Sábado, 25 de Julho de 2026
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Entrevista com Jos Mendonça: O Brasileiro que Fez História no Muay Thai Tailandês

Adaptação, Disciplina e o Amor pelo Muay Thai: O Caminho de Jos Mendonça

Redação
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
15/10/2024 às 13h46 Atualizada em 22/10/2024 às 11h57
Entrevista com Jos Mendonça: O Brasileiro que Fez História no Muay Thai Tailandês
Imagems cedidas Jos Mendonça

Jos Mendonça é um respeitado lutador e treinador de Muay Thai brasileiro. Ele é conhecido por ser o primeiro estrangeiro a vencer o torneio Rajadamnern na Tailândia, em 2013, no estádio mais antigo de Bangkoc e um dos mais respeitados ringues do planeta. Além de seu sucesso como atleta, ele mora em Bangkok desde 2010 e atua também como treinador e head coach na academia Muay Thai JBase, onde treina novos atletas e promove intercambios com camps de treinamentos para atletas estrangeiros.

FightNews: Jos, pode nos contar como começou sua trajetória nas artes marciais e, especificamente, no Muay Thai? O que o levou a seguir essa modalidade?

Jos Mendonça: Claro! Comecei a minha jornada nas artes marciais muito novo, com cerca de 7 ou 8 anos, em Belém do Pará, Brasil, treinando Karaté. Treinei Karaté até aos 17 ou 18 anos, e ao longo desse período experimentei outras modalidades, como Taekwondo e Judo. Aos 18 anos, comecei a treinar Muay Thai e, ao fim de um ano de treino, já estava competindo

FightNews: Como foi o processo de adaptação quando decidiu mudar-se para a Tailândia em 2010? Quais foram os maiores desafios de viver, treinar e lutar em Bangkok?

Jos Mendonça: A primeira vez que vim a Tailândia foi em 2009. Estava no último ano da universidade no Brasil e decidi que queria experimentar treinar aqui. Fiquei dois meses, lutei, e voltei ao Brasil para terminar os estudos. Mas já sabia que queria regressar. Quando voltei em 2010, o principal desafio foi adaptar-me aos treinos intensos. Na Tailândia, o ritmo é muito mais puxado: treinos de manhã e à tarde, corridas longas, muitas rodadas no saco, clinch... Isso foi exigente. A comida também foi um obstáculo. No Brasil, eu estava habituado a comer muita carne, mas na Tailândia, quase todos os dias era frango e ovos, o que foi uma grande mudança para mim.

FightNews:  Ser o primeiro estrangeiro a conquistar um título no estádio histórico Rajadamnern é um feito extraordinário. Pode compartilhar como foi essa experiência e o que significou para sua carreira?

Jos Mendonça: Essa oportunidade surgiu um pouco por acaso. Lutei pela primeira vez no Rajadamnern em 2012, pelo título dos 69 kg, mas acabei por perder. No ano seguinte, tive outra oportunidade, desta vez na categoria de 66,6 kg, e consegui vencer. Na altura, o treino era tão intenso que já nem importava se a luta era pelo título ou não. Estava totalmente focado. Só depois, com o reconhecimento que veio após a vitória, é que percebi a magnitude do feito. Muitas pessoas, tanto tailandesas como estrangeiras, vieram dar os parabéns. Foi uma grande honra, especialmente porque, naquela época, o Muay Thai não tinha a mesma visibilidade que tem hoje.

FightNews: O Muay Thai é uma modalidade profundamente enraizada na cultura tailandesa. Como foi aceito e reconhecido nesse cenário tão competitivo, sendo um lutador estrangeiro?

Jos Mendonça: Na minha opinião, o respeito aqui na Tailândia não depende tanto de ser estrangeiro ou tailandês, mas sim da atitude e do caráter do lutador. Humildade, respeito e lealdade são fundamentais. Se você for leal à sua academia, treinador e promotores, honrando os compromissos e mostrando ser digno de confiança, as portas se abrem. A Tailândia valoriza muito essa lealdade, e isso faz toda a diferença.

FightNews: Ao longo da sua carreira, quais foram os combates mais marcantes e os maiores obstáculos que tiveste que superar? Como essas experiências moldaram a sua mentalidade como lutador?

Jos Mendonça: Um dos momentos mais marcantes para mim foi a preparação para a minha primeira luta pelo cinturão no Rajadamnern. Treinei intensamente, mais do que alguma vez tinha feito. Foi um período muito difícil. Lembro-me de estar sempre cansado, sem nunca me sentir completamente recuperado. Mas isso me ensinou uma lição importante: nem sempre estaremos a 100%, mas o compromisso e a consistência são o que realmente importam. Essa experiência moldou a minha mentalidade e fez-me entender que, independentemente das situações, temos de cumprir com o nosso dever e enfrentar os desafios. Acordar e ir a academia, mesmo em dias mais difíceis.

FightNews: Tem cada vez mais atletas portugueses a procurar a Tailândia para evoluir no Muay Thai, como é o caso de Hugo Braga, da equipa Tropa do Thai, dos Açores, que tem treinado convosco. Qual é a sua opinião sobre o nível técnico dos atletas portugueses que treinaram em Tailândia?

Jos Mendonça: O Hugo tem treinado connosco e tem um bom nível. Embora ainda não seja um lutador profissional, treina de igual para igual com os outros atletas na academia. Ele faz clinch, sparring e aguenta o ritmo dos treinos. Acho que os atletas portugueses podem aprender muito em Tailândia, especialmente a forma como aqui se julgam os combates. Pequenos detalhes decidem uma luta, e esse conhecimento pode ser muito útil para maior entendimento do muay thai, dos detalhes que fazem a diferença.

FightNews: Como vê o complemento de atletas portugueses em Tailândia? O que você acha que pode ser feito para melhorar e aumentar esse intercâmbio?

Jos Mendonça: O intercâmbio é muito positivo e tem crescido. Tal como aconteceu com o Brasil, que melhorou muito no Muay Thai ao enviar atletas para a Tailândia, acredito que o mesmo pode acontecer com Portugal. O caminho é simples: os atletas têm de vir para cá com frequência, treinar, lutar e aprender. Não se trata apenas de ganhar ou perder, mas de estar em constante evolução. Não tem caminho curto. É treinar, ver muitas lutas ao vivo e entender a lógica dos combates também é crucial. Aos poucos, os portugueses que treinam aqui vão absorvendo o conhecimento e adaptando-se ao estilo.

FightNews: Depois de tantos anos no esporte e com uma carreira tão bem-sucedida, o que o motiva a continuar?

Jos Mendonça: O que me motiva é saber que ainda tenho muito para aprender e para partilhar. O Muay Thai é uma arte em constante evolução e há sempre novos desafios. Eu só quero continuar. Eu gosto da sensação de luta, de subir no ringue, aquela tensão. Eu gosto muito daquilo. É um vício, sabe? E eu quero aproveitar agora que o meu corpo ainda aguenta, tenho 38 anos. Então, o meu corpo ainda consegue aguentar ainda alguma coisa, eu quero aproveitar pra tentar lutar ainda esse ano, ano que vem, esses próximos dois, três anos e tentar fazer o que eu ensino na academia. Quero me tornar um treinador melhor também. Conseguir falar com mais propriedade das coisas que eu vou ensinar para os alunos vem treinar. Então a questão não é mais de sonho, não tenho mais sonho nenhum, tenho o objetivo de continuar lutando e melhorando. Só isso. Não é a questão de cinturão ou de ser campeão de alguma coisa, não. É mais melhorar eu mesmo, sabe? Eu conseguir fazer a técnica certa, postura certa, chutar certo, vencer da forma certa, ter a técnica certa. A questão é essa. Não é mais eu contra o outro,sou eu contra mim mesmo. Além disso, ver os atletas que treinam a crescer e alcançar seus objetivos é extremamente gratificante. 

FightNews: Para finalizar, que mensagem gostaria de deixar aos portugueses que têm interesse e vontade de fazer camps na Tailândia para aprimorar e evoluir nas técnicas de Muay Thai?

Jos Mendonça: Então, meu recado é para a malta vir pra Tailândia, eu recomendo, tipo, vir pra cá, ficar pelo menos um mês, quarenta dias, pelo menos. Mas se puder ficar mais, é ótimo. Se puder ficar três, quatro, cinco meses melhor ainda.

Recomendo também para virem aqui na minha academia porque quando a gente fala o mesmo idioma, isso faccilita no processo de adaptação. Nem que a pessoa não fique na minha academia, mas que a pessoa venha, fique, sei lá, duas semanas, três semanas, treine um pouco, converse, entenda a lógica do Muay Thai aqui na Tailândia. Pois isso eu acho que vai ajudar muito. Porque na minha época que eu fui treinar na Tailândia, eu tinha uma dificuldade, que era o idioma, então, por exemplo, muita coisa eu vinha aprender só depois que eu aprendi a falar tailandês. Agora sem dúvida, não tem caminho curto, é o que eu falei ainda agora. Tem que vir, ficar, lutar, treinar, lutar, assistir luta, voltar pra casa, estudar. É isso, não tem caminho curto. 

 

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