
Laurien Zurhake é uma das instrutoras do CLA Camp, que decorrerá entre 3 e 6 de abril no Algarve, reunindo atletas e treinadores de diferentes países e níveis de experiência. Com um percurso que cruza história, estudos de trauma, ciência da aprendizagem e Jiu Jitsu, Laurien é uma das vozes na aplicação do Constraints-Led Approach (CLA) e do Trauma Informed Coaching às artes marciais.
Nesta entrevista, explica como estas abordagens estão a transformar a forma como se treina, aprende e evolui dentro do tatami.
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FightNews: Move-se entre áreas que raramente se cruzam: história, estudos do trauma, Jiu Jitsu brasileiro e ciência da aprendizagem. Que momento pessoal ou profissional a fez perceber que os métodos tradicionais de treino não eram suficientes?
O primeiro momento pessoal surgiu logo no início, enquanto faixa branca. Repetia uma técnica vezes sem conta, mas não conseguia executá-la sob pressão. Sentia que algo importante estava em falta. O verdadeiro momento de viragem aconteceu quando começámos a ensinar aulas de defesa pessoal informadas pelo trauma, de forma quase inconsciente, já num formato semelhante ao CLA. Graças aos nossos estudos académicos, sabíamos que, para manter o sistema nervoso de pessoas com trauma em modo de descanso e digestão, era necessário manter a intensidade emocional baixa e o ambiente lúdico. Reparámos que estas pessoas evoluíam muito mais rapidamente do que os nossos alunos regulares de Jiu Jitsu, que continuavam apenas a repetir técnicas.
Na defesa pessoal, não é possível prever o que vai acontecer, pelo que repetir técnicas não parece útil. Em vez disso, apresentávamos problemas para resolver, tarefas específicas e objectivos, criando ambientes diversos que representavam a realidade o mais fielmente possível. Assim, adquiriram competências muito mais eficazes para se manterem em segurança. Quando alguns destes alunos passaram para as aulas regulares, percebemos que encontravam soluções muito mais eficientes para os problemas que surgiam. A partir daí, aprofundámos o estudo da dinâmica ecológica e da psicologia, o que acelerou a nossa compreensão e levou à reestruturação total das nossas aulas.
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FightNews: O seu trabalho está fortemente enraizado no Trauma Informed Practice e no Constraints-Led Approach (CLA). Qual é o maior equívoco de quem ouve falar destes conceitos pela primeira vez?
No Trauma Informed Coaching, o maior equívoco é pensar que significa treino suave, sem desafios, e que por isso não é útil para academias competitivas de artes marciais. Na verdade, é precisamente o contrário: significa criar um ambiente onde todos podem treinar duro em segurança. Ao ir ao encontro do aluno onde ele está, acelera-se o seu crescimento, algo extremamente benéfico também para ginásios competitivos.
No caso do CLA, muitos pensam que é o mesmo que sparring posicional. Embora o sparring posicional seja importante, não é a mesma coisa. Se não houver restrições claras, os atletas tendem a regressar aos seus padrões habituais, aquilo que a literatura chama de “attractor valley”. Com jogos baseados em restrições, incentivamos a exploração de novas soluções de movimento, fortalecendo áreas mais fracas e desenvolvendo novas competências.
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FightNews: Refere frequentemente que a aprendizagem ideal acontece quando o sistema nervoso permanece num estado parassimpático, mesmo em alta intensidade. Como é que isso altera o desenho do treino nas artes marciais?
Esta ideia muda completamente a forma como encaramos o “ganhar” e como reduzimos a pressão no treino. Quando o risco emocional é baixo, o sistema nervoso mantém-se mais facilmente num estado parassimpático, promovendo cura, criatividade, jogo e aprendizagem. Para aprender a resolver problemas, precisamos dessa criatividade e da segurança de que errar faz parte do processo.
Quando o treino é exploratório e lúdico, os alunos tornam-se menos rígidos, mais abertos a experimentar e menos receosos de falhar. Passam a ver o erro como feedback. Isto não significa que o treino não seja intenso ou exigente — é intenso, mas com riscos controlados.
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FightNews: Quando é que a Psicologia Ecológica e a Dinâmica Ecológica deixaram de ser conceitos abstractos e passaram a ser ferramentas práticas no seu trabalho?
No momento em que adoptámos o lema “vamos descobrir” e aprendemos a aplicá-lo por tentativa e erro. Criávamos um jogo, observávamos se os alunos apresentavam os comportamentos desejados e, caso não acontecesse, ajustávamos o jogo ou a forma como dávamos instruções. Quando funcionava, era incrível observar o processo a acontecer.
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FightNew: Através do Off The Zone e do podcast The Rise to Thrive, trabalha com instrutores de várias disciplinas. Que padrões identifica em ambientes de treino pouco saudáveis e porque são tão normalizados na cultura das artes marciais?
Dois padrões surgem repetidamente: mentalidade fixa e idolatria de figuras de autoridade. A mentalidade fixa foca-se mais em ganhar, na escassez e na validação externa do que na aprendizagem e na experimentação. Isto alimenta a idolatria e dinâmicas de poder problemáticas, pois alunos que colocam treinadores em pedestais e têm medo de falhar tornam-se mais fáceis de manipular.
Quando treinadores e atletas encaram o progresso como consistência — treinar, dormir, comer e recuperar — em vez de se esgotarem, o ambiente melhora drasticamente. Além disso, quando os treinadores se focam naquilo que sabem fazer — artes marciais e ensino — o equilíbrio também melhora.
Imagem cedida Jenny Beste
FightNews: O CLA Camp reúne atletas e treinadores de diferentes países, estilos e níveis. O que torna este camp diferente de um camp tradicional de artes marciais?
Neste CLA Camp, os participantes evoluem em tempo real, sem necessidade de memorizar um grande número de técnicas. Começam a olhar para o grappling de outra forma. Em vez de forçar técnicas, aprendem através de jogos baseados em tarefas onde observam o que procurar e onde procurar, criando oportunidades de acção enquanto treinam com resistência real. Para quem já está habituado ao CLA, treinar com pessoas novas acrescenta variabilidade e acelera ainda mais a evolução.
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FightNews: Portugal vai receber um CLA Camp em 2026. O que mais a entusiasma explorar com os participantes?
O que mais me entusiasma é a honra de ensinar num novo espaço de treino. Cada sala tem necessidades diferentes, e é minha responsabilidade perceber essas necessidades e desenhar uma prática que beneficie todos. Adoro ver alunos novos no CLA perceberem que conseguem resolver problemas em tempo real e criar as suas próprias soluções. Começam a desenvolver movimentos adaptados ao seu corpo, capacidades e limitações. Vê-se a autonomia e a confiança a crescer — e isso é algo muito especial.
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FightNews: Se alguém sair do CLA Camp tendo “desaprendido” algo, o que gostaria que fosse?
Espero que desaprendam a crença de que treinar de forma descontextualizada, sem resistência, se transfere automaticamente para situações reais, como sparring ou competição. Quanto mais próximo da realidade for o treino, maior será a transferência e mais rapidamente se desenvolvem competências eficazes no grappling.
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