Maria Salomé Lobo, uma das mais talentosas atletas de Muay Thai em Portugal, partilhou connosco um pouco da sua trajetória e da preparação para o seu próximo seminário com a Rosário Team no próximo dia 23 de novembro, em Cascais. Nesta entrevista, fala sobre o seu início no desporto, a superação de desafios e as expectativas para o futuro.
FightNews: O que a inspirou a começar a treinar Muay Thai e, mais tarde, a tornar-se uma atleta profissional da modalidade?
Maria Lobo: Na realidade, nada me inspirou a começar a treinar Muay Thai. Foram os meus pais quem me inscreveu. A violência estava a aumentar nas escolas e eles quiseram que eu aprendesse a defender-me a sério. A parte de atleta profissional acabou por surgir naturalmente. Eu treinava por hobby e um dia o meu mestre desafiou-me a combater. Nunca tinha pensado em combater, mas queria saber até que ponto seria capaz de pôr em prática o que aprendia nos treinos.
Na primeira vez que combati, a sensação de superação daquilo que acreditava serem os meus limites foi o que me fez querer voltar a subir a um ringue. Sentir que cada combate era uma luta entre o que eu pensava ser e o que realmente conseguia ser. Aos 18 anos fui diagnosticada com depressão crónica (termo que não é utilizado atualmente).Todos os dias eram uma batalha constante com aquela voz na minha cabeça, que dizia que eu não valia nada, nunca iria valer nada e não fazia sentido sequer tentar valer. Descobri que sempre que o combate terminava eu conseguia ter paz porque essa voz se calava. Eu tinha dado tudo de mim em cima do ringue, e ela ficava sem argumentos que pudesse usar para me destruir, ainda que por escassos momentos.
Foi a procura desse silêncio interior que me fez querer subir ao ringue uma e outra vez, os anos passaram e a minha carreira foi-se construindo como consequência.
FightNews: Como foi a experiência de se tornar a primeira portuguesa a assinar contrato com o GLORY? Quais desafios encontrou ao entrar numa das organizações mais prestigiadas do mundo?
Maria Lobo: Foi incrível! Sempre disse que não queria acabar a minha carreira sem assinar contrato com uma das grandes organizações de eventos de luta e ter conseguido entrar para o Glory foi o culminar de um sonho.
Em 2018, estava em casa à noite quando percebi que não conseguia mexer a metade direita da minha cara. Fui a correr para o hospital onde me diagnosticaram paralisia facial, derivada provavelmente de uma quebra no meu sistema imunitário. Um dia depois fui ter com o meu primo, médico especializado no desporto, e após alguns exames, informou-me que tinha entrado em overtraining. Explicou-me o que podia esperar e avisou que provavelmente mesmo após recuperar não iria voltar a ter a mesma performance. Fiquei revoltada, toda a minha dedicação e esforço tinham levado o meu corpo ao limite e, para quem não sabe, o overtraining não tem um período específico de recuperação. Depende do atleta e do quão bem ele gere essa recuperação.
Os meus treinos passaram a ser apenas 3 rounds de saco calminho, ou um treino técnico muito suave… uma sombra com 1 round de paos para mim já era um luxo. Aos poucos fui conseguindo aumentar a intensidade, mas sempre limitada e sem grandes esforços. Foi assim durante 1 ano e pouco. Um dia chego ao ginásio e a Dina informa-me que tinha surgido uma oportunidade única, essa oportunidade era o contrato com o Glory. Contudo, havia uma condição para assinar, tinha de combater em menos de 1 mês e meio. Eu não sabia em que ponto de recuperação o meu corpo estava e se ia aguentar o aperto que teria de sofrer para estar pronto para voltar aos ringues nesse curto período de tempo.No entanto, todos sabem a decisão que tomei. Dia 28 de Outubro lá estava eu, em êxtase por estar no Glory e voltar a entrar no ringue depois de 1 ano e meio afastada.
Portanto, o único desafio foi mesmo ter tido apenas 1 mês e meio de preparação para o combate.
Imagem Facebook
FightNews: Quais são as suas principais expectativas para o seminário com a Rosário Team? Há algum tema ou técnica específica que gostaria de abordar com os participantes?
Maria Lobo: Nunca fui uma atleta com um jogo muito variado e cheio de truques na manga. A minha principal característica era adaptar-me à minha adversária e inverter-lhe o jogo, e para isso usava técnicas simples, mas eficazes. É isso que vou passar no seminário: ter um jogo simples pode trazer muitas vantagens.
FightNews: O que os participantes podem esperar deste seminário?
Maria Lobo: Quando ainda estava mesmo no começo, a Dina disse-me uma coisa que me fez entender porque falhava tanto: “O teu problema não é falta de variedade de técnicas, é não saber como nem quando as usar”. A partir daí passei a tentar aprender qual o propósito de cada técnica e em que situações deve ser aplicada.
Por isso, podem esperar um seminário onde não vão apenas aprender técnicas mas também toda a sua razão de ser.
FightNews: Para quem é direcionado este seminário? É destinado a iniciantes ou atletas mais experientes?
Maria Lobo: O seminário é para todo o tipo de praticantes, sejam iniciados que queiram aprender novas coisas, sejam profissionais que procurem apenas alguns pormenores técnicos. Só não recomendo a praticantes que treinem mesmo há pouco tempo porque vão haver pormenores técnicos que não irão conseguir fazer e podem frustrar-se. No entanto, se não se preocuparem com isso, serão sempre bem vindos e irei tentar ajudar ao máximo em tudo o que for possível.
FightNews: Para finalizar, qual é a mensagem principal que gostaria que os participantes levassem consigo após o seminário?
Maria Lobo: No fundo, quero que percebam que treinar Muay Thai é uma jornada sem fim, nunca iremos saber tudo e isso é o que o torna um desporto tão fascinante. Há sempre algo a aprender e a aperfeiçoar e o segredo está em desfrutar do processo. É importante manter o foco em objetivos e metas, mas nunca nos podemos esquecer de aproveitar cada momento e de transformar a frustração, de algo que não está a correr como queremos, em motivação.
A beleza do Muay Thai está em mostrar-nos que muitas barreiras estão na nossa cabeça e que todos acabamos por alcançar coisas que julgámos não ser capazes, seja dar 20 circulares seguidos, sobreviver a um round de aceleração ou subir ao ringue com x atleta.
Temos apenas de esquecer comparações e focar-nos em nós, aceitando que cada um leva o seu tempo, mas eventualmente todos ultrapassamos os nossos limites
Imagem Instagram
Maria Salomé Lobo: Inspiradora e determinada, a atleta portuguesa continua a superar limites e a motivar novos praticantes do Muay Thai.