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Performance, prevenção e longevidade: o impacto da osteopatia nos atletas de Jiu-Jitsu

Entrevista com o professor Hugo Monteiro e a Osteopata Dra.Vânia Neves sobre como a abordagem clínica integrada melhora a resistência, mobilidade e segurança dos praticantes.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
01/11/2025 às 14h19 Atualizada em 04/11/2025 às 11h12
Performance, prevenção e longevidade: o impacto da osteopatia nos atletas de Jiu-Jitsu
Divulgação

A cada vez maior exigência do Jiu-Jitsu em Portugal trouxe consigo uma necessidade clara: cuidar do corpo com o mesmo compromisso com que se cuida da técnica e do treino. Na Guarda, a Fight Club Jiu-Jitsu tem destacado a importância desse equilíbrio através de uma parceria com a Clínica de Fisioterapia e Osteopatia FisioinGuarda, da Dra. Vânia Neves.

O mestre Hugo Monteiro, faixa-preta e líder da equipa, e a osteopata Vânia Neves explicam como esta colaboração tem transformado a rotina dos atletas e reforçado a longevidade no tatame.

Entrevista com Hugo Monteiro — treinador e líder da Fight Club Jiu-Jitsu Guarda

FightNews: Como surgiu a ideia de trazer a osteopatia para a rotina da equipa e o que motivou esta parceria com a Dra. Vânia?

A ideia surgiu de forma natural. Conheci a Dra. Vânia através de uma página ligada ao Muay Thai aqui na Guarda. Mais tarde, chegámos a falar sobre a possibilidade de dar aulas de Jiu-Jitsu no espaço dela, mas acabei por abrir o meu próprio local. Ainda assim, percebi cedo como a osteopatia poderia complementar a minha rotina, sobretudo devido às lesões que fui acumulando ao longo dos anos. Passei a integrar o tratamento semanalmente e a diferença na recuperação e na qualidade do meu treino foi enorme. A parceria fez todo o sentido para oferecer o mesmo benefício aos nossos atletas.

Imagem cedida Hugo Monteiro

FightNews: No dia-a-dia dos treinos, que queixas físicas são mais comuns e como a osteopatia pode ajudar?

As queixas mais frequentes são dores lombares, tensão cervical e nos ombros, além de pequenas lesões nos joelhos e cotovelos — algo normal para quem treina Jiu-Jitsu com regularidade. A osteopatia é essencial porque trata a origem do problema, não apenas o sintoma. Muitas vezes uma dor no joelho, por exemplo, vem de uma compensação pélvica ou postural. Com o acompanhamento certo, conseguimos prevenir recidivas e manter os atletas aptos por mais tempo.

Imagem cedida Hugo Monteiro

FightNews: A percepção sobre recuperação mudou ao longo da carreira?

Completamente. Tal como muitos atletas, no início acreditava que treinar mais era sempre o melhor caminho. Com o tempo — e algumas dores pelo meio — percebi que descanso e manutenção são tão importantes quanto o treino duro. Hoje vejo a recuperação como parte fundamental do processo. Sem um corpo saudável, não há evolução possível. A osteopatia e a fisioterapia ajudaram-me a entender e respeitar os sinais do corpo.

4. Que mensagem deixa aos alunos sobre incluir o cuidado corporal como parte essencial do treino?

O corpo é a nossa principal ferramenta. Cuidar dele não é luxo — é necessidade. Durante muitos anos também pensei que só o treino contava, e por isso tento que os meus alunos não repitam os mesmos erros. O progresso real vem do equilíbrio entre esforço e recuperação. Quem investe em prevenção treina melhor, sem dor e por muitos mais anos. O objetivo é claro: estar no tatame hoje, amanhã e durante muito tempo, com saúde e desempenho.

Imagem cedida Hugo Monteiro

Entrevista com a Dra. Vânia Neves — Osteopata e responsável pela Clínica de Fisioterapia e Osteopatia

FightnEws: O que é exatamente a osteopatia e o que a distingue de outras abordagens terapêuticas?

A Osteopatia é uma abordagem terapêutica que utiliza técnicas manuais para restaurar o equilíbrio natural do corpo e promover a saúde e o bem-estar. Trata uma vasta gama de patologias — desde gastrite, refluxo, tonturas, zumbidos, problemas respiratórios, até dores músculo-esqueléticas — pois baseia-se numa visão holística que entende o corpo como um sistema global e interligado: muscular, esquelético, visceral, circulatório e nervoso.

Diferente das abordagens convencionais, que tendem a focar o tratamento apenas no local ou sistema onde a dor se manifesta, a Osteopatia procura a causa primária da disfunção — que, muitas vezes, se encontra noutro ponto do corpo. Por exemplo, uma dor no joelho pode ter origem numa restrição de mobilidade da anca ou num desequilíbrio do pé.

Mais do que apenas aliviar sintomas, a Osteopatia ajuda a prevenir lesões e a otimizar a mobilidade e a funcionalidade do corpo.

Imagem Instagram

FightNews: Quais as lesões mais comuns no Jiu-Jitsu e como a osteopatia atua?

O Jiu-Jitsu é uma arte marcial com um elevado nível de exigência física, em que o corpo é constantemente sujeito a variações bruscas de posição, torções, pressões, alavancas e quedas. As lesões mais comuns ocorrem nos joelhos (chave leg lock), ombros e cotovelos (arm lock), pulsos e dedos (pegas em “mão de vaca”), tornozelos e anca (torções e quedas), coluna (movimentos bruscos, técnicas de alavanca, quedas) e costelas (passagem de guarda ou golpes diretos).

Além disso, é frequente surgirem desequilíbrios posturais devido à repetição de movimentos de defesa ou de ataque executados quase sempre para o mesmo lado.

A Osteopatia atua simultaneamente na recuperação — restaurando a mobilidade das articulações e a função muscular após uma lesão — e na prevenção, identificando zonas de bloqueio e compensações antes que estas causem dor ou outros sintomas.

O objetivo é manter o corpo equilibrado, funcional e resistente ao impacto das cargas atípicas dos treinos.

Imagem Instagram

FightNews: Muitos atletas só procuram tratamento quando há dor. Qual o valor da osteopatia na prevenção?

Idealmente, a consulta de Osteopatia deve fazer parte de um plano inteligente de manutenção corporal — uma espécie de revisão biomecânica — que permite ao corpo atingir o máximo rendimento, reduzir o risco de lesões e prolongar a longevidade desportiva.

Através de consultas regulares, é possível detetar e corrigir precocemente desequilíbrios musculares e posturais que ainda não provocam dor, mas que podem já estar a afetar o equilíbrio e o desempenho do atleta — reduzindo assim o risco de lesões futuras.

O resultado é um corpo mais equilibrado, eficiente e resistente, o que se traduz numa melhor performance desportiva e em menos tempo de paragem devido a lesões.

Imagem cedida Hugo Monteiro

FightNews: O que acontece ao corpo durante um treino de Jiu-Jitsu e como minimizar impactos?

O Jiu-Jitsu é uma arte marcial de elevada exigência física sobre as articulações periféricas e a coluna vertebral, além de provocar fortes variações de pressão interna nos tecidos. Estas forças podem gerar microdesalinhamentos, compressões e restrições de mobilidade — principalmente nas regiões cervical, lombar e pélvica.

As consultas regulares de Osteopatia atuam como um método preventivo, ajudando a corrigir e restaurar o movimento natural dessas estruturas, bem como a melhorar a capacidade de absorção e distribuição das cargas, reduzindo assim o risco de lesão e prolongando a longevidade no tatami.

FightNews: Há diferenças entre tratar atletas competitivos e praticantes recreativos?

Sim, existem diferenças, embora o princípio seja o mesmo: restaurar e otimizar o equilíbrio natural do corpo, de acordo com as exigências individuais.

Nos atletas de alta performance, o foco está na recuperação rápida, na gestão de cargas e na maximização da performance — um trabalho mais frequente e minucioso, ajustado ao calendário de competições, normalmente com uma frequência semanal.

No praticante recreativo, o objetivo é mais preventivo e educativo, uma vez que muitas vezes treinam após longas horas de trabalho sedentário. Neste caso, as consultas podem ocorrer com frequência mensal, com o objetivo de corrigir posturas, melhorar a mobilidade e o controlo motor, e evitar lesões que possam afastá-los dos treinos.

Em ambos os casos, a Osteopatia adapta-se ao ritmo e à intensidade de cada atleta, respeitando as necessidades do seu corpo e o seu momento.

Imagem Instagram

FightNews: Que conselho deixa a quem quer longevidade no tatame?

O maior segredo para a longevidade no tatame é a prevenção. Os praticantes de Jiu-Jitsu aprendem a respeitar o adversário, mas, no dia a dia, muitas vezes esquecem-se de respeitar e ouvir o próprio corpo. E, quando surge a dor, já é uma mensagem clara de que alguns sinais foram ignorados e certos limites ultrapassados.

Integrar as consultas de Osteopatia como um cuidado contínuo de manutenção e prevenção, treinar com consciência e respeitar o tempo de recuperação é o que mantém o corpo funcional, resiliente e preparado para muitos anos de prática desportiva.

Resumidamente: quem cuida do corpo fora do tatame, dura mais tempo dentro dele.

 

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