Krav Maga FPKM
O Impacto do Krav Maga em Portugal: A Trajetória de um Mestre e o Futuro da FPKM
Desafios e Conquistas: A Expansão da Federação Portuguesa de Krav Maga sob a Liderança do Mestre Paulo Pereira.
24/09/2024 10h17 Atualizada há 2 anos
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
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Nesta entrevista, o Mestre Paulo Pereira, presidente da Federação Portuguesa de Krav Maga (FPKM), fala sobre a importância do Krav Maga enquanto arte marcial, destacando o seu papel na defesa pessoal e na formação de valores como disciplina e respeito. Paulo partilha ainda a sua jornada nos desportos de combate, a visão sobre o futuro da modalidade em Portugal, sublinhando o papel crucial da FPKM no desenvolvimento e expansão do Krav Maga a nível nacional, e no apoio contínuo a instrutores e praticantes, contribuindo para o crescimento sustentável do desporto no país.

Em 2024, celebram-se os 20 anos da FPKM, um marco importante na história do Krav Maga no país, e é um enorme prazer poder contar com a visão e experiência de quem tem sido uma figura central no crescimento e na popularização desta arte de defesa pessoal em território nacional.

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FightNews: Fale-nos um pouco sobre o seu percurso, o que o levou a começar a praticar artes marciais e como foi a sua primeira luta?

Mestre Paulo Pereira: Comecei a praticar artes marciais com 15 anos de idade, na altura Full Contact, motivado por um amigo meu da escola. Durante cerca de dois anos, mantivemo-nos os dois na prática, mas ele acabou por desistir e eu continuei. Tive a sorte de ter como mestre o Sr. Carlos Pais, uma pessoa muito técnica e que nos educava com valores como a disciplina, perseverança, humildade, e com um trabalho sempre muito sério, tanto connosco como com os nossos colegas. A minha escola não era muito focada na competição, mas eu sempre tive muita vontade de competir. Passados 4 anos, o meu mestre deixou-me a tomar conta da escola e, depois disso, inscrevi-me pela primeira vez nos campeonatos regionais de Semi Contact em Lisboa. A partir desse ano, não só competia como levava atletas aos campeonatos regionais (que eram inicialmente meus colegas de treino). A vontade de competir era tanta que, durante 5 anos, participei em todas as competições que conseguia (Semi, Light e Full Contact), tendo sido campeão Regional e Nacional em todas as disciplinas por vários anos consecutivos. Depois de participar no Campeonato da Europa de Light Contact e de ter obtido a medalha de bronze, quis avançar um pouco mais e comecei a pensar em fazer uma carreira profissional (na altura era muito difícil viver apenas disso). A nível profissional, já não podia treinar sozinho e precisava de ter um treinador. Bati a várias portas e trabalhei com muitos treinadores da época que tinham atletas em competições profissionais e que me ajudaram a progredir à sua maneira. Trabalhei com mestres como Fernando Fernandes, Augusto Nasser, Julião Santos, António Duarte, e, finalmente, com dois mestres que tiveram um enorme impacto na minha evolução como profissional: o mestre Carlos Ramjanali (também meu promotor) e o mestre Luís Pacheco. Uma das pessoas que mais me ajudou na minha evolução foi o meu parceiro de treino, Francisco Maximiano, conhecido por Max, que já era uma referência nacional no Full Contact e no Kickboxing.

A nível profissional, dediquei-me apenas ao Full Contact (disciplina que sempre amei pelo seu rigor técnico), e em amador fui 2 vezes campeão Regional e Nacional, e ao transitar para a classe A, fui campeão Nacional por 3 vezes seguidas. Competi 2 vezes pelo título Mundial: uma vez no Brasil, contra Espedito "Pantera Negra" da Silva, aluno de Sérgio Baterelli, tendo perdido por KO técnico ao 7.º assalto; e outra vez em França, contra o então detentor do título, Bernard Merche, tendo perdido aos pontos, numa decisão dividida por 2-1. Alguns combates que me marcaram e que me ajudaram a crescer enquanto atleta foram a vitória no título Ibérico e a vitória sobre um campeão mundial, Simon Gonzalez, num combate de preparação para a sua defesa do título nos Açores, sendo que eu era seu fã incondicional pelo estilo de jogo que apresentava.

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FightNews: Pode contar-nos sobre a sua transição do Kickboxing para o Full Contact e, eventualmente, para o Krav Maga?

Mestre Paulo Pereira: A minha transição do Full Contact para o Krav Maga aconteceu devido a uma decisão forçada de abandonar a competição, quando sofri uma lesão gravíssima durante um combate pelo título Intercontinental. No 5.º assalto, sofri um arrancamento do adutor médio da perna esquerda, o que me impossibilitou de continuar e resultou numa reabilitação que durou mais de 6 meses com fisioterapia diária. Isto aconteceu em 2003 e, após essa reabilitação, algumas portas fecharam-se. Como eu vivia de dar aulas e competir, tive de encontrar uma alternativa. Conheci o Krav Maga em Espanha e fiquei muito interessado no seu sistema. Decidi, então, avançar para uma formação num primeiro estágio intensivo de 7 dias em Madrid.

FightNews: Qual foi o seu percurso no Krav Maga até chegar a presidente da Federação Portuguesa de Krav Maga (FPKM)?

Mestre Paulo Pereira: Em 2004 Iniciei um processo de formação em Paris com mestre Richard Douieb, tendo obtido autorização após a minha formação do curso de Iniciadores para iniciar as aulas em Portugal em sua representação. A partir daí, a ideia de criar-se a Federação Portuguesa de Krav Maga materializou-se, e dessa forma  iniciamos todo o processo de formação da equipa, orgãos sociais e toda uma estrutura do zero. Assumi a função de Presidente da direcção no primeiro mandato dos orgãos sociais, função que ainda hoje tenho.

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FightNews: Fale-nos sobre a FPKM, como está atualmente estruturada, quantas escolas filiadas tem e como tem sido a experiência de gerir a entidade?

Mestre Paulo Pereira: Começar um projecto do zero, traz connosco uma experiência enorme e muita aprendizagem pelo caminho. Todo o processo de dar a conhecer a modalidade por todo o país, em deslocações constantes por várias zonas do país organizando estágios para mostrar o que era o Krav Maga, incentivando outros mestres de outras modalidades que me conheciam do tempo do Kickboxing a investirem na formação de Instrutor. Abrindo várias escolas na região de Lisboa, faze-las crescer em número de alunos, e passando as mesmas para novos instrutores (alunos meus formados para serem instrutores). Seminários de apoio aos novos instrutores para que a parte técnica e pedagógica conseguisse ser o mais fiel e uniforme por todas as escolas, foi um processo de muito tempo e investimento pessoal.
Hoje em dia, a Federação Portuguesa de Krav Maga, tem escolas 42 escolas, com mais de 70 instrutores a trabalhar em conjunto. Temos um calendário anual com muita actividade, quer para os praticantes adultos e para os mais jovens, assim como a continuação do apoio aos instrutores e cintos negros da nossa federação. Só assim conseguimos crescer e manter a qualidade ano após ano para todas as nossas escolas. A gestão de qualquer organização, com uma dimensão como a nossa e sem apoio do estado, é uma tarefa sempre muito difícil, quer em termos organizativos e financeiros. Contudo, é sempre um grande desafio conseguirmos criar as melhores condições quer para os praticantes quer para toda a estrutura técnica ano após ano. Mas esse é o segredo do sucesso, tentar superar o trabalho do ano anterior.

FightNews: E em relação à formação e colaboração com as forças policiais e militares, como o Regimento de Lanceiros nº2 e o Centro de Tropas Comandos, pode falar-nos sobre a importância do Krav Maga nesses contextos e como tem sido essa experiência?

Mestre Paulo Pereira: Em relação à área militar e policial desde muito cedo que percebi que o Krav Maga seria uma mais valia para estes sectores. Mas nem sempre é fácil entrar em sectores como estes dois, principalmente quando existe muita resistência às mudanças ou a trabalhos que venham de organizações civis. Durante vários anos fui a várias instituições mostrar o que era o Krav Maga e quais eram as mais valias na sua pratica. Desde PSP, GNR, COE, Judiciaria, Academia Militar, Algumas unidades do Exército, Comandos e diferentes departamentos de investigação criminal onde eu estive presente e, em alguns deles iniciamos mesmo o trabalho. De realçar, no Instituto Superior de Policia, na Academia Militar, no Regimento de Lanceiros e nos Comandos.
Foi no Regimento de Comandos que tenho nos últimos anos, desde 2010, dedicado a desenvolver o trabalho, quer ao nivel da introdução da formação básica do militar Comando, quer na criação da figura de Instrutor Militar de Krav Maga. Hoje somos a única entidade de Krav Maga a ser reconhecida pelo Exército Português para dar formação de instrutor Militar de Krav Maga. Já formamos mais de 30 instrutores militares e estamos presentes em 11 unidades do Exercito Português a nível nacional. Todo este projecto é para mim uma realização pessoal, pois desde 2011 que iniciei o primeiro trabalho com o Regimento de Comandos na preparação de um contingente para o Afeganistão, que o faço pro-bono. É para mim a minha contribuição à nação, com o meu conhecimento e tempo que dedico para termos militares mais bem preparados.

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FightNews: Quais são as principais diferenças e adaptações necessárias ao ensinar Krav Maga a diferentes públicos, como civis, forças policiais e militares?

Mestre Paulo Pereira: O ensino do Krav Maga para os diferentes públicos prende-se sempre com a aplicabilidade que cada um pode ter e as suas próprias restrições. Para o civil, temos que saber enquadrar a legitima defesa no enquadramento civil do código penal, não esquecendo que isto é uma ferramenta para salvar a vida da vitima e de terceiros. Para a parte policial, quer ao nível da sua actuação e dos próprios cenários em que se encontram, mas também enquadrado com o que é permitido por lei nas actuações em caso de actuação fisica e de defesa pessoal. Ao nível militar, o trabalho tem objectivos muito específicos, pois se por um lado a condição de tornar um militar mais completo com  as ferramentas de curta distancia, por outro lado a condição psicológica a que deve estar sujeito é muito diferente. A preparação de um militar para a intervenção de corpo a corpo, tem por si só uma componente mental e um mind-set muito distinto. E é por isso que não podemos juntar tudo no mesmo trabalho e saber distinguir as diferentes componentes tecnicas, tácticas e emocionais de cada area.

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FightNews: Quais são os principais valores e princípios que procura transmitir aos seus alunos, instrutores e simpatizantes do Krav Maga?

Mestre Paulo Pereira: Existe um conjunto de valores que defendemos dentro da nossa organização que tentamos incutir e preservar nos nossos alunos, Integridade, Humildade e Respeito pelo próximo são 3 dos pilares fundamentais para sermos melhores pessoas e estarmos preparados para qualquer adversidade do nosso dia a dia.
Estar dentro da FPKM é estar dentro de uma família que se deve respeitar a ela própria para depois conseguir respeitar os outros.O trabalho com os nossos instrutores é algo que leva tempo e naturalmente nem todos se enquadram nos valores que defendemos, mas se o trabalho for bem feito com os nossos instrutores, sabemos que estamos a investir nos nossos praticantes.

FightNews: Qual é a importância dos seminários, estágios e treinamentos para os alunos e atletas das escolas filiadas à Federação Portuguesa de Krav Maga?

Mestre Paulo Pereira: Tem diversas valências, podia ser só mais um momento de treino, mais umas horas de pratica mas não é! Os seminários, os estágios organizados pela Federação dirigidos por mim e pelo departamento técnico nacional, tem objectivos mais alargados, pois é aqui que fortalecemos o espirito de grupo e inter-ajuda, e a construção de todos estes valores que passamos em cada escola. 

FightNews: Quais são os próximos eventos e projetos para o futuro? Há algo que já possa antecipar?

Mestre Paulo Pereira: Todos os anos tentamos melhorar cada área da nossa organização, aproveitando as aprendizagens e erros cometidos no passado, no entanto neste momento estamos a desenvolver e aprofundar o novo projecto técnico e pedagógico para as faixas etárias mais baixas dos 6 aos 10 anos - KIDS e doa 11 aos 14 anos - Teens. Este poderá dizer-se que é o projecto mais recente da FPKM, uma forte aposta no novo projecto virado para as necessidades destas idades e para a construção de um ser humano melhor para o futuro.
Quanto aos eventos, temos em marcha a construção de algo de grande dimensão, onde a partilha e a abertura de conhecimento deverá ser uma pratica natural da aprendizagem em qualquer area. Apenas posso dizer que é um projecto internacional e não apenas nacional. Mas sobre isso falaremos mais adiante…

FightNews: Para finalizar, deixe uma mensagem para as pessoas que ainda não conhecem o Krav Maga como técnica de defesa e desporto de combate e que querem ingressar em algum espaço para aprender as técnicas e ter aulas.

Mestre Paulo Pereira: A mensagem é simples, como em tudo na vida, a procura por algo que nos faça ter mais qualidade de vida deve ser uma prioridade (tal como procuramos na nossa vida profissional ou a nivel familiar). 
Treinar Krav Maga é encontrar uma actividade onde possam trabalhar a vossa condição física e melhorar a vossa saude  ao mesmo tempo, e aprender determinadas ferramentas para situações que vos possam ajudar a manter a vossa integridade física e da vossa família salvaguardada. 
Mas vai mais além quando a mesma é praticada para dentro e fora do tatami, de forma a sermos melhores pessoas. Não é vista unicamente como uma actividade desportiva que realizamos ao final do dia, mas sim compreender e trabalhar o vosso instinto e  prevenção, de forma a que nunca seja preciso utilizar o vosso conhecimento em defesa pessoal, e sim saber utilizar  dos conceitos de segurança apreendidos de forma a evitarmos sermos apanhados em situações mais hostis. 
É isto que irão encontrar numa escola de Krav Maga da Federação Portuguesa de Krav Maga.