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Jiu-Jitsu terapêutico transforma vidas: um projeto inovador para crianças com autismo

Mais do que desporto, uma missão da Associação Faisão BJJ: apoiar crianças e famílias através do Jiu-Jitsu adaptado

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
02/04/2026 às 12h21 Atualizada em 02/04/2026 às 14h04
Jiu-Jitsu terapêutico transforma vidas: um projeto inovador para crianças com autismo
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Num contexto em que a inclusão e o apoio a crianças com perturbação do espectro do autismo são cada vez mais prioritários, surge um projeto diferenciador que alia o Jiu-Jitsu a uma abordagem terapêutica estruturada. Mais do que uma prática desportiva, esta iniciativa tem vindo a afirmar-se como uma verdadeira ferramenta de desenvolvimento físico, emocional e social.

Criado a partir de uma experiência prática e de uma necessidade real identificada no terreno, o projeto Associação Faisão BJJ tem vindo a impactar não só as crianças envolvidas, mas também as suas famílias. Nesta entrevista, Ronaldo Luis, responsável pela iniciativa partilha a origem do projeto, os desafios, as conquistas e a visão para o futuro.

FightNews: Como nasceu a ideia de criar este projecto direcionado para crianças autistas com fins terapêuticos?

A ideia de criar este projeto nasceu de forma inesperada, mas profundamente marcante na minha vida.
Tudo começou quando recebi uma ligação da Clínica Psicossorrir, convidando-me para desenvolver um ATL para um grupo considerado “especial” e, segundo me disseram, bastante desafiador. Naturalmente, quis compreender melhor o que significava essa dificuldade. Foi então que tive conhecimento de que se tratava de sete crianças dentro do espectro do autismo, sendo duas cadeirantes e três não verbais.
De imediato, aceitei o desafio.
Sabia que precisava de estar preparado, por isso procurei formação específica sobre o espectro do autismo no Brasil, aproveitando o tempo que tinha disponível para me capacitar da melhor forma possível. Durante cerca de 225 dias, dediquei-me a este grupo, ministrando aulas de jiu-jitsu adaptado, sempre com o objetivo de promover não só o desenvolvimento físico, mas também o bem-estar emocional e social de cada criança.
Quando esse ciclo chegou ao fim, algo inesperado aconteceu: alguns alunos começaram a insistir com os pais para continuarem a encontrar-se comigo. Foi nesse momento que percebi uma realidade que me marcou profundamente — não existia nada estruturado para eles fora daquela experiência.
E foi aí que tudo começou.
Percebi que havia uma lacuna enorme e uma necessidade real. O que inicialmente era um desafio pontual transformou-se numa missão: criar um espaço contínuo, inclusivo e terapêutico, onde estas crianças pudessem evoluir, sentir-se acolhidas e ter acesso a uma melhor qualidade de vida.

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FightNews:O que o motivou a avançar com uma iniciativa tão específica e tão importante para estas crianças e respectivas famílias?

O que me motivou a avançar com esta iniciativa foi, acima de tudo, a perceção clara de uma necessidade real e urgente.
Através da minha experiência direta com as crianças, compreendi o impacto que o desporto, aliado à ciência ABA (Análise do Comportamento Aplicada), pode ter no seu desenvolvimento. Por isso, procurei investir em várias formações nesta área, com o objetivo de me tornar um agente facilitador da integração destas crianças na sociedade e de contribuir para uma melhor qualidade de vida.

Mas não são apenas as crianças que se beneficiam — as famílias também. Quem não vive esta realidade, muitas vezes não tem noção dos desafios diários que estas famílias enfrentam. Situações simples, como ir ao supermercado ou ao shopping com o filho, podem tornar-se extremamente difíceis.
Com este trabalho, procuramos precisamente criar condições para que essas experiências se tornem mais acessíveis e naturais. Através de uma relação próxima, baseada na confiança com as famílias, temos vindo a avançar de forma consistente nesta intervenção, ajudando não só no desenvolvimento das crianças, mas também no equilíbrio e bem-estar familiar como um todo.
É essa transformação — ainda que gradual — que me motiva todos os dias a continuar.

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FightNews: Qual é a importância de um projecto como este no desenvolvimento das crianças com perturbação do espectro do autismo?

Um projeto como este tem um papel fundamental no desenvolvimento de crianças com perturbação do espectro do autismo, porque atua de forma integrada em várias dimensões essenciais da sua vida.
Em primeiro lugar, promove o desenvolvimento motor e cognitivo através do desporto adaptado, permitindo que as crianças trabalhem coordenação, equilíbrio, foco e disciplina de forma estruturada, mas também motivadora. Quando aliado a abordagens científicas como a ABA (Análise do Comportamento Aplicada), esse trabalho torna-se ainda mais eficaz, pois passa a ter intencionalidade terapêutica e objetivos bem definidos.
Além disso, este tipo de projeto é determinante no desenvolvimento das competências sociais. Muitas destas crianças apresentam dificuldades na comunicação, interação e adaptação a diferentes contextos. Aqui, encontram um ambiente seguro, previsível e acolhedor, onde podem aprender, ao seu ritmo, a relacionar-se com os outros e a ganhar autonomia.
Outro ponto essencial é a promoção da autorregulação emocional. Através das atividades e da consistência das intervenções, as crianças conseguem, progressivamente, lidar melhor com frustrações, mudanças de rotina e estímulos externos.
Por fim, não menos importante, está o impacto direto nas famílias. Projetos como este não transformam apenas a vida das crianças — dão também suporte, esperança e qualidade de vida aos seus cuidadores. Quando uma criança evolui, toda a dinâmica familiar melhora.
Em suma, trata-se de muito mais do que uma atividade: é uma ferramenta de inclusão, desenvolvimento e dignidade, que contribui para que estas crianças tenham oportunidades reais de participação ativa na sociedade.

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FightNews: De que forma o Jiu Jitsu pode ser adaptado para ter um papel terapêutico no acompanhamento destas crianças?

O Jiu-Jitsu pode ser adaptado de forma bastante eficaz para assumir um papel terapêutico no acompanhamento de crianças com perturbação do espectro do autismo, desde que exista intencionalidade, estrutura e conhecimento técnico por trás da intervenção.
Em primeiro lugar, é essencial ajustar a metodologia. As aulas deixam de ter um foco competitivo e passam a ser altamente estruturadas, previsíveis e individualizadas, respeitando o ritmo, as limitações e as necessidades específicas de cada criança. A repetição de exercícios, por exemplo, não é apenas uma prática desportiva, mas uma ferramenta para promover segurança, aprendizagem e consolidação de comportamentos.
O contacto físico, que é uma característica central do Jiu-Jitsu, também ganha uma nova dimensão. Quando trabalhado de forma gradual e respeitosa, ajuda na regulação sensorial, na consciência corporal e na tolerância ao toque — aspetos frequentemente desafiantes para estas crianças.
Além disso, as técnicas são adaptadas para desenvolver competências específicas, como:
● controlo de impulsos
● aumento do tempo de atenção
● cumprimento de instruções simples e progressivamente mais complexas
● promoção da comunicação, verbal ou não verbal
Outro ponto fundamental é a integração de princípios da ABA (Análise do Comportamento Aplicada) dentro da prática. Isto significa que cada exercício tem um objetivo terapêutico definido, com reforço positivo, estratégias de motivação e acompanhamento contínuo da evolução da criança.
O ambiente também é cuidadosamente preparado: menos estímulos excessivos, rotinas claras e uma abordagem consistente por parte dos profissionais, criando um espaço seguro e previsível.
Desta forma, o Jiu-Jitsu deixa de ser apenas uma arte marcial e transforma-se numa ferramenta terapêutica poderosa, capaz de contribuir para o desenvolvimento físico, emocional e social das crianças, sempre com foco na sua autonomia e qualidade de vida.

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FightNews: Que benefícios tem observado ao nível motor, emocional, social e comportamental nos miúdos que participam?

Ao longo do desenvolvimento do projeto, tenho observado benefícios muito significativos em várias áreas do desenvolvimento das crianças.
Ao nível motor, é visível uma evolução na coordenação, no equilíbrio e na consciência corporal. Muitas crianças que inicialmente apresentavam dificuldades em movimentos básicos passam a ter maior controlo do próprio corpo, mais agilidade e até mais confiança na execução das atividades.
No campo emocional, noto um aumento claro na autorregulação. As crianças começam a lidar melhor com a frustração, com as mudanças de rotina e com os desafios propostos.

Tornam-se mais tranquilas, mais seguras e com maior capacidade de adaptação a diferentes situações.
A nível social, os progressos são igualmente marcantes. Há uma maior abertura para a interação com os colegas e com os profissionais. Mesmo crianças não verbais passam a comunicar mais — seja através de gestos, expressões ou outras formas de comunicação — e demonstram mais interesse pelo outro, o que é um passo muito importante.
Já no plano comportamental, observa-se uma melhoria no cumprimento de regras, no tempo de atenção e na capacidade de seguir instruções. Com o tempo, muitos comportamentos desajustados vão sendo reduzidos, dando lugar a respostas mais organizadas e funcionais.
De forma geral, o que mais se destaca é a evolução na autonomia e na qualidade de vida destas crianças. E, consequentemente, o impacto positivo que isso tem nas famílias, que começam a sentir mais segurança, confiança e esperança no dia a dia.

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FightNews: Que evolução costuma notar-se nas crianças ao longo do tempo?

Ao longo do tempo, a evolução das crianças é não só visível, como também muito significativa, ainda que aconteça de forma gradual e respeitando o ritmo individual de cada uma.
Numa fase inicial, é comum encontrarmos crianças com alguma resistência à interação, dificuldade em seguir instruções e, em alguns casos, com pouca tolerância ao contacto físico ou a mudanças de ambiente. No entanto, com a continuidade do trabalho, começamos a observar pequenas conquistas que fazem toda a diferença.
Com o passar do tempo, noto um aumento claro na confiança e na adaptação ao contexto das aulas. As crianças tornam-se mais disponíveis para participar, conseguem manter o foco por mais tempo e passam a compreender melhor as rotinas e os objetivos das atividades.
Ao nível da comunicação, há também progressos importantes. Algumas crianças desenvolvem mais linguagem verbal, enquanto outras encontram formas mais eficazes de se expressar, o que reduz frustrações e melhora a interação com os outros.
Outro aspeto muito relevante é a evolução na autorregulação e no comportamento. Situações que antes geravam crises ou desorganização passam a ser geridas com mais controlo e previsibilidade. Há uma melhoria no cumprimento de regras, na espera pela vez e na capacidade de lidar com desafios.
Por fim, uma das evoluções mais marcantes é a autonomia. As crianças tornam-se mais independentes, mais seguras e mais preparadas para enfrentar situações do dia a dia, o que tem um impacto direto não só nelas, mas também nas suas famílias.
É um processo contínuo, feito de pequenas vitórias, mas que, ao longo do tempo, resulta em transformações muito significativas.

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FightNews:Quais são os principais objectivos do projecto para este ano de 2026?

Para o ano de 2026, os principais objetivos do projeto passam por consolidar e expandir o impacto da nossa intervenção, sempre com foco na inclusão real e no desenvolvimento integral das crianças.
Numa fase inicial, muitas das nossas intervenções são feitas de forma individualizada, respeitando as necessidades específicas de cada criança. No entanto, um dos grandes objetivos é, progressivamente, promover a integração de todas no contexto coletivo.
Acreditamos que é nesse ambiente que se potenciam competências sociais, emocionais e comportamentais essenciais para a vida em sociedade.
Trabalhar as diferenças e a aceitação é também uma prioridade central, não só com as crianças dentro do espectro do autismo, mas também com aquelas que estão fora dele. É fundamental criar um espaço onde o respeito, a empatia e a compreensão sejam ensinados e vivenciados no dia a dia.
Pretendemos, assim, construir um ambiente verdadeiramente inclusivo, onde todas as crianças possam aprender umas com as outras, desenvolver-se em conjunto e crescer com valores sólidos de convivência e cidadania.
Mais do que integrar, queremos preparar estas crianças para uma participação ativa e respeitada na sociedade, promovendo igualdade de oportunidades e uma melhor qualidade de vida para todos os envolvidos.

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FightNews:Que desafios existem para continuar a desenvolver este trabalho com qualidade?

Os desafios para continuar a desenvolver este trabalho com qualidade são reais e exigem atenção por parte de toda a comunidade, especialmente das entidades responsáveis.
Um dos principais obstáculos é a falta de condições ao nível do espaço. Para ampliar e diversificar a nossa intervenção, seria fundamental dispor de infraestruturas mais adequadas, que permitissem, por exemplo, integrar terapias complementares como a terapia com animais, bem como estruturas e equipamentos lúdicos que potenciem ainda mais os resultados no desenvolvimento das crianças.
Outro desafio importante prende-se com a necessidade de um maior reconhecimento e entendimento por parte do município. É essencial que haja uma maior sensibilização para a realidade destas crianças e das suas famílias, compreendendo que este tipo de intervenção não é um complemento, mas sim uma necessidade.
A disponibilização de recursos — sejam eles físicos, humanos ou financeiros — é determinante para que possamos alargar o alcance do projeto e garantir um atendimento mais abrangente, chegando a mais crianças que precisam deste apoio.
Apesar dos desafios, continuamos comprometidos com a missão, procurando soluções e parcerias que nos permitam crescer com qualidade e manter o impacto positivo que temos vindo a construir.

FightNews: Porque é importante que os pais procurem conhecer o projecto antes de formar uma opinião?

Este é um projeto muito específico, com uma abordagem diferenciada que alia o desporto a princípios terapêuticos. Para quem não conhece de perto, pode ser difícil compreender o impacto real que tem na vida das crianças e das famílias.
Ao conhecerem o projeto, os pais têm a oportunidade de perceber como as intervenções são estruturadas, quais os objetivos definidos para cada criança e de que forma tudo é adaptado às suas necessidades individuais. Mais do que isso, conseguem observar os resultados, a evolução das crianças e o ambiente de respeito, segurança e inclusão que é promovido.
Além disso, esse contacto direto permite criar confiança. Quando os pais entendem o propósito e a metodologia, sentem-se mais seguros para tomar decisões informadas e para se envolverem ativamente no processo.
No fundo, conhecer antes de julgar é essencial para reconhecer o verdadeiro valor do projeto e o impacto positivo que pode ter no desenvolvimento das crianças e na qualidade de vida das famílias.

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FightNews: Que mensagem gostaria de deixar aos pais que têm interesse em inscrever os filhos, mas que ainda sentem receio ou desconhecem o projecto?

A mensagem que deixo aos pais é, acima de tudo, de compreensão e tranquilidade.
Sei que não é fácil dar este passo. Quando se trata dos nossos filhos, especialmente em contextos de maior sensibilidade, o receio e a dúvida são naturais. Muitas vezes, o desconhecido gera insegurança, e isso é completamente legítimo.
O que posso garantir é que este é um espaço construído com respeito, dedicação e um profundo compromisso com cada criança. Aqui, cada aluno é visto na sua individualidade, com o seu ritmo, as suas necessidades e o seu potencial.
Mais do que exigir, nós acompanhamos. Mais do que pressionar, nós orientamos. E mais do que rotular, nós acreditamos no desenvolvimento possível de cada criança, através de um trabalho consistente e adaptado.
Convido os pais a conhecerem o projeto de perto, a observarem o ambiente, a metodologia e, acima de tudo, a evolução das crianças que fazem parte deste processo. Muitas dúvidas desaparecem quando há contacto direto com a realidade do trabalho.
No fundo, esta é uma caminhada conjunta. Não se trata apenas de inscrever uma criança, mas de construir uma parceria entre equipa técnica e família, sempre com o mesmo objetivo: melhorar a qualidade de vida, a autonomia e o bem-estar dos nossos filhos.

FightNews:Por fim, que convite deixa a todas as famílias que procuram uma actividade com impacto positivo no bem-estar e desenvolvimento dos seus filhos?

Por fim, deixo um convite simples, mas sentido, a todas as famílias que procuram uma atividade com verdadeiro impacto no bem-estar e no desenvolvimento dos seus filhos.
Convido-vos a conhecer o nosso trabalho de perto, pois trabalhamos em famílias para famílias. Venham observar, perguntar e compreender como cada criança é acompanhada de forma individualizada, respeitando o seu ritmo e valorizando as suas conquistas.
Este projeto nasceu da necessidade real de criar oportunidades para crianças que muitas vezes não encontram resposta adequada noutras estruturas. Aqui, o desporto na modalidade JIU-JITSU é mais do que atividade física — é uma ferramenta de inclusão, desenvolvimento emocional, social e comportamental.
Cada sessão é pensada para promover autonomia, confiança e qualidade de vida, sempre num ambiente seguro, estruturado e acolhedor.
Se procuram um espaço onde o vosso filho possa crescer, aprender e ser respeitado na sua individualidade, este projeto está de portas abertas para vos receber.
Mais do que uma atividade, este é um caminho de transformação partilhado entre equipa técnica e famílias, construído com dedicação, consistência e compromisso com o futuro de cada criança.

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