
O crescimento do Boxe em Portugal tem sido evidente nos últimos anos, com cada vez mais praticantes e clubes a investirem no desenvolvimento da modalidade. Em Braga, a Dynamic Gym tem vindo a afirmar-se como um espaço onde a formação, o rigor técnico e a preparação competitiva caminham lado a lado.
Nesta entrevista, os treinadores Manuela e Andrey, responsáveis pelo projeto de Boxe do clube, explicam como nasceu esta iniciativa, a forma como organizam os treinos entre iniciados e atletas de competição, e a importância de construir bases sólidas na modalidade. A conversa aborda ainda o chamado “soviet style”, um método técnico utilizado no treino competitivo, e a visão da equipa para o futuro do Boxe em Portugal.

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FightNews: Como nasceu este projeto do Boxe dentro da Dynamic Gym?
Uma porta que se abriu em 2021, inspirada pela quantidade crescente de atletas interessados na modalidade, não só existentes no clube mas também na região. No Dynamic já existia uma comunidade forte nas artes marciais, e acreditamos que o Boxe contribuiu de maneira muito orgânica e positiva para o desenvolvimento da própria comunidade.
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FightNews: Atualmente a equipa está dividida entre iniciados e atletas de competição/avançados. Como funciona essa organização no dia a dia dos treinos?
O trabalho é igual para todos. Afinal, todos merecem conhecer e desafiar os próprios limites, dentro da proposta e dos objetivos de cada praticante.
Queremos demonstrar que o Boxe é para todos. O maior diferencial de trabalho entre diferentes atletas é o nível de contacto e as preparações específicas, principalmente para aqueles em contexto competitivo, uma vez que a exigência técnica da modalidade já é alta e, ao elevar ao âmbito competitivo, queremos garantir sempre uma fundação blindada.
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FightNews. Andrey, trabalhas com atletas de competição e utilizas o chamado “soviet style”. Em que consiste exatamente este estilo de Boxe?
Derivado da metodologia soviética, a variante desta escola é muito marcada por uma movimentação constante e precisa. Utilizando principalmente a resposta elástica e cortes de ângulos para punir o adversário. Golpes com rotação e extensão completa, para que exista a transferência de massa por toda a cadeia cinética.
Sendo que o contexto de relaxamento é o ideal para desenvolver essa aptidão. Assim como um trabalho de alternância de apoios e coordenação geral.
FightNews: Quais são as principais características técnicas do estilo de leste ou escola soviética dentro do ringue?
Logo nota-se um atleta derivado de escola soviética através da sua elasticidade e footwork, trabalho de guarda longa mas protegida em caça-brechas, impondo um ritmo explosivo, mesclado com movimentos defensivos e contra-golpes através de ângulos precisos.
Um estilo de jogo que, apesar de começar em linha, explora com frequência deslocamentos laterais e trocas de guarda para compor ataques e contra-ataques ainda mais precisos. Não se desperdiça energia. Apenas a utiliza de maneira inteligente conforme o necessário.
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FightNews: Manuela, és responsável pelos atletas iniciados. Qual é a importância de construir bases sólidas no início da prática do Boxe?
Os primeiros passos definem toda a estrutura de como o atleta progride. Através de um "ABC" bem elaborado e posicionando em cada estágio de aprendizagem, é possível extrair o melhor de cada um.
Posteriormente, quando forem expostos a maiores desafios, o corpo aprende a depender da memória neuromotora do que foi construído em todo o trajeto. E esta é a importância da paciência na aprendizagem, pois o Boxe é uma modalidade altamente exigente. Um mau hábito sem correção torna-se um padrão negativo que, no futuro, definitivamente será explorado pelo adversário.
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FightNews: Que valores procuras transmitir aos alunos que estão a dar os primeiros passos na modalidade?
Se pudesse resumir o que une todos os nossos valores, seria o que se chama de "garra". A entrega.
Desde o primeiro dia, seja um atleta de manutenção, rendimento ou competição, sempre enfatizamos a ENTREGA. A vontade de ver acontecer, de aparecer quando é difícil, de insistir mesmo quando se sente o contrário e, principalmente, de ouvir.
É um desporto individual, não solitário. Não é necessário ser um pugilista para aproveitar o melhor do Boxe. Cada atleta sabe o que o levou até ali e onde quer chegar, mas o trabalho duro e a dedicação não são negociáveis.
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FightNews: Quais são os erros mais comuns de quem começa a treinar Boxe e como trabalhas para os corrigir?
Definitivamente o mais comum é pensar que o Boxe se resume a “porrada”. Fator que cria outro problema: a coordenação.
A verdade é que o Boxe, principalmente para os iniciados, acaba por ser um trabalho de condicionamento do instinto natural de sobrevivência, toda aquela excitação natural de estar “sob ameaça”.
O pugilismo apareceu juntamente com o desenvolvimento da civilização e ainda é percebido muitas vezes desta mesma forma: a personificação da violência entre partes. Como treinadores, o nosso trabalho é refinar este eixo para que o atleta apresente frieza, controlo e, principalmente, estratégia.
Ou seja, mostrar durante este estágio de desenvolvimento que o Boxe, no seu mais alto nível, trata-se de uma disputa de intelectos. Um lado estuda o outro, cria e quebra padrões, pune o padrão negativo do outro, etc.
Para resolver esta questão, é necessário perceber que a coordenação motora e o sistema nervoso conversam diretamente na fisiologia humana. A abordagem que utilizamos para “corrigir” esta perceção é desenvolver o indivíduo como atleta, praticante.
Separar a natureza do treino em duas etapas:
1ª etapa: COMO?
Como faço isso? Ou seja, as ferramentas são apresentadas. Como faço um golpe, como faço um movimento defensivo, como faço deslocações, etc.2ª etapa: POR QUÊ?
Aqui o atleta já tem conhecimento das ferramentas, as cartas já foram entregues e desenvolvidas de maneira satisfatória.Agora o caráter estratégico começa a tomar forma.
Por que faço isso? Para que serve? O que isso me leva a fazer depois?Do outro lado destas questões, somado com exigência técnica e condicionamento mental e físico, o atleta absorve a dinâmica do desporto.
Ou seja, percebem que a “mocada” tem escola, tem metodologia, tem estratégia. Trabalham duro, mas trabalham inteligente.
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FightNews: Existe já uma aposta clara na participação em competições regionais ou nacionais?
Sim, contamos com um grupo jovem em contexto de preparação para iniciarem a trajetória no desporto. A previsão é que para esta época desportiva já possamos colher os frutos destes esforços. E, claro, aproveitar todo este processo.
FightNews: Como analisam o crescimento atual do Boxe em Portugal?
Cada vez maior e positivo. O perfil tem mudado muito e cada vez mais jovens têm interesse, seja para praticar e desenvolver capacidade ou para competição.
Tem sido cada vez maior a procura, com idades cada vez mais precoces. Não só os atletas, como também as famílias — tão importantes neste processo quanto o clube — têm-se tornado cada vez mais recetivas a terem os filhos a praticar desportos de contacto.
Com certeza isso não faz parte apenas da magia do Boxe, mas também da seriedade e do compromisso dos treinadores em demonstrarem que, apesar de duro, há muita disciplina e cuidado.
Assim como temos turmas cada vez mais diversificadas em idades e objetivos, provando que o único limite é aquele que cada um aceita para si.
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FightNews: Quais são os principais objetivos da Dynamic Gym para os próximos anos dentro do Boxe, seja na iniciação ou na competição?
Desenvolver a presença competitiva e elaborar ainda mais o trabalho com a juventude. Demonstrar que o Boxe é para todos e muda vidas.
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FightNews: Por fim, que mensagem gostariam de deixar a quem pensa começar a treinar Boxe em Braga e quer fazer uma aula experimental na Dynamic Gym?
Esperamos por todos. Se tens vontade de aprender e dedicação, tens o lugar certo à tua espera.
Não é preciso ser um lutador para usufruir dos benefícios do Boxe. Basta ter disciplina e vontade.
As melhores habilidades, aquelas que levam atletas para outro patamar, não exigem talento algum: compromisso, dedicação, humildade e coragem.
No treino, o primeiro oponente que queremos que venças és tu mesmo.