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Vera Oliveira, instrutora do CBG KEMPO: “O nosso principal objetivo é formar pessoas através do Kempo”.
Em entrevista à Fight News Portugal, Vera Oliveira, instrutora do CBG KEMPO – Clube Benfica Golegã de Kempo, fala sobre o seu percurso nas artes marciais, os desafios de ensinar, a importância da formação dos mais jovens e o trabalho desenvolvido pelo clube. Uma conversa sobre disciplina, superação, educação e os valores que fazem do Kempo muito mais do que uma modalidade desportiva.
02/11/2026 10h57
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
Imagem cedida Vera Oliveira

A ligação de Vera Oliveira às artes marciais começou em 2018, inicialmente através do Kickboxing. Mais tarde, encontrou no Kempo uma modalidade que viria a assumir um papel cada vez mais importante na sua vida, primeiro enquanto praticante e, posteriormente, como instrutora.

Depois de alguns anos dedicados à sua evolução enquanto atleta, surgiu a oportunidade de abraçar um novo desafio: acompanhar e orientar a turma dos Kids do CBG KEMPO. Uma experiência que trouxe novas responsabilidades e uma perspetiva diferente sobre o significado das artes marciais, sobretudo pelo impacto que o treino pode ter no desenvolvimento pessoal e na confiança das crianças.

Com o curso de treinadores de grau I concluído no ano passado, Vera Oliveira continua a investir na sua formação e no trabalho desenvolvido com os alunos, procurando transmitir valores como o respeito, a humildade, o autocontrolo, a responsabilidade e a resiliência.

Nesta entrevista à Fight News Portugal, a instrutora partilha o seu percurso, fala sobre os desafios de conciliar a vida pessoal com as exigências da função e destaca a importância do trabalho desenvolvido pelo CBG KEMPO na formação de atletas e, acima de tudo, de pessoas.

Entrevista | Vera Oliveira – CBG KEMPO

FightNews: Vera, para começarmos, gostaríamos que nos falasse um pouco sobre si, o seu percurso pessoal e a formação que realizou até chegar ao papel de instrutora de artes marciais.

O meu percurso nas artes marciais começou em 2018, no Kickboxing. Mais tarde, depois de uma pausa de alguns meses durante a pandemia, retomei a prática, desta vez no Kempo. Comecei com vontade de experimentar e aprender, sem imaginar a importância que esta modalidade viria a ter na minha vida.

Durante cerca de três anos, fui construindo o meu percurso enquanto atleta, aprendendo, evoluindo e enfrentando os meus próprios desafios. Depois surgiu a oportunidade de iniciar o projeto da turma dos Kids, e essa foi uma etapa muito especial para mim. Passei a ter a responsabilidade de acompanhar as crianças e de contribuir para o seu crescimento.

No ano passado, concluí o curso de treinadores de grau I, um passo importante para aprofundar os meus conhecimentos e desempenhar esta função com maior preparação e confiança.

Hoje, continuo a aprender enquanto praticante e instrutora, com a vontade de dar o melhor de mim a quem treina comigo.

Imagem cedida Vera Oliveira

FightNews: Em que momento percebeu que as artes marciais poderiam representar muito mais do que uma prática desportiva e passar a fazer parte da sua vida de forma permanente?

Tudo começou com um treino para experimentar a modalidade. Gostei, senti vontade de voltar e, aos poucos, fui-me envolvendo cada vez mais. As graduações e a aprendizagem de técnicas que nunca imaginei conseguir executar deram-me motivação para continuar. Cada conquista ajudava-me a perceber que era capaz de ir um pouco mais longe.

Mas o momento que marcou verdadeiramente essa mudança foi o início da turma dos Kids. O Kempo ganhou outro significado quando comecei a acompanhar as crianças, a conhecer as suas dificuldades e a celebrar as suas conquistas.

Ver que aquilo que ensino pode ajudar uma criança a ganhar confiança, a ultrapassar um medo ou a acreditar mais em si própria é muito especial. Foi aí que percebi que o Kempo já ocupava um lugar permanente na minha vida, também pela ligação e pelo compromisso que fui criando com os meus alunos.

FightNews: Ao longo do seu percurso, quais foram os maiores desafios que enfrentou na sua evolução enquanto praticante e, posteriormente, enquanto instrutora?

Enquanto praticante, um dos maiores desafios tem sido lidar com as minhas próprias dúvidas. Há momentos em que penso que não consigo fazer determinada técnica ou corresponder ao que é pedido. Aprender a enfrentar esse pensamento, a tentar novamente e a aceitar que a evolução exige tempo faz parte do meu percurso.

Falar à frente de uma turma e explicar um exercício também foram desafios importantes. Existe sempre a preocupação de me fazer entender e de encontrar a melhor forma de ajudar quem está a aprender. Essa responsabilidade leva-me a procurar melhorar continuamente.

Enquanto instrutora, o maior desafio é manter as crianças atentas, envolvidas e motivadas. Cada uma tem o seu ritmo, a sua personalidade e as suas dificuldades. Por isso, procuro variar os exercícios, encontrar novas formas de ensinar e tornar as aulas dinâmicas, sem perder os objetivos do treino.

Nem sempre é fácil, mas ver uma criança conseguir algo que antes lhe parecia impossível dá sentido a esse esforço e motiva-me a continuar.

Imagem cedida Vera Oliveira

FightNews: Enquanto instrutora do projeto CBG KEMPO, que princípios e valores considera fundamentais transmitir aos seus alunos, tanto dentro como fora do espaço de treino?

Procuro transmitir-lhes os valores que o Kempo também me tem ensinado: o respeito pelo próximo, a humildade, o autocontrolo, a responsabilidade, a resiliência e a confiança em si próprios.

Quero que aprendam a respeitar os colegas, a ouvir, a ajudar e a reconhecer que todos temos capacidades e dificuldades diferentes. Quero também que percebam que errar faz parte da aprendizagem e que pedir ajuda ou voltar a tentar são atitudes importantes para crescer.

Dou especial importância à forma como lidam com a frustração. Numa competição, por exemplo, perder um combate pode ser difícil para uma criança que se esforçou e queria muito ganhar. Nesses momentos, procuro ajudá-la a reconhecer o esforço que fez, a compreender o que pode melhorar e a encontrar vontade de continuar.

O que mais desejo é que estes valores os acompanhem para além do tatami: na escola, em casa e na forma como se relacionam com os outros. Que tenham confiança para enfrentar dificuldades e humildade para continuar a aprender.

FightNews: O Kempo exige disciplina, respeito, dedicação e capacidade de superação. Como procura desenvolver estas qualidades nos atletas e ajudá-los a aplicá-las no seu quotidiano?

Procuro trabalhar essas qualidades nas pequenas situações de cada treino: quando têm de esperar pela sua vez, ouvir uma explicação, respeitar um colega, cumprir uma regra ou repetir um exercício que ainda não conseguem fazer.

Valorizo a evolução técnica, mas também o empenho, a entreajuda e a atitude perante as dificuldades. É importante reconhecer o esforço de quem continua a tentar, de quem ajuda um colega ou de quem consegue controlar a frustração e regressar ao exercício com vontade de melhorar.

Procuro transmitir-lhes que o sucesso também se constrói nesses momentos. Uma medalha tem valor, mas há conquistas muito importantes que acontecem antes da competição: vencer o receio de participar, ganhar disciplina para treinar e aprender a lidar com um resultado menos positivo.

No Kempo Kids, esta aprendizagem tem um peso muito grande. O meu objetivo é que levem para a escola, para casa e para as suas relações a responsabilidade, a confiança e o respeito que desenvolvem nos treinos. Saber que essa aprendizagem pode ajudá-los no dia a dia dá um sentido muito especial ao meu trabalho.

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FightNews: Que impacto teve o Kempo na sua vida pessoal e na forma como encara os desafios, as dificuldades e as responsabilidades do dia a dia?

O Kempo passou a ocupar uma parte muito significativa da minha vida, sobretudo desde que assumi a função de instrutora. A preparação dos treinos, das competições e o acompanhamento dos alunos exigem tempo, atenção e uma grande dedicação.

Isso trouxe mudanças à minha vida pessoal. O tempo para a família, os amigos, os jantares e as saídas tornou-se mais reduzido e, muitas vezes, esses momentos acabam por ficar para segundo ou terceiro plano. É uma parte exigente deste percurso, porque conciliar tudo nem sempre é simples.

Ao mesmo tempo, a responsabilidade de ter crianças a contar comigo faz-me encarar este compromisso com muita seriedade. Quero preparar bem as aulas, encontrar respostas para as suas dificuldades e estar à altura da confiança que depositam em mim.

É um percurso que me desafia a organizar melhor o meu tempo e a procurar equilíbrio. Há um grande investimento pessoal, mas acompanhar a evolução dos alunos dá significado a toda essa dedicação.

FightNews: O que a motiva a continuar a ensinar, a aprender e a investir no desenvolvimento dos seus alunos, mesmo perante as exigências e os desafios que a função de instrutora implica?

A minha maior motivação é vê-los crescer e evoluir. Há conquistas que podem parecer pequenas a quem está de fora, mas que, para quem acompanha estas crianças, têm um valor enorme.

Ver uma criança que chegou à turma e mal falava ganhar confiança para orientar o aquecimento, explicar um exercício ou ajudar os mais novos é muito gratificante. Faz-me perceber o caminho que percorreu e tudo aquilo que foi conquistando, treino após treino.

Nas competições, também me marca vê-los enfrentar os seus medos e ultrapassar os próprios limites. Conhecendo as suas dificuldades, consigo perceber o esforço e a coragem que existem por trás de cada participação.

É esse crescimento que me dá vontade de continuar a ensinar e de aprender mais para os poder ajudar melhor. Criamos uma ligação ao longo do tempo, e acompanhar as suas conquistas, tanto no Kempo como na forma de estar, é uma das partes mais bonitas de ser instrutora.

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FightNews: Gostaríamos também de conhecer melhor o projeto CBG KEMPO. Como caracteriza o trabalho desenvolvido pela equipa e quais são os principais objetivos que procuram alcançar através da formação dos praticantes?

O CBG KEMPO procura desenvolver as capacidades técnicas e físicas dos praticantes, dando também uma grande importância à sua formação pessoal. A humildade, o autocontrolo, a responsabilidade, a resiliência e o espírito de equipa fazem parte daquilo que queremos transmitir através do treino.

No Kempo Kids, damos especial atenção à educação através do desporto. Procuramos ajudar as crianças a ganhar confiança, a respeitar os outros, a trabalhar em conjunto e a enfrentar os seus desafios. Queremos que sintam que têm espaço para aprender, errar e voltar a tentar, com o apoio de quem as acompanha.

Com os adultos, procuramos igualmente promover a evolução pessoal, a superação e o gosto pela prática desportiva. Cada praticante chega com os seus objetivos e dificuldades, e queremos que encontre na equipa motivação para continuar a evoluir.

O nosso principal objetivo é formar pessoas através do Kempo. Queremos que cada aluno se sinta parte da equipa, tenha orgulho no seu percurso e leve para o dia a dia os valores que aprende no tatami.

Os resultados competitivos são importantes e representam muito trabalho, mas o sucesso do projeto também está na confiança que um aluno ganha, na dificuldade que consegue ultrapassar e nos laços que vamos construindo. É nesse crescimento que encontramos uma parte essencial do sentido do CBG KEMPO.

FightNews: Na sua perspetiva, como caracteriza o momento atual do Kempo em Portugal? Considera que a modalidade tem conseguido conquistar maior visibilidade e reconhecimento junto do público e das instituições desportivas?

Na minha perspetiva, o Kempo em Portugal tem vindo a crescer e a afirmar-se gradualmente. A participação em competições, a realização de eventos e o trabalho desenvolvido pelos clubes, atletas e treinadores têm contribuído para dar a conhecer a modalidade.

Ainda assim, sinto que existe um caminho a percorrer para alcançar maior visibilidade e reconhecimento junto do público e das instituições desportivas. Há muita dedicação envolvida neste trabalho, e é importante que essa dedicação seja conhecida e valorizada.

Acredito que a divulgação deve mostrar os resultados desportivos e também o trabalho que se faz diariamente nos treinos: a forma como se acompanha uma criança, se desenvolve a confiança de um praticante e se ensina a enfrentar as dificuldades com respeito e perseverança.

Gostava que mais pessoas tivessem a oportunidade de conhecer o Kempo e de compreender o impacto que pode ter na vida de quem o pratica. Acredito que, com o empenho de todos os envolvidos, a modalidade poderá continuar a crescer e a conquistar um lugar cada vez mais relevante no desporto nacional.

FightNews: Para terminar, que mensagem gostaria de deixar a todos os praticantes, instrutores, treinadores, dirigentes e famílias que fazem parte da comunidade de Kempo em Portugal?

O Kempo é muito mais do que uma arte marcial ou um desporto. É uma escola de vida, de superação e de valores, onde aprendemos a acreditar nas nossas capacidades, a respeitar os outros e a encontrar força para continuar, mesmo quando surgem dificuldades.

A todos os praticantes, instrutores, treinadores, dirigentes e famílias, gostaria de deixar uma mensagem de união e de reconhecimento. Cada um tem um papel importante neste caminho: quem treina e se dedica, quem ensina e acompanha, quem trabalha para criar oportunidades e quem está presente para apoiar. É com esse contributo de todos que a nossa comunidade pode continuar a crescer. Que continuemos a crescer juntos, a valorizar o esforço de cada praticante e a formar melhores atletas e, acima de tudo, melhores pessoas.

Que nunca percamos o respeito, a humildade e a vontade de ajudar quem está ao nosso lado, porque aquilo que aprendemos no tatami ganha ainda mais valor quando o levamos para a vida. A quem ainda não conhece o Kempo, deixo um convite sentido: venham experimentar. Foi assim que o meu percurso começou, com um primeiro treino, sem imaginar tudo o que viria depois. Gostava que mais pessoas tivessem a oportunidade de descobrir o que esta modalidade pode trazer às suas vidas.