
O treinador Ricardo Infante, responsável pela Infante Boxing Club, tem vindo a desenvolver um projeto sólido e diferenciado no panorama do Boxe em Portugal, com especial enfoque na formação de crianças e jovens.
Mais do que um espaço de treino, a Infante Boxing assume-se como um ambiente educativo, onde o desenvolvimento pessoal caminha lado a lado com a evolução desportiva. Entre valores, disciplina e crescimento emocional, o projeto tem conquistado cada vez mais reconhecimento junto de atletas e famílias.
Em entrevista, Ricardo Infante explica a visão do clube, o impacto do Boxe nas crianças e os objetivos para o futuro.

FightNews: Como nasceu o projeto da Infante Boxing Club e qual é a visão que orienta o vosso trabalho com crianças dos 5 aos 13 anos?
A Infante Boxing nasceu da vontade de criar mais do que um simples espaço de treino. Sentimos que existia uma necessidade de oferecer um ambiente seguro, estruturado e positivo, onde crianças, jovens e adultos pudessem crescer não só como atletas, mas sobretudo como pessoas.
Embora tenhamos aulas a partir dos 5 anos de idade, trabalhamos com diferentes faixas etárias, organizadas por grupos, o que nos permite adaptar o treino às necessidades e características de cada fase.
A nossa visão passa por usar o Boxe como uma ferramenta educativa. Procuramos desenvolver não só competências físicas, mas também valores essenciais como o respeito, a disciplina e a autoconfiança. Queremos que cada atleta se sinta capaz, valorizado e apoiado no seu percurso.
Imagem cedida Ricardo Infante
FightNews: De que forma o Boxe pode contribuir para o desenvolvimento técnico, emocional e comportamental das crianças?
O Boxe é uma modalidade extremamente completa. A nível técnico, ajuda a desenvolver coordenação motora, equilíbrio, agilidade e consciência corporal.
Mas o impacto vai muito além disso. Em termos emocionais, ensina as crianças a lidar com frustrações, a gerir emoções e a ganhar confiança nelas próprias. A nível comportamental, promove regras, disciplina e respeito pelos outros.
É um desporto que canaliza a energia de forma positiva e ajuda as crianças a sentirem-se mais focadas e seguras no dia a dia.
Imagem cedida Ricardo Infante
FightNews: Que valores considera mais importantes transmitir através da prática do Boxe em idades tão jovens?
Os principais valores que procuramos transmitir são o respeito, a disciplina, a resiliência e o espírito de entreajuda.
Mais do que formar atletas, queremos formar boas pessoas. Ensinamos que ganhar e perder faz parte do processo, que o importante é evoluir e dar sempre o melhor. Também damos muita importância ao respeito pelos colegas, treinadores e família.
Outro ponto fundamental é a confiança — ajudar cada criança a perceber que é capaz, independentemente das suas dificuldades.
Imagem cedida Ricardo Infante
FightNews: Como trabalham a componente emocional e comportamental dentro dos treinos, para além da vertente desportiva?
A componente emocional e comportamental está presente em todos os treinos. Não é algo separado — faz parte da nossa forma de ensinar.
Estamos muito atentos a cada criança de forma individual, percebendo as suas dificuldades, inseguranças e também o seu potencial. Adaptamos a nossa abordagem para ajudar cada uma a evoluir ao seu ritmo.
Promovemos constantemente o diálogo, o reforço positivo e a responsabilidade. Criamos desafios ajustados a cada criança, incentivando-as a ultrapassar limites de forma saudável.
Além disso, valorizamos muito a ligação com os pais. O acompanhamento, apoio e confiança das famílias são fundamentais para o desenvolvimento das crianças e para o sucesso do nosso trabalho.
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FightNews: Ainda existe algum preconceito associado ao Boxe, sobretudo quando falamos de crianças. Como lidam com essa perceção?
Sim, ainda existe algum preconceito, principalmente pela ideia de que o Boxe está associado à violência. No entanto, essa perceção está muito distante daquilo que realmente fazemos.
O nosso trabalho é focado no boxe educativo, onde a prioridade não é o combate, mas sim o desenvolvimento da criança. Trabalhamos técnica, coordenação, disciplina e controlo emocional, sempre num ambiente seguro e supervisionado.
Com o tempo, e através do contacto direto — especialmente quando os pais assistem aos treinos — esse preconceito vai desaparecendo, dando lugar à confiança e ao reconhecimento do valor da modalidade.
Imagem cedida Ricardo Infante
FightNews: Como avalia o momento atual do Boxe em Portugal, tanto ao nível da formação como da competição?
O Boxe em Portugal tem vindo a crescer de forma positiva, tanto na vertente competitiva como na formação.
Existe cada vez mais interesse pela modalidade e começam a surgir projetos com uma abordagem mais estruturada, especialmente no trabalho com jovens. Ainda assim, sentimos que há margem para evoluir, principalmente na criação de mais iniciativas direcionadas às camadas mais novas.
Acreditamos que o futuro do Boxe passa muito por investir na formação, com qualidade, acompanhamento e uma visão educativa.
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FightNews: Que tipo de evolução gostaria de ver na modalidade nos próximos anos, especialmente no trabalho com jovens?
Gostaríamos de ver uma maior aposta no boxe educativo e na formação de base, com mais projetos direcionados às crianças e jovens.
Seria importante também criar mais eventos e momentos de participação adaptados a estas idades — não necessariamente competitivos no sentido tradicional, mas que permitam às crianças mostrar o que aprenderam, ganhar experiência e envolver as famílias.
Outro ponto essencial é a formação de treinadores preparados não só tecnicamente, mas também a nível pedagógico e emocional.
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FightNews: Quais são os principais objetivos da Infante Boxing Club para 2026?
Para 2026, os nossos principais objetivos passam por continuar a consolidar o nosso trabalho com crianças e jovens, mantendo a qualidade e a atenção individual que nos caracteriza.
Queremos também criar mais momentos de partilha com os pais, reforçando esta ligação que consideramos fundamental. Além disso, pretendemos desenvolver iniciativas e eventos internos que permitam às crianças aplicar o que aprendem e ganhar confiança.
Acima de tudo, o nosso foco é continuar a crescer de forma sustentável, sem nunca perder a essência: um ambiente seguro, positivo e focado no desenvolvimento de cada atleta.
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FightNews: Por fim, que mensagem gostaria de deixar aos pais e às crianças que têm interesse na modalidade, mas que ainda se sentem inseguros ou receosos em dar o primeiro passo?
Aos pais, diria que é perfeitamente natural existirem dúvidas no início. No entanto, essas inseguranças acabam por desaparecer por completo quando começam a ver o crescimento e a evolução dos seus filhos — não só a nível físico, mas também emocional e comportamental.
É muito gratificante ver como as crianças ganham confiança, disciplina e, acima de tudo, entusiasmo pelos treinos. Esse entusiasmo acaba por ser a maior prova de que estão no caminho certo.
Às crianças, diria que não precisam de ter medo de começar. Ninguém nasce a saber — o importante é dar o primeiro passo, experimentar e acreditar em si próprios, seja no Boxe ou em qualquer outro desporto.
O Boxe pode ser muito mais do que um desporto. Pode ser um espaço de crescimento, de superação e de descoberta pessoal.
Imagem cedida Ricardo Infante