
Em 1993, Royce Gracie venceu o primeiro UFC pesando menos do que a maioria dos adversários que enfrentou. Não ganhou por ser mais forte, mais rápido ou mais resistente.Ganhou porque o problema que o jiu-jitsu brasileiro tinha passado décadas a resolver, como um homem menor submete um homem maior no chão, era exatamente o problema que nenhum dos outros sistemas tinha priorizado.
Durante anos, a narrativa popular foi a de que o UFC provava que o jiu-jitsu era a arte marcial superior. Mas havia uma leitura mais precisa disponível, e demorou tempo a ser formulada com rigor: o que o UFC de 1993 demonstrou não foi a superioridade de um sistema. Demonstrou que sistemas diferentes tinham resolvido problemas diferentes, com graus de profundidade muito distintos. E que quando esses problemas finalmente apareceram no mesmo contexto, as soluções mais desenvolvidas ganharam.
É sobre essa leitura, a dos problemas, não das formas. que este texto se debruça.
"O jiu-jitsu não ganhou o UFC. O problema do combate no solo ganhou o UFC. O jiu-jitsu apenas tinha a resposta mais desenvolvida."

Quando Jamie Acutt propôs estudar artes marciais pelos problemas que resolvem e não pelas formas que têm, abriu uma fenda na forma como o mundo marcial se vê a si próprio.
No ensaio Fighting with First Principles, publicado em 2025, o investigador Jamie Acutt parte de uma premissa simples mas com consequências profundas: as artes marciais têm sido estudadas, comparadas e hierarquizadas quase sempre pela sua forma exterior. Técnicas, kata, posições, nomenclatura, filosofia, país de origem. A pergunta dominante tem sido "o que faz este sistema" e não "que problema este sistema foi construído para resolver".
Acutt propõe inverter a ordem da investigação. Em vez de partir da forma para tentar encontrar função, partir da função para perceber por que a forma existe. É uma distinção metodológica — estudar artes marciais com os instrumentos das ciências da complexidade em vez dos instrumentos da etnografia ou da história do desporto — mas as suas implicações práticas são imediatas.
O resultado mais imediato é que sistemas que pareciam radicalmente distintos começam a revelar-se como respostas paralelas aos mesmos constrangimentos. O que a biologia chama equifinalidade — caminhos diferentes que chegam ao mesmo resultado — aparece repetidamente na anatomia das artes marciais, quando observada a este nível.

Acutt identifica seis categorias de problemas que qualquer arte marcial, independentemente da sua origem cultural ou temporal, é obrigada a resolver. Ele designa-as os 6 P's. Não como checklist pedagógica, mas como mapa dos constrangimentos universais do combate humano.
O primeiro constrangimento é a Performance — o corpo e as suas limitações biomecânicas. Nenhum sistema pode ser indiferente à física do movimento humano. A amplitude articular, a produção de força, a transferência de peso, o equilíbrio: estes são parâmetros que a anatomia fixa antes de qualquer decisão cultural. Um chute giratório no capoeira e um roundhouse no Muay Thai são formas culturalmente distintas de resolver o mesmo problema biomecânico — como gerar força rotacional com o membro inferior.
O segundo é Proxemics — a gestão da distância e do tempo. Todos os sistemas marciais desenvolveram vocabulário para este problema. O maai japonês nas artes de origem nipónica, o measure na esgrima europeia, o juego de piernas na luta espanhola, o broken rhythm no boxe moderno. São nomenclaturas radicalmente diferentes para o mesmo mapa cognitivo: onde estou em relação ao adversário, a que velocidade essa relação muda, e como a posso manipular.
O terceiro é Pressure — a decisão sob stress. Este é talvez o mais estudado pela psicologia do desporto e o menos formalizado pelas tradições marciais clássicas. Como age um praticante quando o medo, a fadiga e a urgência temporal colidem? Sistemas diferentes responderam de formas diferentes: alguns através da repetição até à automatização (o treino de kata no karate), outros através da exposição deliberada ao caos (o randori no judo), outros ainda através de rituais de contenção emocional antes do combate. O problema é o mesmo. As soluções pedagógicas divergem.
O quarto é Principles — a gestão do risco. Como cada sistema equilibra eficácia imediata com segurança do praticante, com sustentabilidade a longo prazo, com ética de uso. O boxe profissional maximiza impacto dentro de regras que protegem os participantes. O aikido minimiza dano ao adversário como princípio central. O krav maga elimina a preocupação com o dano ao adversário em nome da eficácia de sobrevivência. São respostas distintas ao mesmo dilema: combate implica risco, e toda a arte tem de decidir como o distribuir.
O quinto é Protocol — a sequência estratégica. Como o sistema organiza o pensamento em combate. No boxe, o jab é o protocolo de abertura — estabelece distância, lê o adversário, cria oportunidade. No jiu-jitsu, a hierarquia posicional (de pé, clinch, queda, posição dominante no chão, finalização) é um protocolo de progressão. No wrestling, o tie-up e a entrada em queda dupla são sequências codificadas. A forma é diferente. A função — organizar a acção sob pressão temporal — é idêntica.
O sexto é Pedagogy — a transmissão do conhecimento tácito. Como cada sistema ensina o que não se consegue explicar com palavras. O uke do judo que aprende a cair antes de aprender a lançar. O sparring controlado do boxe que expõe o aprendiz ao timing real antes de o expor ao poder real. O drilling do jiu-jitsu que instala padrões de movimento na memória muscular. O problema é sempre o mesmo: há conhecimento incorporado que a instrução verbal não transmite, e cada sistema inventou formas de o contornar.
"Seis problemas. Centenas de sistemas. Milénios de história. As soluções variam. Os problemas, não."

A equifinalidade é um conceito da biologia sistémica descrito pelo biólogo Ludwig von Bertalanffy nos anos 1950, no contexto da sua Teoria Geral dos Sistemas. O princípio é simples: em sistemas abertos e complexos, é possível atingir o mesmo estado final a partir de condições iniciais diferentes, por caminhos diferentes.
Von Bertalanffy estava a pensar em organismos vivos e sistemas ecológicos. Mas o princípio aplica-se com precisão notável ao desenvolvimento paralelo das artes marciais.
Considere o problema do combate no chão. Culturas sem contacto entre si desenvolveram respostas estruturalmente semelhantes.O Malla-yuddha indiano, ancestral do Pehlwani, com mais de três mil anos, já codificava estrangulamentos e torções articulares que qualquer praticante de jiu-jitsu reconhece hoje. Soluções diferentes. Mesmo problema.
O mesmo padrão aparece na gestão da distância. A esgrima italiana do século XVI desenvolveu o conceito de misura — a distância a partir da qual um ataque pode atingir o adversário num único passo. O Muay Thai desenvolveu o conceito de kerd — a distância de segurança que precede o clinch. São culturas separadas por milénios e continentes. O problema que resolveram, a geometria do perigo no espaço entre dois corpos, é o mesmo.
Esta convergência não é resultado de influência cruzada. É resultado de constrangimentos partilhados. O corpo humano tem a mesma arquitectura em Tóquio, em Lagos e em São Paulo. Os ângulos de vulnerabilidade de uma articulação não variam com a cultura. A velocidade de reacção humana ao estímulo visual tem o mesmo envelope em qualquer parte do mundo. Os sistemas que ignoraram estes constrangimentos desapareceram. Os que os codificaram sobreviveram.

Darwin não descreveu a evolução como uma marcha em direcção ao melhor. Descreveu-a como um processo de adaptação ao ambiente disponível. A diferença é fundamental, e é frequentemente ignorada quando se fala de artes marciais.
O Muay Thai não é superior ao Krav Maga. O Muay Thai é a resposta mais adaptada a um ambiente específico: competição regulada, pé-a-pé, dentro de um ringue, com adversários de peso semelhante, sob regras que excluem luta no chão. O Krav Maga é a resposta mais adaptada a um ambiente diferente: ameaça múltipla, ambiente urbano, sem regras, com objectivo de neutralização rápida. Colocar um especialista de Muay Thai num cenário de Krav Maga é como tirar um peixe da água — não é o peixe que falhou, é o ambiente que mudou.
O que a selecção natural fez ao longo da história das artes marciais foi eliminar os sistemas que não resolviam os 6 P's suficientemente bem para o ambiente em que operavam. Os que sobreviveram não são os melhores em abstracto. São os mais adaptados ao contexto que os moldou.
Esta perspectiva tem uma implicação prática imediata: quando um sistema marcial muda de ambiente — como aconteceu com quase todas as artes tradicionais quando entraram na competição desportiva ou no MMA — a pressão selectiva muda. E o sistema tem de se adaptar ou ficar irrelevante no novo contexto, mesmo que continue relevante no contexto original.
O judô olímpico é um exemplo claro. Kano Jigoro criou o judo com um conjunto de técnicas de pé e de chão integradas. A selecção competitiva, ao longo de décadas de regulamentação olímpica, progressivamente eliminou o trabalho de chão do repertório efectivo dos judocas de alto nível. Não porque as técnicas de chão do judo sejam menos eficazes — são extremamente eficazes — mas porque as regras criaram um ambiente onde o investimento no chão tem retorno competitivo limitado. O sistema adaptou-se ao ambiente regulatório. O que sobreviveu no tatami olímpico é o judo mais adaptado ao tatami olímpico, não o judo mais completo.
"Darwin não dizia que o mais forte sobrevive. Dizia que o mais adaptado ao ambiente disponível sobrevive. As artes marciais não são excepção."

O que o MMA criou nos últimos trinta anos não tem precedente na história das artes marciais. Pela primeira vez, sistemas desenvolvidos em isolamento foram sujeitos ao mesmo ambiente de pressão selectiva, simultaneamente, com consequências mensuráveis em tempo real.
O efeito foi o de um acelerador evolutivo. Técnicas que existiam dentro de sistemas específicos, mas que nunca tinham sido testadas fora deles, foram de repente expostas a problemas para os quais não tinham sido originalmente desenhadas. Algumas colapsaram. Outras revelaram capacidades que os próprios sistemas de origem não tinham reconhecido.
O exemplo mais documentado é o do wrestling americano no MMA. O wrestling universitário americano foi desenvolvido exclusivamente para o ambiente da competição de wrestling — tapete, regras de pontuação, sem grounding strikes, sem submissões. Quando os wrestlers entraram no MMA, trouxeram um motor de controlo posicional que era devastador num contexto para o qual não tinha sido desenhado. A capacidade de tirar o adversário e manter o controlo posicional no chão — desenvolvida durante décadas de competição sem strikes — revelou-se extraordinariamente eficaz num ambiente com strikes, porque a posição de controlo do wrestler elimina o ângulo de strikes do adversário.
O inverso também aconteceu. O karate, uma das artes mais praticadas do mundo, entrou no MMA com um historial pobre nas primeiras décadas. Não porque o karate seja ineficaz — a sua gestão de distância e a potência de golpes únicos são genuinamente sofisticadas — mas porque o protocolo de combate do karate clássico assume distância e timing que os adversários de MMA não respeitam. A solução não foi abandonar o karate. Foi adaptar o protocolo ao novo ambiente. Lyoto Machida, Stephen Thompson e Wonderboy demonstraram que o karate adaptado ao MMA não é apenas viável — é difícil de defender, precisamente porque vem de um ângulo que a maioria dos sistemas de MMA não treinou para resolver.
O que o MMA revelou, portanto, não foi uma hierarquia de sistemas. Revelou que dentro de cada sistema existiam respostas a problemas que outros sistemas não tinham priorizado. E que o ambiente determina quais dessas respostas têm expressão.

A implicação mais directa da framework dos 6 P's não é teórica. É prática e imediata.
Se todos os sistemas marciais são respostas ao mesmo conjunto de problemas, então a qualidade do treino de qualquer praticante pode ser mapeada com precisão: em qual dos seis domínios existe desenvolvimento real, e em qual existe apenas familiaridade superficial?
Um praticante que treina kickboxing há cinco anos pode ter Performance e Protocol bem desenvolvidos — sabe gerar força, sabe sequenciar. Mas se o treino nunca incluiu exposição a Pressure real — sparring com adversários que não conhece, competição, ambiguidade — o mapa está incompleto. O sistema pode ter a resposta. O praticante pode não ter instalado essa resposta no lugar onde importa, que é sob stress.
Da mesma forma, um grappler que treina cinco anos pode ter Proxemics de chão excepcionalmente desenvolvida e Proxemics de pé praticamente inexistente. Isso não é um problema do sistema. É um problema de onde o treino focou a atenção dentro do sistema.
A framework não diz que todos os sistemas são iguais. Diz que todos os sistemas têm zonas de desenvolvimento e zonas de negligência, e que identificar essas zonas com precisão é mais útil do que debater qual o sistema superior.
O que a ciência ainda não consegue medir
Seria intelectualmente desonesto concluir este texto sem reconhecer os limites da framework.
Os 6 P's descrevem constrangimentos funcionais do combate humano com precisão considerável. Mas há dimensões das artes marciais que resistem à redução funcional. A transmissão ritual do conhecimento — o peso de aprender de um mestre específico, numa linhagem específica — tem um valor que não é capturado por nenhuma das seis categorias. A identidade coletiva que se forma em torno de uma arte, o sentido de pertença a uma tradição, a relação com a história e com os que treinaram antes, são fenómenos reais com impacto real na experiência do praticante. A equifinalidade explica a convergência técnica. Não explica por que um budoka e um capoeirista se identificam com artes diferentes mesmo que estejam a resolver problemas semelhantes.
A selecção natural explica quais os sistemas que sobreviveram. Não explica o que se perdeu. Há artes que desapareceram não por inadequação ao ambiente, mas por ruptura na transmissão — guerras, colonização, morte dos mestres. O que foi eliminado não é necessariamente inferior. É simplesmente inacessível.
E há o problema da qualia do combate — a experiência subjectiva de estar dentro de um encontro marcial — que nenhum modelo externo consegue capturar completamente. Os 6 P's descrevem o combate de fora. O combate vive-se de dentro.
"A framework não substitui o treino. Substitui a confusão sobre o que o treino está a fazer."

"Fighting with First Principles" não é um manifesto contra a tradição. É um instrumento de leitura. Como qualquer instrumento, é mais útil quando se sabe o que está e o que não está dentro do seu alcance.
O que está dentro do seu alcance é considerável: permite comparar sistemas sem hierarquizá-los arbitrariamente, identificar zonas de desenvolvimento com precisão, compreender por que o MMA evoluiu como evoluiu, e antecipar como sistemas específicos se comportam quando o ambiente muda.
O que está fora do seu alcance — a dimensão identitária, ritual, histórica e subjectiva das artes marciais — não é menos real. É simplesmente de outra natureza.
Para os praticantes que levam a sério tanto o combate como a cultura que o rodeia, a proposta de Acutt oferece algo raro: uma forma de pensar sobre o que se treina que é simultaneamente mais rigorosa e mais humilde do que a maioria das narrativas disponíveis. Mais rigorosa porque exige especificidade sobre problemas e soluções. Mais humilde porque reconhece que nenhum sistema tem o monopólio das respostas.
O código é partilhado. A forma como cada arte o escreve é de cada uma.