
Referência dos desportos de combate, Renato “Babalu” Sobral construiu uma carreira marcada pela entrega total ao combate numa época em que a paixão falava mais alto do que as estruturas ou garantias. Ex-atleta de MMA, hoje é treinador, professor e líder da Babalu’s Iron Gym, dedicando-se sobretudo à formação de crianças através do Jiu Jitsu. Nesta entrevista, Babalu revisita o início da sua ligação às artes marciais, analisa a evolução do desporto e deixa mensagens claras para as novas gerações de atletas.

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FightNews: Como foi o teu primeiro contacto com os desportos de combate? O que te levou a entrar nesse universo e o que te fez continuar?
O meu primeiro contacto com a luta foi ainda criança, quando assisti a um filme do Bruce Lee chamado Enter the Dragon. Achei aquilo simplesmente incrível.
A minha mãe, quando eu tinha entre 6 e 7 anos, decidiu colocar-me no judo porque eu era gordinho. Capoeira, segundo ela, exigia muita agilidade para mim naquela época. Comecei no judo e, aos 10 anos, fui para a academia Naja, no Largo do Machado, onde conheci o Boxe Tailandês. Ali apaixonei-me de verdade e nunca mais parei. As outras modalidades vieram como consequência natural desse caminho.
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FightNews: Estavas na universidade no início da tua trajectória. Chegaste a imaginar que a luta poderia tornar-se uma carreira profissional ou foi algo que se construiu aos poucos?
Eu estava na universidade quando fiz a minha primeira luta profissional, em 1998. Nunca pensei em ser lutador profissional, até porque esse parâmetro praticamente não existia na época. Mas naquela noite ganhei mais dinheiro do que tinha ganho em dois anos de estágio. A partir daí, a escolha ficou fácil.
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FightNews:Quais foram os mestres e figuras-chave que te guiaram e inspiraram nesse percurso? Quem teve influência real na tua formação como atleta e como pessoa?
Os mestres que mais influenciaram a minha vida foram, primeiro, o professor Pedro Paulo e o Peu, do Boxe Thai. Depois vieram Roberto Leitão, Marco Ruas, Alejo Morales e Roberto Correa, o Gordo. Todos eles deixaram marcas profundas não só na minha formação como atleta, mas também como pessoa.
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FightNews:A tua geração lutou mais por amor ao combate do que por estrutura. Como analisas hoje essa realidade em termos de gestão de carreira e preparação para o pós-luta?
Sim, acredito que os lutadores de hoje sabem preparar-se e gerir melhor as suas carreiras. Isso é uma evolução natural do desporto e, sem dúvida, um aspecto muito positivo.
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FightNews:Quando olhas para o Rio de Janeiro dos anos 90 e comparas com o MMA e o Jiu Jitsu de hoje, que sentimento prevalece?
Acho que os anos 90 foram fundamentais e necessários para o crescimento do desporto. Mas hoje os atletas estão muito mais focados no desenvolvimento pessoal e profissional. Com isso, já não há espaço para o clubismo como existia antes.
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FightNews: Falaste publicamente sobre sequelas físicas e neurológicas resultantes da carreira. O que pode ser feito hoje para minimizar esses danos?
As minhas sequelas hoje estão controladas e não carrego qualquer sentimento de arrependimento. No entanto, actualmente, os profissionais precisam de usar mais equipamentos de protecção, algo que para nós era um luxo inexistente. Também é fundamental respeitar melhor os intervalos de sparring, especialmente após um nocaute.
FightNews: Hoje actuas como treinador e formador. Que erros tentas evitar nos atletas que orientas?
Hoje já não sou treinador de atletas profissionais. Sou professor de Jiu Jitsu, focado principalmente em crianças. Vejo o desporto de combate como uma ferramenta poderosa de transformação de carácter.
Ao nível profissional, acredito que o atleta precisa de começar a carreira já sabendo que ela é curta. Vejo a carreira desportiva como um navio onde embarcas: ele leva-te a algum lugar, mas não é permanente. O ideal é usar esse período para construir algo sólido para o futuro.
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FightNews: Com a aposentadoria do MMA, o Jiu Jitsu volta a ocupar um espaço central na tua vida. O que representa hoje para ti?
O Jiu Jitsu tornou-se a minha profissão e é o que sustenta a minha família. Mas gosto de me definir não como um jogador, mas como um levantador, como no voleibol. Eu preparo a criançada para aquilo que ela decidir ser. O Jiu Jitsu tem essa capacidade incrível de transformar um cagão num leão.
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FightNews: Depois de tudo o que viveste, como defines hoje uma carreira bem-sucedida na luta?
Acho que essa pergunta já foi respondida nas anteriores. Hoje defino-me como professor, levantador, preparador. Aquele lutador já não existe mais em mim. O que existe é alguém que usa as experiências vividas para passar algo adiante.
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FightNews: O MMA europeu tem crescido, mas ainda luta por reconhecimento global. O que falta à Europa para se afirmar como um polo forte?
Na Europa, o desporto não tem o mesmo peso económico que tem aqui, com excepção do futebol. O futebol é praticamente o único desporto 100% profissional e totalmente voltado para gerar dinheiro. O europeu encara o desporto muito mais como uma ferramenta de bem social. Aqui é dinheiro. Não acredito que isso vá mudar, porque é algo cultural.
FightNews: Para terminar, que mensagem deixas aos atletas portugueses e brasileiros que vivem hoje na Europa?
A minha mensagem é simples: continuem. Persistam, aprendam, cuidem do corpo e da mente. O caminho é longo, mas ensina.
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