
Raquel Carmo é atleta da equipa Icon Jiu Jitsu e faixa preta numa modalidade que moldou profundamente a sua vida pessoal, profissional e desportiva. Com um percurso marcado pela competição desde a infância, encontrou no Jiu Jitsu não apenas um desporto, mas uma escola de valores como resiliência, autocontrolo e confiança. Nesta entrevista, Raquel partilha o seu caminho até à faixa preta, os desafios enquanto mulher numa modalidade maioritariamente masculina e deixa uma mensagem inspiradora para quem está a começar — especialmente para outras mulheres.
FightNews: Como é que começou o teu percurso no desporto e, em particular, no Jiu Jitsu?
Desde criança que sempre tive o gosto por praticar desporto, inclusive a nível competitivo. Iniciei na escola básica, inscrevendo-me em todas as provas desportivas. Mais tarde, pratiquei várias modalidades federadas e a nível competitivo, como futebol, atletismo e karate.
O Jiu Jitsu surge na minha vida após entrar num projeto inovador, o Jazzy Fight Club, como staff. Estava numa fase sem rumo a nível de desporto competitivo, tinha deixado a competição primeiro porque fui para a faculdade e depois por questões profissionais. Experimentei Jiu Jitsu em 2016 e nunca mais parei. Passados dois meses já quis fazer a minha primeira prova. A adrenalina da competição é o meu combustível para treinar.
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews:Que valores consideras que o Jiu Jitsu te transmitiu, dentro e fora do tatame?
Resiliência, autocontrolo e confiança.
FightNews:De que forma esses valores influenciam a tua vida pessoal e profissional?
A resiliência ainda hoje é posta à prova dentro e fora do tatame. Foi um percurso duro; muitas vezes pensei em desistir das competições e do desporto em si, entre lesões e o facto de “bater sempre na trave” nas provas. Na minha vida pessoal e profissional, sem dúvida que me tem ajudado a manter o foco, mesmo quando as coisas nem sempre correm bem.
O autocontrolo é algo que o Jiu Jitsu tem o dom de nos ensinar, ajudando-nos a gerir e controlar o desespero numa determinada situação. Isto traduz-se no quotidiano, na capacidade de não explodir em situações que nos põem à prova.
Quanto à confiança, hoje sou muito mais confiante do que há dez anos. Tanto a nível desportivo como pessoal e profissional, acredito mais em mim e naquilo que posso alcançar.
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews:O que significou para ti alcançar a faixa preta em Jiu Jitsu?
Foi o maior marco que alguma vez tive. A faixa preta representa todo o trabalho, a resiliência, a dedicação, o sofrimento e, por vezes, a privação da minha vida pessoal. Sem a orientação do meu professor João Fiúza, não estaria onde estou hoje.
Foi uma felicidade incrível e, como seria de esperar, dormi com a faixa ao meu lado — lógico!
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews: Sendo uma modalidade ainda maioritariamente masculina, que dificuldades sentiste por seres mulher neste percurso?
Muitas. Principalmente por quase não haver mulheres para treinar e, a nível competitivo, em faixa castanha, não tive mulheres para competir a nível nacional. Ainda hoje, em faixa preta, na minha categoria, é difícil ter adversárias.
A fisionomia de uma mulher é completamente diferente da de um homem. O meu treino é essencialmente com homens mais pesados, mais fortes e maiores do que eu. A minha estrutura, sendo mulher e peso-pena, é uma grande desvantagem quando comparada com a de um homem.
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews:Sentiste que tiveste de provar mais o teu valor em algum momento?
Sim, na minha cabeça senti isso. Treino todos os dias. No último Europeu, em 2025, foquei-me imenso na prova. O meu professor dedicou horas à minha preparação, tive uma equipa por trás a ajudar-me a nível físico, técnico, mental — com a Mariana Feijão — e também na recuperação, com a LMClinic.
Senti que tinha o dever de demonstrar o meu valor por tudo o que as pessoas fizeram por mim. Deixei praticamente de ter vida própria e, no dia, perdi na primeira luta. Mas ganhei uma grande lição: na vida tudo tem de ter equilíbrio e toda a minha dedicação diária já prova o meu valor.
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews: O que representa a ICON Team na tua vida?
A Icon Team é uma família. É a sensação de chegar ao treino e sentir-me parte da casa, onde sou respeitada e valorizada pelos meus colegas e professores, que me acompanham diariamente. É um ambiente familiar, onde existe harmonia.
Tenho imenso orgulho em representar nacional e internacionalmente a minha equipa, porque tudo o que ponho à prova é também fruto dos meus parceiros e parceiras de treino, que estão sempre lá para treinar comigo.
Imagem cedida Raquel Carmo
FightNews: Que mensagem gostarias de deixar a quem está a dar os primeiros passos no Jiu Jitsu, especialmente às mulheres?
Por mais difícil que seja a caminhada até alcançarem o vosso objetivo, não desistam. Acreditem em vocês e não oiçam quem vos diz o contrário, porque com dedicação, foco, perseverança e trabalho, o vosso dia vai chegar.
Respeitem o vosso parceiro de treino e o vosso adversário, sejam humildes, porque ninguém evolui sozinho e todos os que nos rodeiam são importantes para a nossa evolução.
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FightNews:Para terminar, que mensagem deixas a todos neste final de ano, a nível pessoal e desportivo?
Boa sorte na vossa jornada, nos treinos e nas provas. Desejo que todos encontrem um professor como eu encontrei, que acredite verdadeiramente em vocês, que vos impulsione e ajude a alcançar os vossos sonhos, despertando o praticante que querem ser.
Desejo também que encontrem um espaço de treino com pessoas que criem um ambiente verdadeiro, saudável e amigável, tal como eu tenho. Que encontrem o equilíbrio necessário entre treino, vida pessoal e profissional, para serem felizes na vida e a treinar.
Atleta feliz é atleta vitorioso!
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