
O panorama do desporto feminino mudou de forma irreversível.
O que antes era tratado como nicho ou iniciativa paralela tornou-se um sector com tração própria, métricas robustas e apetite crescente de marcas, investidores e media.
Segundo o relatório “Women’s Elite Sports” da Deloitte, o segmento deve movimentar US$ 2,35 B em 2025, alcançando um ritmo de expansão 4,5 vezes superior ao dos desportos masculinos no mesmo período, de acordo com estimativas da McKinsey & Company.
O crescimento tem sido consistente: entre 2022 e 2024, as receitas globais saltaram de US$ 692 M para US$ 1,88 B, um salto de 240% em apenas dois anos. E tudo indica que este impulso não pretende abrandar.
A Deloitte é uma das maiores consultoras do mundo, presente em mais de 150 países. Os seus relatórios anuais sobre a indústria do desporto são usados por marcas, investidores e federações para decidir onde apostar. E o diagnóstico é claro: o crescimento está no desporto feminino.
O dinheiro que circula nesta indústria começa a assumir novas proporções.
A Deloitte mostra como as receitas se repartem:
54% — patrocínios e acordos comerciais
25% — direitos de transmissão
21% — bilheteira e experiências presenciais
E o apetite das empresas é claro:
80% dos anunciantes e marcas entrevistados revelam intenção de aumentar o investimento no desporto feminino nos próximos três anos.
Ao mesmo tempo, a Nielsen destaca um ponto decisivo:
47% dos adeptos de desportos femininos são mulheres, e o interesse masculino cresce 30% ao ano, o que reforça o caráter transversal e não-segmentado desta audiência.
Para o World Economic Forum, a mensagem é inequívoca:
Investir em desporto feminino deixou de ser uma decisão social — é estratégia de mercado.
Nos Estados Unidos, apesar de os desportos femininos representarem menos de 2% de um mercado total avaliado em US$ 75 B, o país lidera na venda de direitos de transmissão. A previsão é que ultrapassem US$ 520 M até 2030, refletindo a consolidação do setor na televisão e no streaming.
Na Europa, a profissionalização acelera. A UEFA e a FIFA adicionaram € 66 M ao financiamento do futebol feminino até 2028, enquanto modalidades emergentes, incluindo artes marciais, começam a atrair novos projetos e infraestruturas.
O Brasil vive um dos momentos mais dinâmicos da sua história recente. Com o futebol feminino a bater recordes de audiência televisiva (+38%) e a dominar as redes sociais (+62% nas principais atletas). Nas artes marciais, o país segue como potência exportadora.
Em Portugal, o crescimento é mais recente, mas evidente.
A presença feminina nos tatames e ringues aumentou quase 40% desde 2021, e nomes como Jaqueline Cavalcanti, atleta do UFC, simbolizam uma nova geração que se afirma no cenário internacional. Ainda assim, o apoio institucional e o investimento privado permanecem aquém do potencial.
O segmento dos desportos de combate femininos acompanha o avanço global, mas enfrenta desafios específicos. Segundo a Real-Time Data Stats, o mercado mundial das lutas femininas vale US$ 3,58 B e poderá chegar a US$ 6,76 B até 2032, com um crescimento anual médio de 9,5%.
Apesar disso, a remuneração segue desfasada.
O público cresce, as audiências duplicam, mas a estrutura de pagamento permanece presa a modelos antigos.
A lógica mudou.
Se antes o foco eram títulos e estatísticas, agora empresas procuram:
narrativas genuínas
ligação com valores contemporâneos
capacidade de mobilização
impacto cultural
identificação com causas sociais
O desporto feminino combina todos esses elementos, especialmente nas artes marciais, onde histórias de superação, disciplina e resiliência fazem parte do ADN da modalidade.
As modalidades de combate estão a transformar-se em polos de crescimento dentro do universo feminino.
A combinação de estética, narrativa e intensidade emocional cria um produto com enorme potencial mediático.
Tendências para os próximos anos incluem:
academias lideradas por mulheres com presença forte em redes sociais
marcas a desenvolver equipamentos e suplementos específicos
eventos híbridos entre desporto, entretenimento e cultura
mais transmissões dedicadas exclusivamente a lutas femininas
conteúdos documentais e plataformas próprias
maior profissionalização do marketing de lutadoras
Portugal e Brasil têm oportunidade estratégica de se posicionar: um pela potência histórica nas artes marciais; outro pelo posicionamento europeu e proximidade com mercados regulados e de alto valor.
O desporto feminino deixou definitivamente a condição de "promessa" para se tornar um setor económico concreto, em expansão e com impacto sociocultural profundo.
As mulheres já provaram o seu valor.
As estatísticas confirmam.
O público acompanha.
Agora falta o mercado responder à altura da realidade.
Fontes: Deloitte — Women’s Elite Sports Report 2025
McKinsey & Company — Women in Sport: Closing the Value Gap (2025)
Nielsen Sports — Women’s Sports Fans Insights (2024)
World Economic Forum — Gender Parity in Sports & Media (2024)
© 2025 Social Digital Fight
Branding. Combate. Cultura. Conhecimento.