No MMA existe uma ideia que parece simples, mas que, na realidade, provoca muitas dúvidas: se uma técnica é permitida, então pode ser utilizada em qualquer momento.
E não é bem assim, porque uma técnica pode ser perfeitamente legal no MMA e, ainda assim, transformar-se numa falta, dependendo de onde, quando e como é executada. É uma das diferenças entre conhecer algumas técnicas de MMA e compreender verdadeiramente as regras da modalidade.
Um murro, por exemplo, é uma técnica legal e que faz parte da essência do MMA. Mas isso não significa que qualquer murro possa ser aplicado em qualquer situação. Um ataque realizado depois de o árbitro ordenar a paragem do combate é uma falta. Um golpe desferido durante um time-out, depois do fim do assalto ou quando o adversário está sob intervenção do árbitro ou do médico também pode constituir uma infração. O mesmo acontece quando o golpe é dirigido aos genitais, à nuca ou à espinha dorsal, zonas em que os ataques não são permitidos.
O problema, portanto, não está necessariamente na técnica, mas no contexto. O mesmo acontece com outras ações.
Uma queda é uma técnica perfeitamente legítima no MMA, mas determinadas formas de projeção, como spiking, pile-driving ou determinadas quedas de cabeça, são proibidas. Nos escalões dos Youths, estas técnicas estão condicionadas, não sendo permitido executar o suplex. Uma submissão pode ser legal, mas algumas submissões são proibidas em determinados escalões. Um pontapé pode ser permitido, mas o alvo, o momento ou a posição do adversário podem tornar esse mesmo movimento ilegal. Até um golpe que atinja uma zona proibida pode não significar automaticamente que existiu intenção de cometer uma falta. As regras distinguem situações diferentes e cabe ao árbitro avaliar aquilo que aconteceu.
Imagem cedida João Vitor Costa
Um exemplo particularmente interessante está nos ataques aos olhos. O eye poke é uma falta, mas um golpe legal que contacte com a zona orbital não é automaticamente considerado uma tentativa de atacar os olhos.
Começamos a entender a verdadeira dificuldade da arbitragem. O árbitro não está simplesmente a reconhecer técnicas; está constantemente a interpretar ações dentro de um contexto.
É por isso que duas situações que, para quem está a assistir de fora, parecem semelhantes podem ter decisões diferentes. O árbitro tem de perceber o que aconteceu, em que momento aconteceu, qual foi o alvo, qual era a posição dos atletas e, quando aplicável, se existiu intenção.
Outro exemplo muito claro são os dedos esticados em direção à cara. Manter os dedos apontados para os olhos de um adversário é uma falta, mas o problema não é simplesmente ter a mão aberta. O regulamento procura prevenir uma situação perigosa e determina como o atleta deve posicionar os dedos quando procura medir a distância.
E há ainda uma camada adicional: as regras podem mudar de acordo com o escalão. Aquilo que é permitido num determinado nível pode continuar proibido noutro. Nos Youths, por exemplo, não são permitidos golpes à cabeça ou à face em nenhum dos escalões, e existem várias técnicas adicionais proibidas para proteger os atletas em formação.
Imagem cedida João Vitor Costa
Por isso, dizer simplesmente que uma técnica é "legal ou ilegal" é, muitas vezes, demasiado simplista. A pergunta certa é outra: "É legal nesta situação?" Essa pequena diferença muda completamente a forma como devemos olhar para o MMA.
O espectador vê um murro, uma queda ou uma submissão. O árbitro precisa de ver muito mais. Precisa de saber se aquela ação está prevista nas regras, se o alvo é permitido, se o momento é legal, se a posição dos atletas altera a regra e se existe alguma circunstância que transforme uma ação legítima numa falta.
É precisamente por isso que a formação de um árbitro não pode limitar-se a decorar uma lista de faltas. Por isso, em Portugal, procura-se incluir nas formações situações práticas, análise de faltas e cenários de combate, porque conhecer a regra é apenas o primeiro passo. É necessário saber aplicá-la quando tudo acontece em segundos.
Imagem cedida João Vitor Costa
No final, talvez esta seja uma das maiores diferenças entre assistir a MMA e compreender a arbitragem de MMA. Nem tudo é preto e branco. Uma técnica pode ser legal e a mesma técnica pode ser uma falta. E, muitas vezes, a diferença está num segundo, num movimento ou simplesmente no contexto em que aconteceu.
Porque, no MMA, não basta saber o que é permitido: é preciso saber quando deixa de ser permitido.