Kempo UDCAS
Entrevista com as Treinadoras de Kempo da UDCAS: A Força Feminina nas Artes Marciais
Do Desporto à Educação: As Histórias por Trás das Treinadoras
16/12/2024 10h33 Atualizada há 11 meses
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
Divulgação

O Kempo é uma arte marcial que combina disciplina, técnica e valores que transcendem o tatami. Hoje, conversamos com três treinadoras de Kempo da UDCAS: Carolina Fonseca, Érica Aleixo e Beatriz Marques. Estas mulheres não apenas desafiam os estereótipos numa modalidade historicamente dominada por homens, mas também moldam a próxima geração de atletas, com paixão e determinação. Acompanhe a entrevista para conhecer as suas histórias e visões sobre o impacto das artes marciais.

FightNews: Para começar, podem-nos falar um pouco sobre o que fazem profissionalmente, para além de serem treinadoras de Kempo? O que as levou a escolher esta carreira e a tornarem-se treinadoras de artes marciais?

Carolina Fonseca: Profissionalmente, comecei por estudar Multimédia no secundário e estagiei na área, mas percebi que não era o que realmente queria seguir. Mais tarde, escolhi tirar o curso de Técnica de Ação Educativa, sem descartar a possibilidade de me dedicar ao desporto, que sempre foi uma das minhas paixões. Desde pequena, pratiquei Karaté e, mais tarde, joguei futsal federado. Foi então que conheci o Sigung Nuno Grilo e entrei no mundo das artes marciais. Desde cedo comecei a dar treinos, algo que me apaixonou. Quando surgiu a oportunidade de tirar o curso de Treinadores de Kempo, não hesitei.

Imagem Carolina Fonseca

Erica Aleixo: Além de ser treinadora de Kempo, sou psicomotricista, uma profissão que permite trabalhar o desenvolvimento físico, psicológico e emocional de forma holística. A psicomotricidade abrange a coordenação motora, a noção corporal e a orientação espacial, com foco na harmonia entre corpo e mente. Trabalho com adolescente e com crianças, oferecendo aulas de psicomotricidade numa vertente preventiva, sessões de artes marciais adaptadas e acompanhamentos terapêuticos para crianças com necessidades educativas especiais.
Desde sempre que sou apaixonada por movimento e por dar aulas, e com as palavras certas do Nuno fui motivada a começar a dar as aulas dos mais novos e rapidamente descobri o gosto por isso, e agora não me consigo imaginar sem o fazer. Com o tempo, percebi que a psicomotricidade e o Kempo, embora aparentemente distintas, complementam-se, visto que as artes marciais têm um forte potencial terapêutico.

Imagem Erica Aleixo

Beatriz Marques: Atualmente integro a equipa de Marketing de uma rede nacional de hospitais e clínicas prestadoras de cuidados de saúde privados. A minha principal tarefa é a manutenção dos seus sites, bem como, a produção de conteúdos para os mesmos. Eu procurava uma atividade física que me estimulasse também cognitivamente, o que me levou a pesquisar sobre defesa pessoal. O Kempo surgiu na minha vida há aproximadamente 5-6 anos num jantar de Natal, por sugestão do meu tio, que tinha experimentado. A verdade é que gostei tanto que ainda cá continuo. A verdade é que no Kempo encontrei um propósito quando mais precisava. Foi isso que realmente me motivou a avançar com o percurso de treinadora - tentar desbloquear todo o nosso potencial e melhorar a equipa cada vez mais.

Imagem Beatriz Marques

FightNews: No contexto de uma modalidade que, historicamente, tem mais praticantes masculinos, como é que se sentem ao serem mulheres e treinadoras credenciadas em Kempo?

Carolina: Há cerca de 10 anos que pratico a modalidade e recordo-me de ser das poucas mulheres a treinar, mas nunca me fez grande diferença. Hoje em dia penso que existe um pouco mais de igualdade de género e essa diferença já não é tão notória. Cada ano que passa existem mais mulheres a treinar, e mais mulheres a formarem-se como Treinadoras.

Erica: Acho que ser mulher numa modalidade com predominância masculina, traz tantos desafios quanto oportunidades. No início, pode haver um certo preconceito ou dúvida sobre a nossa capacidade, principalmente num ambiente onde os homens são mais visíveis. No entanto, acredito que isso também fortaleceu a minha determinação. Sempre me senti motivada a quebrar quaisquer possíveis estereótipos e mostrar que o Kempo e as artes marciais são para todos, independentemente de qualquer coisa. Posso dizer que cada vez me sinto mais confiante e segura enquanto treinadora. 

Beatriz: É desafiante. Qualquer pessoa, independentemente do género tem os seus pontos fortes, e os seus pontos fracos, e infelizmente os nossos são sempre associados pelos nosso pares como sendo causa do nosso sexo. Mas estamos a trabalhar para alterar esta forma de pensar, esta forma de sermos vistas. Saber que estamos na maioria das vezes em desvantagem tem tanto de frustrante como de desafiante. Pelo menos sei que quando ganho o respeito dos meus pares não é por características dadas ao nascimento, mas sim pelas minhas capacidades enquanto atleta e treinadora.

FightNews: Sentem que ainda existem barreiras ou estigmas a ultrapassar?

Carolina: Sim, penso que mais no contexto das competições a palavra feminina não tem tanto peso quanto a palavra masculina e isso tem que mudar pois somos todos treinadores, com a mesma palavra de decisão. Há que acreditar mais no potencial das mulheres.

Erica: Sinceramente, sim. Por vezes pode não ser intencional, mas penso que ainda temos um caminho para fazer, mas acredito que está a ser feito e os obstáculos a serem ultrapassados. Refiro que o kempo é um desporto inclusivo, mas em certos círculos, apesar de serem pensamentos em declínio, sei que não nos dão o devido valor ou nos subestimam por sermos mulheres.

Beatriz: Sim, e isto aplicasse tanto ao sexo, como à nacionalidade, à idade, às ideologias etc. Mas o desporto não é apenas consequência da nossa cultura/sociedade, também é uma ferramenta para a alterar, para a reescrever. É uma das grandes responsabilidades enquanto treinadora, por vezes se queremos ver as mudanças, temos de ser nós a mudança.

FightNews: Como têm evoluído as mulheres nos desportos de combate, seja como atletas, treinadoras ou árbitras?

Carolina: Como já antes mencionado, a presença feminina tem estado muito mais ativa do que a alguns anos atrás. Lembro-me perfeitamente que até há bem pouco tempo a arbitragem era quase toda masculina, em competição não se viam muitas mulheres credenciadas, ao contrário de hoje em dia. O desporto é para todos e de todos. Tem havido uma grande evolução, muito mais competidoras femininas em todas as disciplinas, desde disciplinas de velocidade, a disciplinas de pleno.

Imagem Carolina Fonseca

Erica: Nos últimos anos, temos assistido a uma evolução significativa da presença feminina nos desportos de combate, o que é muito positivo. Como atletas, as mulheres têm mostrado, cada vez mais, que são tão competentes, fortes e habilidosas quanto os homens. Nos últimos tempos, vejo muitas atletas a conquistar títulos, a superar recordes e a desafiar preconceitos, mostrando que o desporto de combate é  para todos. Além disso, a presença feminina como treinadoras e árbitras também está a crescer, o que é uma mudança muito importante, porque traz uma diversidade de perspectivas para o mundo do desporto. Eu vejo esta evolução como um reflexo da quebra de algumas barreiras culturais e sociais, mas tal como disse, é um caminho que ainda precisa de ser desbravado.

Imagem Erica Aleixo

Beatriz: É uma mais valia sem dúvida. As nossas experiências moldam quem somos e a forma como vemos o mundo. Ou seja, ter uma ótica feminina no planeamento da equipa, dos eventos, das competições é como ter uma arma secreta, nem todos a dominam. Pode ser uma forma de estar um passo à frente, fazendo coisas que ainda não foram feitas, ou de outras formas. Cada vez somos mais ouvidas principalmente pelo o que somos, não porque conseguimos fazer o que os homens fazem, mas por aquilo que conseguimos fazer diferente.

Imagem Beatriz Marques

FightNews: Quais são os maiores desafios que enfrentam enquanto treinadoras na formação dos alunos e atletas?

Carolina: O meu maior desafio enquanto treinadora é cativar os atletas à modalidade, faze-los crescer enquanto seres humanos e atletas. Todos os cerca de 70 alunos que temos são todos diferentes, com capacidades diferentes, personalidades, formas de estar e de ser diferentes, inclusive atletas de Kempo Adaptado. O trabalho é nosso, de conhecer cada atleta que passa pelas “nossas mãos”, todos eles reagem de formas diferentes em competição e temos de os conhecer bem.

Erica: As diferentes personalidades de cada miúdo sem dúvida que é o maior desafio, mas também é o que torna isto engraçado e interessante. Cada atleta tem o seu ritmo e o seu estilo de aprendizagem e enquanto treinadora o meu papel é ajustar a abordagem de ensino para chegar a todos, sem perder a coesão do grupo. É preciso ter em conta que alguns alunos podem precisar de mais apoio técnico, enquanto outros podem precisar de um foco maior no desenvolvimento emocional ou na superação de bloqueios emocionais. Além disso, lidamos com as expectativas e pressões externas que os alunos podem sentir, seja por parte de familiares, colegas ou até de si próprios. Como treinadora procuro criar um ambiente de apoio, onde cada aluno se sinta motivado para ir além dos seus limites de maneira segura e saudável. A chave para lidar com as diferentes personalidades é ouvir, ser paciente e ajustar as estratégias conforme necessário.

Beatriz: Não há uma regra fixa, ou truques estanques. Existe uma enorme necessidade de nos sabermos adaptar, saber sairmos de nós, da nossa realidade e colocar-nos na dos nossos atletas quando eles mais precisam - o dito “calçar os sapatos dos outros”. Mas até mesmo esta forma de atuar tem de ser moderada, trabalhamos com pessoas, que já têm parte das suas crenças e valores definidos. Esse é o grande desafio, identificar o que eles precisam para atingirem o seu grande potencial técnico, mas também emocional. Depois de identificar, é preciso entregar, estar lá e orientar. Mostrar que existe mais no mundo que aquela adversidade, dando-lhes também ferramentas que os tornem independentes, para poderem ultrapassar os conflitos, até mesmo quando um treinador deixa de estar presente - autonomia emocional, responsabilidade afetiva, gestão de stress, entre outras.

FightNews: O que mais gostam no processo de ensinar Kempo?

Carolina: É gratificante ver a evolução de todos eles, o crescimento dentro da modalidade. Enquanto Treinadora, não há nada melhor do que ver eles a fazerem um excelente trabalho dentro do tatami, é sinal que o trabalho de “casa” está a ser bem feito e os ensinamentos estão a ser passados da melhor forma. Quando começam desde pequeninos é extraordinário a evolução, quer a nível técnico, quer a nível pessoal. Temos vários atletas que foram recomendados a fazer artes marciais e a melhoria a nível pessoal e notório, muitos ao início não gostam tanto e depois torna-se numa paixão e não querem mais sair. 

Imagem Carolina Fonseca

Erica: O que mais gosto no processo de ensinar Kempo é a oportunidade de ver os alunos a evoluírem, tanto a nível técnico, quanto pessoal. O que me dá mais satisfação é perceber como a arte marcial vai além da técnica, ela molda a personalidade das crianças, fortalecendo a sua autoconfiança, disciplina e resiliência, algo que é visível em todos os contextos e nos mais novos é muito notório pelo comportamento e desempenho escolar. O Kempo é uma jornada de autodescoberta, e ser parte dessa transformação é gratificante. É ótimo ver os miúdos a superarem os seus limites, tanto no tatami quanto na vida. Ser treinadora vai além de qualquer componente técnica, numa aula formamos kempocas mas essencialmente pessoas, que procuro e promovo a que sejam seguras de si, completas e capazes de enfrentar vários desafios.

Imagem Erica Aleixo

Beatriz: A evolução, as mudanças. Adoro recordar-me de como o atleta era quando chegou, e o que conseguiu atingir até aquele momento. Nomeadamente, gosto de refletir com eles tudo o que eles julgavam que nunca iriam conseguir, porque não eram bons o suficiente. Aí, é quando entra o treinador e ensina a palavra “ainda” - “ainda não és suficientemente bom, mas poderás ser, se assim o quiseres e estiveres disposto a atuar nesse sentido”. É gratificante ver as alterações na confiança de um atleta, em mim, no meu trabalho, mas também a auto-confiança. Uma não existe sem a outra na verdade.

Imagem Beatriz Marques

FightNews: Como o Kempo pode contribuir para o bem-estar mental e emocional dos praticantes?

Carolina: O kempo transmite disciplina, responsabilidade, entre-ajuda entre outros valores sociais importantes e que devem de ser transmitidos enquanto novos. Não só falando dos mais pequenos, mas também dos atletas mais velhos, onde cada vez temos mais procura, não só para treinar mas também para competir. 

Erica: O kempo tem vários princípios e partir desses podemos passar vários ensinamentos que são importantes para o bem estar de qualquer um, em qualquer altura da sua vida. Ou seja,  ao aprender a controlar o corpo e a mente, as crianças adquirem uma maior capacidade de lidar com o stress, tornam se mais resilientes, confiantes, focadas, persistentes e disciplinadas. Assim sendo as artes marciais contribuem para um estado mental mais forte, mais focado e mais equilibrado.

Beatriz: O kempo é uma ferramenta incrível na gestão das frustrações. Atualmente parece que é cada vez mais difícil as crianças e jovens ouvirem a palavra “não” ou derivadas. Um jovem que sabe gerir as suas próprias frustrações, não será um adulto infeliz. A vida adulta está pronta para nos dar uma coça, e por vezes sem luvas. Temos de nos saber defender, mas também a esquivar a relativizar o que não importa tanto, e priorizar o que realmente importa. Treinar e competir são estranhamente paralelos à nossa vida profissional, por exemplo. Treinamos, investindo nas nossas carreiras, vamos a competição quando as oportunidades de ascender surgem. Podemos sair de lá com ouro, mas também podemos sair sem medalha e temos de saber lidar com o que não correu bem, para melhorar e tentar de novo. Quase que memória muscular emocional, transferida do kempo para o mercado de trabalho.

FightNews: Que legado gostariam de deixar enquanto treinadoras e educadoras desportivas? Como gostariam de ser lembradas pelos seus alunos e pela comunidade?

Carolina: Gostaria de ser lembrada por todos os alunos que já quiseram desistir e não desistiram pelas palavras que foram transmitidas, pela força que foi dada. Mais tarde que pensem: aquela treinadora marcou-me pela forma de ser, pela maneira que transmitiu toda a técnica e ideias, por todas as vezes que pediu para fazer mais e melhor e graças a isso serem melhores atletas, futuros treinadores. 

Erica: O legado que quero deixar, é que percebam que tentei fazer de tudo para que estas crianças fossem felizes e a praticar este desporto. Que devem de acreditar sempre que o que queremos conseguimos. E que daqui são feitas grandes pessoas.

Beatriz: Das perguntas mais difíceis de responder, sinceramente. Não ambiciono muito, apenas que me recordem com carinho. Que embora humana, fui justa e íntegra, fui reflexo dos valores defendidos pela nossa modalidade.

FightNews: Para finalizar, com o fim do ano a aproximar-se, que mensagem gostariam de deixar aos seus alunos e à comunidade do Kempo?

Carolina: Desde já desejar um feliz ano a todos os atletas, treinadores e ao resto da comunidade de Kempo. 
Foi um ano cheio de desafios, vitórias, derrotas, alegrias e tristezas, mas não deixar de mencionar que nós Treinadores sem eles atletas não somos nada. Todas as nossas vitórias enquanto treinadores é graças a eles! Um obrigado por serem os melhores alunos que um treinador pode pedir.

Erica: Este ano foi sem dúvida um ano de sucesso para nós, equipa. Os “meus”kids sabem e querem que para o ano de 2025 se faça igual ou ainda melhor.  Por isso a mensagem que quero passar a todos é que o caminho é em frente e que se faz com trabalho e dedicação. Não posso deixar de agradecer, porque termino este ano com um sentimento de dever cumprido para com os meus alunos e para com a minha equipa, mas para ano os objetivos são outros e a vontade de aprender e ensinar são ainda maiores. Que o próximo ano seja repleto de novas conquistas, desafios superados e momentos de união. Que todos Continuem a trilhar o caminho com perseverança, disciplina e respeito.

Beatriz: Relembrar que no kempo existe espaço para todos brilharem.