
Entre os dias 3 e 6 de abril, Faro, no Algarve, recebe o CLA Camp Portugal 2026, uma iniciativa inédita no país que propõe uma abordagem diferente ao ensino e à aprendizagem do Jiu Jitsu. Baseado no Constraints-Led Approach (CLA) e nas teorias da Dinâmica Ecológica, o camp reúne treinadores e praticantes interessados em aprofundar uma visão menos tradicional e mais contextual da modalidade.
Um dos instrutores do camp, o faixa-preta Carlos Carvalho, Head Coach da Escola Five Elements Jiu-Jitsu Faro, partilha nesta entrevista a sua visão crítica sobre o estado atual do Jiu Jitsu, as expectativas para o CLA Camp e o impacto que esta abordagem pode ter na comunidade, tanto a nível técnico como pedagógico.
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Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: O CLA Camp marca uma estreia inédita em Portugal. Quais são, para si, os principais objetivos deste camp e o impacto que espera que tenha na comunidade do Jiu Jitsu nacional?
Sou uma pessoa céptica. Conheço bem padrões, raízes e influências de outros que me rodeiam no Jiu Jitsu, e não espero grandes mudanças. Quem já conhece o meu trabalho aqui e os que se têm envolvido comigo ou me procuram são poucos; os que têm pegado em literatura são ainda menos. Os que ignoram e rotulam disparates são bastantes. Precisamos de tempo.
Eu não tencionava fazer um camp. A Jenny contactou-me com a ideia. Depois de ser convidado a fazer parte dos treinadores, expliquei a abordagem que utilizo e fiz a sugestão de apostarem no Greg. Agora temos um Camp CLA e vamos trazer cá quem já me ajudou, o que me deixa feliz. Acredito que seja muito positivo seguir esta linha de desenvolvimento e que este seja um pequeno passo para chegarmos mais longe, aos poucos.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: Que expectativas tem para esta edição no Algarve e que tipo de experiência acredita que os participantes vão levar consigo no final do camp?
O camp envolve uma experiência maior do que apenas aprender a treinar melhor; envolve também conviver um pouco. Penso que os participantes já devam ter alguma ideia do que procuram ou queiram mais experiência sobre o assunto, tirar dúvidas com os treinadores e passar bons momentos nas redondezas.
Visto que, até agora, a maior parte da divulgação do CLA na comunidade, especialmente nos EUA, tem sido mais direcionada para a vertente No-Gi, penso que neste camp terão a oportunidade de treinar também de kimono e de conhecer mais locais e treinadores na Europa com a mesma abordagem.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: O Constraints-Led Approach e a Ecological Grappling representam uma rutura com os modelos tradicionais de ensino. Em que aspetos considera esta abordagem verdadeiramente inovadora?
Gostaria de deixar um pequeno reparo: não existe Ecological Grappling. Isso é uma espécie de alcunha ou termo engraçado que inventaram com a expansão do assunto na comunidade. O que existe é a Dinâmica Ecológica (Ecological Dynamics), como fusão da Psicologia Ecológica de Gibson com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos.
O CLA, a Abordagem Baseada em Constrangimentos, é o método de ensino que responde a essa teoria e aos princípios da pedagogia não-linear. Se aprendemos a mover-nos fundamentalmente em interação com o ambiente, usando perceção direta das suas possibilidades de ação (affordances), então tudo é ecológico desde bebés. É preciso ler para perceber melhor o assunto, porque as teorias são complexas.
Respondendo à pergunta, na verdade nada disto é verdadeiramente inovador no desporto. Estamos a falar de propriedades com mais de 40 anos. No Jiu Jitsu é que isto é recente e, por isso, torna-se inovador, ficando atrás de modalidades como o futebol, basquetebol, andebol, râguebi, hóquei, vela ou ténis, que já passaram por este processo.
Isto acontece porque os desportos de combate, especialmente as artes marciais, estão condicionados ao tradicionalismo, à visão das linhagens do passado, ao misticismo histórico e também à influência de uma visão dualista e limitada do mundo, onde a mente é vista como um computador que processa informação separada do mundo exterior.
O desporto de elite tem um alto investimento na melhoria da performance e dos resultados, sendo normal que se tenha reestruturado e ganho um melhor entendimento mais cedo. Esta rutura atinge também a linha comercial em que o Jiu Jitsu se encontra nas massas, onde o papel do treinador, do praticante ou do atleta necessita urgentemente de melhor definição.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: Na sua opinião, o que diferencia esta metodologia da forma clássica de ensinar Jiu Jitsu baseada na repetição técnica e em sequências pré-definidas?
Deixamos de andar atrás da cenoura e de atirar frequentemente técnicas contra a parede num treino, desejando boa sorte a todos. Temos um mercado e uma propaganda sobrecarregada de material que nos leva a crer que basta fazer copy paste e memorizar técnicas, todas decompostas e fora do contexto, ignorando as diferenças intrínsecas de cada indivíduo em ação.
Perdemos tempo de treino, perdemo-nos na instrução, perdemo-nos na execução e ficamos com uma falsa sensação de segurança e de conhecimento, quando, numa luta com um oponente resistente, tudo é diferente. Se não fosse o sparring, o Jiu Jitsu teria morrido como qualquer outra arte tradicional baseada apenas no kata. Foi isso que permitiu o desenvolvimento real.
No entanto, apenas isso torna-se demasiado arbitrário e serve melhor quem já entende a progressão de uma luta ou quem apenas necessita de volume. Com esta metodologia estamos a desenvolver habilidades. Como diz o professor Duarte Araújo, do laboratório de perícia do desporto (Spertlab) da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa: “Habilidade não é algo que possas agarrar, levar para casa e meter dentro do frigorífico.” Existe um constante processo, uma constante adaptação, uma constante calibração, etc.
Manipular constrangimentos nas tarefas, perceber a origem dos movimentos, fazer emergerem habilidades e prestar atenção para criar contextos com representatividade, saber fazer progressão destes processos, saber onde intervir, observar cuidadosamente e entender o que pode estar a afetar a performance, etc, é muito mais difícil. Os treinadores também tem que ser adaptáveis, prestar atenção, agir com intencionalidade num mar de incertezas. Aceitar o erro como informação útil e melhorar. E são essas incertezas que não vendem no formato tradicional, onde a técnica torna-se um mito da perfeição e algo garantido para quem as compra.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: A CLA defende uma aprendizagem não-linear e baseada na resolução de problemas. Que vantagens práticas isso traz para atletas de diferentes níveis?
É o praticante ou o atleta que decide, não o treinador. É ele que toma decisões na sua vida se quiser dedicar-se e aprender Jiu Jitsu, tal como é ele que toma decisões no campo da performance, seja qual for o cenário ou o nível.
Quem ensinou o Ronaldinho Gaúcho a fintar? E o Michael Jordan? Buvaisar Saitiev? Rafa Mendes? Temos de parar de romantizar a ideia de que o treinador tem de saber tudo e intervir em tudo, transformando o aluno num robô que executa sem entender. Isso não é real e, pior, desrespeita a natureza daquilo que fazemos.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: Desde que adotou esta nova perspetiva pedagógica, que diferenças mais claras tem observado no desenvolvimento dos seus alunos?
O nível médio dos alunos sobe e a mentalidade é outra. Aqueles que treinam duas ou três vezes por semana tornam-se minimamente bons para o volume que conseguem ter. Os visitantes sentem a diferença. O treino é mais entusiasmante, mais divertido e mais desafiante.
Para uma equipa pequena aqui de Faro, temos tido resultados nacionais positivos, sem folclores. Mas, acima de tudo, temos um ambiente, uma abordagem e um processo educativo diferentes. Melhores, acredito. Isso não nos garante campeões, porque é o atleta que decide, não o treinador. Temos de ser humildes.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: Considera que esta abordagem exige também um “desaprender” por parte dos treinadores? Como foi esse processo para si enquanto coach?
Sim, e é por isso que digo que isto vai levar tempo. Muitos não vão querer saber, nunca. Retira-lhes a imagem que têm de si próprios e isso leva-os a protegerem-se, assim como ao produto que vendem. Outros usarão falácias lógicas ou respostas típicas do efeito Dunning-Kruger. Isto já acontece na comunidade americana, portanto é expectável.
Outros farão o que eu fiz. Para mim foi difícil. Tive de investir, ouvir, ler, refletir, criar novos contactos, viajar e arriscar mudanças depois de já ter uma academia estável e em crescimento. Quando comecei a pôr em prática, tive dores de cabeça e noites mal dormidas. Mas tive o apoio dos meus alunos, da minha mulher e do meu professor, que também mudou as coisas em Portimão ao mesmo tempo que eu aqui em Faro.
Hoje estou feliz e, com muito trabalho, dei um salto no meu entendimento. Já não consigo ver as coisas como antigamente, mas compreendo e valorizo o caminho que me trouxe até aqui.
Imagem cedida Carlos Carvalho
FightNews: Porque considera que este camp pode ser uma experiência transformadora, não só ao nível técnico, mas também na forma de pensar e viver o Jiu Jitsu?
Porque estamos a falar de uma perspetiva diferente sobre a realidade de como aprendemos a mover-nos, que se sobrepõe ao que é o grappling ou ao que se entende por Jiu Jitsu. A capacidade de simplificar a prática, depois de toda a complexidade e terminologia com que fomos bombardeados, pode ser libertadora.
Quem quiser aprofundar e estudar mais poderá fazê-lo, mas o camp propõe conhecimentos e uma abordagem que promovem autonomia, não dependência.
FightNews: Por fim, que mensagem deixaria a todos os atletas, treinadores ou curiosos que ponderam participar no CLA Camp em abril, em Faro?
Se se preocupam realmente com o vosso desenvolvimento e com o dos vossos alunos, se não se importam muito com faixas e se amam este desporto, ganhem coragem e coloquem, por um momento, as vossas crenças de parte. Venham de mente aberta e serão bem recebidos. Se eu fiz isso com uma academia e muitas responsabilidades nas mãos, vocês também conseguem.
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