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Carlos Carvalho: A Filosofia da Five Elements e a Evolução do Jiu-Jitsu no Algarve

O líder da Five Elements Jiu-Jitsu Faro fala sobre método, cultura, pedagogia e os desafios de formar uma nova geração no Jiu-Jitsu.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
04/12/2025 às 10h06 Atualizada em 09/12/2025 às 19h39
Carlos Carvalho: A Filosofia da Five Elements e a Evolução do Jiu-Jitsu no Algarve
Imagens cedidas Carlos Carvalho

Carlos Carvalho, head coach da Five Elements Jiu-Jitsu Faro, tem vindo a destacar-se no cenário nacional pela sua abordagem pedagógica distinta e pela forma como integra ciência, metodologia e cultura no ensino do Jiu-Jitsu. Nesta entrevista, conduz-nos pelo seu percurso, pelas influências que moldaram o seu caminho e pela visão que defende para o futuro da modalidade, tanto dentro da academia como no panorama nacional.

FightNews: Carlos, como e quando começou o teu percurso no Jiu-Jitsu?

Carlos Carvalho: Em 2010 comecei a treinar na associação Elite Defesa Pessoal, no Algarve, que incluía um trabalho de chão muito rudimentar, e no final dos treinos havia sempre sparring, em pé ou no chão, com maior ou menor grau de intensidade. Como eu só tinha experiência em kickboxing até essa altura, quando a luta ia para o chão era o descalabro, especialmente com os mais experientes.

Um dos meus amigos de longa data, o Luís Guerreiro, tinha uma lesão no ombro e não conseguia dar bem socos porque podia deslocar o membro. Mas quando agarrava, amassava toda a gente — a mim e até alguns treinadores. Aquilo fez-me pensar seriamente. Senti falta de meios e recursos para progredir, e foi aí que comecei a pesquisar melhor sobre Jiu-Jitsu e a origem do MMA.

No verão de 2012, soube de um seminário do Royce Gracie em Lagoa, no qual iam participar alguns treinadores e colegas meus. Aquilo nem tinha sido divulgado internamente, mas quando perguntei sobre o assunto acabaram por incluir-me. No final desse seminário houve uma sessão de sparring para os mais graduados e fomos todos literalmente amassados. Foi apenas a confirmação do que eu já sabia que ia acontecer.

Fiquei com o contacto do José Pedro Brás e do Remígio, e no mês seguinte comecei a ir lá pelo menos uma vez por semana. Fazia 90 km por treino, pois vivia em Quarteira. Mais tarde, acabei por sair da Elite, apesar do carinho e consideração por alguns.

Imagem Instagram

FightNews: Que valores consideras que o Jiu-Jitsu mais te transmitiu ao longo dos anos e de que forma esses valores influenciam a tua vida dentro e fora do tatame?

Carlos Carvalho: Bem... eu não sou muito a favor de narrativas românticas no seio das artes marciais. Na verdade, sou até crítico sobre mentiras e a ênfase cega num determinado tipo de marketing que se generaliza. Para mim, o Jiu-Jitsu é apenas aquilo que fizermos dele.

Pode obviamente trazer benefícios e ser uma prática educativa, mas apenas se aplicarmos realmente princípios que dependem da conduta, integridade e nível de entendimento dos indivíduos, das relações que se estabelecem e da cultura e ambiente que se fomentam.

Fui influenciado por filmes de artes marciais e de acção desde a infância. Gostava de desporto e de competir em eventos escolares. Precisei de ganhar confiança e aprender a defender-me melhor devido a situações e brigas na escola, por isso comecei a treinar Kickboxing e ginásio ali por 1999/2000.

Conheci pessoas que me ajudaram imenso e outras que me prejudicaram, antes e depois de aparecer o Jiu-Jitsu. Cometi erros e aprendi ao longo dos anos. Estou consciente de como cheguei até aqui e sou cuidadoso com o círculo de pessoas à minha volta. Mas nada disso se sobrepõe à educação que tive em casa e ao exemplo de vida da minha mãe e da minha irmã, que sofreram e lutaram muito para viver com honra e dignidade.

Imagem cedida Carlos Carvalho

FightNews: Qual é a filosofia de treino que procuras implementar na Five Elements Jiu-Jitsu Faro?

Carlos Carvalho: O que já está implementado é que precisamos de ter uma certa mentalidade para saber trabalhar bem e crescer, e que somos responsáveis pela nossa socialização e pelas nossas escolhas.

Ganhar confiança, no mundo da luta, não nasce com base em afirmações positivas, mas sim com o desenvolvimento real de habilidades, interesse pelos conhecimentos associados, e só assim transformamos as coisas e colhemos benefícios mais tarde.

No nosso espaço, antes do treino vem uma academia limpa e organizada. Existe formação profissional e um ambiente educativo. O design das aulas foca-se no aluno, não no professor. O aluno tem de ter atenção e intencionalidade para poder aprender, senão pouco podemos fazer por ele. E com base nisso vamos formando uma cultura distinta da maioria da comunidade.

FightNews: Como equilibras o ensino para alunos recreativos e atletas de competição?

Carlos Carvalho: Tudo é performance. A diferença está nos objectivos de cada um, na fase da vida que atravessam, no nível de comprometimento ou disponibilidade que têm, no seu histórico, etc.

Quando o ambiente e a cultura educativa estão estabelecidos, o cruzamento entre praticantes recreativos e atletas é regulado de forma saudável e natural.

Temos aulas com diferentes objectivos — Fundamentais, All Levels e Performance (Competição) — que se adaptam sempre aos recursos presentes. O mesmo acontece com as turmas das crianças.

Vou trabalhando com todos ao longo do tempo, conforme os vou conhecendo melhor, da forma mais individualizada possível. Mas a abordagem pedagógica, a framework, é a mesma. Nenhum dos meus alunos faz um único drill com um parceiro estático nas aulas. Todo o treino é representativo, todo o treino é uma interação constante dentro de um contexto próprio, direccionado, onde os praticantes exploram, adaptam-se e tomam decisões em tempo real com a melhor tecnologia de treino presente: outro parceiro que oferece resistência e em quem possam confiar.

Tudo isto são coisas que é preciso estudar para entender melhor.

Imagem instagram

FightNews: Quais têm sido os maiores desafios em liderar uma equipa como Head Coach e o que mais te orgulha no trabalho desenvolvido com os teus alunos?

Carlos Carvalho: Mudar mentalidades. Sair da linha comercial e respeitar melhor aquilo que somos e o que fazemos. Ter tido experiências negativas que me fizeram crescer. Não dar importância a faixas ou narrativas, mas sim às acções e evidências.

Parar de colocar figuras que não conhecemos num pedestal. Estudar a história do Jiu-Jitsu e ter-me ligado a pesquisadores sérios que melhoraram significativamente o meu entendimento. Abandonar a linha tradicional de ensino e mudar a minha perspectiva sobre a natureza da nossa percepção e a forma como aprendemos realmente a mover-nos.

Orgulha-me ter alunos e famílias envolvidas positivamente, a crescer, e competidores a demonstrar resultados. Chegar ao ponto de ter alunos que me dizem: “Se fosse obrigado a voltar ao tradicional, acho que parava de treinar Jiu-Jitsu”... e perceber que estou a consolidar as coisas.

Mas temos muito pela frente; não dou nada por garantido.

Imagem cedida Carlos Carvalho

FightNews: Como vês o crescimento e desenvolvimento do Jiu-Jitsu em Portugal nos últimos anos?

Carlos Carvalho: Vejo que estão a aparecer muitas academias e eventos competitivos a nível nacional. Estamos a crescer, e isso é positivo. Mas questiono a sustentabilidade, sobretudo nas competições, onde chegamos a ter demasiadas ofertas que acabam por diluir os competidores entre eventos que acontecem na mesma data ou próximas.

Alguns eventos chegam mesmo a ser cancelados — isso demonstra fragilidade. Nota-se também a diferença no nível das organizações que aparecem do nada e querem crescer rápido a prometer tudo. O que é que realmente têm para oferecer?

Para quem é do Algarve, há ainda mais despesas para se deslocar ao centro ou ao norte. Quem não promove um calendário antecipado com objectivos definidos acaba por atirar os competidores à sorte nos eventos mais pequenos.

Quanto à minha Escola, tivemos muitas entradas recentemente e reina um maior equilíbrio entre praticantes de No-Gi e Gi. Isto também porque somos das poucas academias — ou talvez a única — a oferecer currículo No-Gi sem obrigar o aluno a treinar de Kimono, e vice-versa. Ambos podem ser produtivos, dependendo dos objectivos e adaptação individual.

O Jiu-Jitsu é apenas uma filosofia...

FightNews: Qual é o teu maior objectivo para o futuro da Five Elements Jiu-Jitsu Faro?

Carlos Carvalho: Formar bons alunos, bons atletas, bons treinadores, pessoas com cabeça. Expandir com base nisso e viver em paz. Quero deixar uma melhor descrição e definição da arte para as gerações futuras do que aquela que encontrei no mercado quando comecei a praticar.

Imagem cedida Carlos Carvalho

FightNews: Por fim, que mensagem gostarias de deixar a todos os que apoiam o teu trabalho e o projecto — alunos, amigos e comunidade?

Carlos Carvalho: Obrigado a todos por tudo: à minha mulher, aos meus alunos, ao meu professor e a todos os que contribuíram adicionalmente para o meu desenvolvimento, com todas as pequenas gotas de valor.

Obrigado também a todos os que fizeram parte das minhas experiências profissionais antes de eu ser treinador, porque adquiri habilidades e aprendizagens que tiveram transferência muito além do Jiu-Jitsu.

Sou profundamente grato aos que estão comigo e por me darem de comer. Peço desculpa à minha família e aos meus amigos por estar a passar esta fase longa onde coloco o meu trabalho à frente de tudo, e sobra pouco tempo para vos rever.

Para a comunidade em geral, só posso sugerir uma coisa: leiam. É do que mais temos falta.

Imagem cedida Carlos Carvalho

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