
A história de um mestre do Jiu-Jitsu que cruzou o Atlântico para plantar as sementes da arte suave em terras lusitanas. Uma jornada marcada por desafios, superação e a paixão inabalável por um desporto que transforma vidas. Desde os primeiros passos no Judo até à criação de um verdadeiro templo do Jiu-Jitsu em Portugal, acompanhe-nos nesta entrevista exclusiva com Sérgio Vita que dedicou a sua vida a espalhar a filosofia e os valores do Jiu-Jitsu.
FightNews: Como o Jiu-Jitsu entrou na sua vida? O que despertou o seu interesse pela modalidade e qual foi o momento decisivo para seguir esse caminho? Pode-nos contar sobre o seu mestre, os desafios que enfrentou e o que o incitou a continuar?
Sérgio Vita: A minha jornada começou no Judo aos 7 anos, mas, como em toda a caminhada, houve idas e vindas. Foi num desses retornos que assisti ao “Grande Desafio” e vi o Jiu-Jitsu triunfar em todos os combates. No dia seguinte, o dojo estava em alvoroço, e um amigo do Judo levou-me à casa do Sr. Heitor, um praticante de Jiu-Jitsu. Foi ali que toquei pela primeira vez na arte suave.
Logo depois, outro amigo de infância, o Bruno Coelho, levou-me ao Colégio Operon, onde o saudoso professor Leo Dilha e o mestre Cyrillo “Sivuca” haviam iniciado um projeto. A minha base foi forjada entre esses dois mestres. De manhã, treinava com o Cyrillo, um aluno direto do mestre Francisco Mansur fundador da Kyoto e professor de português e literatura no mesmo colégio onde decorriam as aulas de jiu-jitsu. À noite, treinava com o Léo, ainda faixa azul e aluno da Carlson Gracie. Essas duas fontes moldaram a minha essência no Jiu-Jitsu.

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Não houve um momento específico que me fez seguir esse caminho; ele simplesmente desenrolou-se diante de mim. Como um guerreiro que segue o fluxo da batalha sem hesitação, entreguei-me ao que a vida me ofereceu e fiz o meu melhor.
Com o Cyrillo, além das bases, aprendi sobre a Dieta Gracie e a importância da alimentação. Com o Léo, um verdadeiro irmão mais velho, encontrei a inspiração para ser quem sou hoje. Devo muito a ele.
Os maiores desafios eram a distância e a falta de recursos. Caminhei quilómetros para treinar, pedindo bicicleta emprestada ou simplesmente indo a pé. Mas nunca deixei de comparecer ao dojo. Penso que a persistência é o fio que une o espírito ao seu destino.
FightNews: Como surgiu a oportunidade de vir para Portugal? O que o motivou a estabelecer-se aqui e iniciar o seu trabalho no Jiu-Jitsu?
Sérgio Vita: Eu estava num momento de transição. O meu professor, o Léo, havia deixado de dar aulas, e eu já ensinava desde 1995, autorizado por ele ainda como faixa azul. Em 2001, fui a Curitiba, mas não permaneci. Foi então que um amigo que também foi meu aluno, me convenceu a vir para a terra de Camões. Ele disse que o Jiu-Jitsu ainda era pouco conhecido em Portugal, e isso acendeu uma chama dentro de mim. Aceitei o desafio, vim ver no que dava… e aqui estou.
FightNews: Quando você chegou, como era a cena do Jiu-Jitsu em Portugal? Quais foram os maiores desafios que encontrou para desenvolver a modalidade no país?
Sérgio Vita: Na época, havia apenas três faixas-pretas e dois faixas-marrons no país. O Jiu-Jitsu era pouco conhecido e ainda não existia uma organização federativa. Em 2004, demos os primeiros passos para estruturar a modalidade, mas antes disso, foi preciso apresentar a arte suave aos portugueses e mostrar a sua essência.
O maior desafio foi a sobrevivência. O Jiu-Jitsu, por si só, não garantia sustento, então trabalhei como segurança de discoteca, nadador-salvador, professor de spinning, musculação e natação. Até servi mesas antes de conseguir viver exclusivamente da arte. Um guerreiro não escolhe as batalhas que enfrenta, mas encara cada uma com determinação e honra.

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FightNews: Hoje, como você vê o crescimento do Jiu-Jitsu em Portugal? O que mudou desde que começou o seu trabalho aqui?
Sérgio Vita: O Jiu-Jitsu cresceu exponencialmente, não só em Portugal, mas no mundo todo. A internet tem sido uma ferramenta poderosa para divulgar e impulsionar a arte.
Há 25 anos, a prática desportiva era mínima. Hoje, as pessoas buscam saúde, bem-estar e qualidade de vida, e o Jiu-Jitsu acompanha esse movimento. O guerreiro moderno não busca apenas a vitória nos tatames, mas o equilíbrio entre corpo e mente.

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FightNews: O que o levou a fundar a Vita Team? Quais são os valores e a filosofia que diferenciam a academia das demais?
Sérgio Vita: A Vita Team nasceu do meu próprio nome e da minha essência. Em 1999, registei o clube Vita Team na FJJ-Rio com autorização do meu professor. Era um projeto pequeno, mas carregado de propósito.
A Icon Jiu-Jitsu Team surgiu depois, em 10/10/2010, quando eu, o Zé Marcelo e o Anderson Pereira unimos forças para organizar seletivas para o Mundial de Abu Dhabi. A nossa filosofia é a sinergia e o crescimento mútuo. Todas as decisões são tomadas em conjunto, com respeito e valorização de cada membro da equipa. Um verdadeiro clã, onde cada um fortalece o outro.
FightNews: Quais são os principais objetivos com a nova academia e como ela impactará a comunidade do Jiu-Jitsu em Portugal?
Sérgio Vita: Após 30 anos a ensinar, decidi criar um espaço que refletisse a minha visão sobre a arte. Encontrei o local perfeito e, como disse o Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
A nossa equipa ICON JJ Team entra numa nova era, em que a nossa nova academia tem uma estrutura completa: tatames amplos, área de preparação física, sauna, banheira de gelo, receção espaçosa, gabinete de terapias, sala de lazer, estúdio de podcast e dormitórios para um centro de estágios. Criámos um verdadeiro templo para o Jiu-Jitsu.
FightNews: Como a sua experiência a ensinar forças de segurança e militares moldou a sua visão sobre o Jiu-Jitsu?
Sérgio Vita: O Jiu-Jitsu é uma ferramenta pedagógica poderosa para crianças, jovens e adultos. Mas nunca podemos esquecer a sua raiz como arte marcial. Ele permite conter uma agressão sem recorrer à violência desnecessária.
Desenvolvi um sistema de contenção, manietação e algemagem, com e sem binómio, para forças de segurança. Esse trabalho valida o Jiu-Jitsu como um meio eficiente de policiamento cívico, onde o agente pode neutralizar uma ameaça sem traumas desnecessários.
O verdadeiro guerreiro evita a guerra, mas quando ela se faz necessária, age com precisão, controlo e honra.

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FightNews: Você já treinou muitos atletas de alto nível. O que diferencia um grande atleta de um campeão?
Sérgio Vita: Para se destacar, é preciso disciplina absoluta. Mas para ser um campeão, é necessário algo além: caráter irrepreensível, espírito inquebrantável e uma mentalidade que transcende a prática desportiva.
Vejo campeões todos os dias. Não apenas aqueles que sobem ao pódio, mas aqueles que enfrentam batalhas diárias e continuam a treinar, independentemente das dificuldades. O “ouro invisível” está nas pequenas vitórias que poucos percebem, mas que fazem de um lutador um verdadeiro samurai da vida.

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FightNews: Quais são os próximos passos para a ICON Vita Team e para você como treinador e líder no Jiu-Jitsu?
Sérgio Vita: O nosso foco agora é concluir a construção do nosso Centro de Estágios. Estamos a avançar para a terceira fase da obra, prevista para ser finalizada em 13 de março.
Além disso, temos três grandes Training Camps programados: um em Cabo Verde, na Ilha de São Vicente, outro na Roménia, em Mangalia, no Mar Negro, e finalizamos em Hong Kong, pré ou pós-Asian Open em Tóquio.

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A jornada continua, e como um verdadeiro guerreiro, sigo sempre adiante, com disciplina, honra e a missão de espalhar a arte suave pelo mundo
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A trajetória do mestre Sérgio Vita é um testemunho da força transformadora do Jiu-Jitsu. Mais do que um desporto, a arte suave revelou-se um caminho de vida, moldando o caráter, ensinando valores e construindo uma comunidade forte e unida. Desde os desafios iniciais de estabelecer a modalidade em Portugal até à criação de um espaço que reflete a sua visão completa do Jiu-Jitsu, a jornada foi marcada por dedicação, resiliência e uma paixão inabalável.
Sérgio Vita é uma inspiração para todos aqueles que buscam a excelência, não apenas no desporto, mas na vida. É a prova de que, com disciplina, honra e um espírito inquebrantável, é possível superar obstáculos, alcançar objetivos e deixar um legado duradouro. Osss.








