizar uma competição. O karatê, na sua visão, continua a oferecer algo necessário à formação das crianças e jovens: disciplina, coragem, educação, autocontrole e capacidade de enfrentamento. Não no sentido da violência, mas da construção de postura diante da vida.
E eu digo o seguinte, a gente está aqui nessa vida para deixar um legado.
sensei André Sampaio e sensei Paulo Pestana
Dentro dos resultados coletivos, o Pará terminou em primeiro lugar geral, sob comando técnico de André Sampaio. Para ele, o peso emocional da edição era evidente: competir em casa, na celebração dos 80 anos do Shihan Machida, trouxe uma responsabilidade especial para a equipe. André destacou que o trabalho foi sustentado pela atenção aos fundamentos, tanto no kata quanto no kumite, e pelo espírito de grupo. Para os atletas mais jovens, especialmente os que participaram da Copa Machida, a prioridade foi construir uma base sólida. Para os mais experientes, a preparação envolveu também coesão, confiança e sentido coletivo.
“Sem dúvida, havia uma expectativa muito grande. Estávamos a representar os 80 anos do Sensei Machida, nosso instrutor-chefe, e isso tem um peso diferente. Aqui em Belém, temos a bênção de conviver com um grande mestre, um nome mundialmente reconhecido. Isso desperta em nós o sentimento de que precisamos, de alguma forma, corresponder ao privilégio de ter o Sensei Machida tão perto.”
São Paulo ficou em segundo lugar geral e também se destacou no kumite por equipe, onde terminou como campeão. O técnico da seleção paulista Fábio Simões ressaltou um ponto essencial da preparação competitiva: a relação de confiança entre atleta e técnico. Para ele, não basta treinar ou repetir movimentos; é preciso saber ouvir, acreditar na orientação e manter envolvimento real com o processo. No ambiente de competição, onde muitas vozes cercam o atleta, a palavra do técnico precisa ter peso construído no dia a dia.
sensei Fábio simões e sensei Paulo Pestana
“Antes de tudo, o atleta precisa estar muito bem preparado. Mas também precisa acreditar no técnico, confiar na informação técnica e entender que, naquele momento, existe uma verdade sendo transmitida. Não adianta treinar, repetir e fazer se, na hora da luta, ele não souber ouvir. O técnico precisa estar realmente envolvido, presente no dia a dia do atleta, porque é essa relação que faz a palavra dele ter peso quando mais importa.”
Equipe do rio de Janeiro com sensei Roberto Pestana Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
O Rio de Janeiro, comandado por Roberto Pestana, terminou em terceiro lugar geral, mantendo uma regularidade importante dentro da JKA Brasil. Um dado relevante é que a equipe carioca tem permanecido entre as primeiras colocações mesmo levando um número reduzido de participantes. Para Roberto, o resultado é consequência de um trabalho contínuo, feito por um grupo de professores que segue treinando, colocando o quimono e mantendo os atletas próximos e motivados.
“Ninguém faz nada sozinho. É um grupo de professores ligados, próximos dos atletas, mantendo o quimono no dia a dia.”
Segundo ele, o desafio não é apenas administrar uma equipe, mas permanecer envolvido com o karatê. No caso do Rio de Janeiro, o trabalho é coletivo e passa por nomes como Roberto Pestana, Jaime Sandal, Paulo Pestana, André Reis e outros professores que contribuem para a formação dos atletas. A visão de Roberto reforça uma característica central da JKA: a competição não aparece isolada, mas integrada ao budô, ao comportamento, à troca técnica, ao curso e à padronização conduzida por mestres de alto nível.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
“Há competição, mas junto dela existe toda a dimensão do budo, o comportamento, a troca de informação técnica e a participação no curso.
Isso é uma característica da JKA. Sempre que há uma competição, existe também a oportunidade de reunir mais pessoas e fazer uma padronização técnica com o mestre mais graduado. Há sempre esse cuidado, esse capricho com a padronização. Por isso, quando o atleta treina regularmente dentro desse ambiente, o trabalho de preparação torna-se muito mais natural.”
Nos resultados por equipe, São Paulo confirmou força ao conquistar o kumite por equipe, seguido pelo Pará, em segundo, e pelo Rio de Janeiro, em terceiro. Já no kata por equipe, a Bahia ficou em primeiro lugar, com São Paulo em segundo e Rio de Janeiro em terceiro.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
Outro momento de destaque foi a participação deChinzo Machida como palestrante. Ex-atleta de alto rendimento, multicampeão brasileiro e vice-campeão mundial JKA, Chinzo trouxe ao evento uma reflexão complementar: como preservar a tradição do karatê JKA e, ao mesmo tempo, recuperar elementos de aplicação prática, defesa pessoal e preparação mental. Ele deixou claro que sua proposta não é concorrente da JKA, mas complementar. Para Chinzo, a competição é apenas uma parte do karatê. A essência permanece na formação do caráter, na disciplina, na autoconfiança e na continuidade da prática ao longo da vida.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
“A competição é apenas uma pequena parte. O karatê contribui para a formação do caráter, da disciplina e da autoconfiança.
Sou um grande admirador do karatê JKA, um karatê japonês, de tradição. Mas tenho uma proposta um pouco diferente, que procura incorporar mais o karatê como defesa pessoal. Foi por isso que criámos o sistema Machida Karatê, voltado para essa aplicação mais prática.
Ainda assim, ficaria muito feliz em ver o karatê JKA desenvolver-se, crescer e continuar o trabalho do meu pai, talvez no futuro com uma nova liderança. E eu apoiaria esse grupo se existisse, de facto, uma proposta alinhada com aquilo que o meu pai e o Sensei Sasaki sempre defenderam em prol da JKA.”
Chinzo também abordou a dimensão psicológica da performance. Em sua mensagem a atletas e instrutores, reforçou a importância de estar mais presente do que preso à cobrança pelo resultado. Para ele, todo atleta quer vencer, mas o foco deve estar em apresentar o máximo do próprio potencial. A vitória pode ou não vir; o mais importante é entregar aquilo que foi treinado e usar a competição como ferramenta de avaliação e evolução.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
“Em todo campeonato, todos querem ganhar. Isso é inevitável. Mas, para além de pensar apenas na vitória, é importante que o atleta consiga soltar-se mais, relaxar e ter como objetivo desenvolver o máximo do seu potencial.
Não se trata de criar uma cobrança excessiva pelo resultado, mas de dar o melhor de si — e deixar que o melhor resultado venha como consequência. Tanto o técnico quanto o atleta precisam procurar esse estado de maior presença, em vez de ficarem presos à pressão.
Quando se está mais presente, aumenta-se a possibilidade de alcançar o estado mais positivo possível. Isso não significa que a vitória esteja garantida, mas significa que o atleta terá condições de apresentar o seu melhor.”
A presença de Tatsuya Naka, por sua vez, reforçou o caráter internacional e técnico da edição. Reconhecido mundialmente pela precisão técnica, pela pesquisa marcial e pela sua atuação em produções ligadas ao karatê, Naka foi uma das figuras mais aguardadas do evento. A programação incluiu curso internacional, formação de árbitros, exames de faixa preta e atividades de integração, consolidando a edição como uma experiência de formação completa, e não apenas como uma disputa por medalhas.
Imagem: instagram JKA Brasil
Ao final, o XXVI Campeonato Brasileiro JKA Brasil 2026 em Belém deixou uma mensagem clara: o karatê brasileiro vive um momento de afirmação técnica, mas também de responsabilidade histórica. Celebrar os 80 anos do Shihan Yoshizo Machida foi reconhecer uma trajetória individual que se confunde com a própria expansão do Shotokan JKA no país. Ao mesmo tempo, reunir curso, Copa, Campeonato Brasileiro, exames, palestras e entrevistas permitiu enxergar a JKA como escola, comunidade e projeto de formação.
Imagem: Fotopacer Fotógrafos: Ycaro Ramos, Fabio Floriano, Ederson Corrêa e Kayo Michel
Em Belém, o tatame foi mais do que espaço de disputa. Foi ponto de encontro entre gerações, estados, mestres, atletas e famílias. Uma edição marcada por resultados, sim, mas sobretudo por continuidade. Porque, como ficou evidente nas entrevistas conduzidas por Paulo Pestana para a Fight News, o verdadeiro legado do karatê não se mede apenas pelo pódio. Mede-se pela capacidade de formar pessoas que carregam o dojo para dentro da vida.
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Marcos RibeiroHá 2 semanas Rio de Janeiro - RJParabéns a todos por mais uma competição de excelência, em todos os aspectos! OSS!!