O nome do Grão-Mestre Golden Narany está profundamente ligado à história do Muay Thai no Brasil. Desde o primeiro contacto com a modalidade, em 1979, Wellington Luiz da Silva assumiu o compromisso de estudar, desenvolver e difundir o então denominado Boxe Tailandês, participando de um processo que ajudaria a estruturar a modalidade no país.
Aluno de Nélio Borges, a quem atribui um papel fundamental na sua formação, Narany esteve ligado à criação e consolidação da Academia Naja, à formação de atletas e professores, à organização de competições, à regulamentação da modalidade e à realização de intercâmbios com mestres tailandeses.
Ao longo dos anos, também trabalhou na formação e preparação de atletas brasileiros para competições internacionais e desenvolveu projetos ao lado do Grão-Mestre Artur Mariano. Em 2015, recebeu a graduação de Grão-Mestre Golden, juntamente com Artur Mariano, pelo governo tailandês, com a chancela da World Muay Thai Federation.
Mais recentemente, foi distinguido com a entrada no Hall da Fama e desenvolve o Projeto Muay Thai Origens – Uma Nova Era com o Grão-Mestre Golden Narany, iniciativa que procura resgatar e valorizar a história, a cultura e a filosofia da modalidade no Brasil.
Nesta entrevista, o Grão-Mestre Golden Narany fala sobre as suas origens, a relação com Nélio Borges, a Academia Naja, a evolução do Muay Thai, as experiências na Tailândia, o trabalho com a Seleção Brasileira, a importância da formação e os projetos que pretende levar adiante.
Fightnews: Grão-Mestre Golden Narany, para começarmos pelo princípio: como surgiu o seu contacto com o Muay Thai e o que o levou a apaixonar-se pela modalidade?
Nos anos 70 eu já era praticante e atleta de Taekwondo, treinado pelos grandes mestres Woo Jae Lee e Mestre Kim, no Rio de Janeiro. Já havia conquistado diversos títulos nacionais e interestaduais.
Em 1979, Nélio Borges, precursor do Boxe Tailandês no Brasil, veio de Curitiba em busca de atletas de Taekwondo no Rio de Janeiro, para difundir a nova modalidade desportiva no país.
Num treino realizado no Aterro do Flamengo, eu e Nilo Sérgio, meu sócio na época, encontramos Nélio, que nos convidou para um treino no dia seguinte, a fim de conhecermos a modalidade do Boxe Tailandês.
A princípio, os meus sócios da Academia Naja na época, Nilo Sérgio e Flávio Molina, não demonstraram interesse em aceitar o convite do mestre e conhecer a modalidade. Marquei um encontro com Nélio na Academia Naja e, desde então, iniciei a minha jornada no Boxe Tailandês em 1979.
A partir daí, realizei treinos intensos com o mestre Nélio, em busca de implementar esta modalidade na Academia Naja. Foi necessária muita coragem para apostar numa modalidade desconhecida para a época.
Imagem cedida GM Narany
Fightnews: Quais foram as principais dificuldades que encontrou nos primeiros anos para desenvolver e divulgar o Muay Thai no Brasil?
Foi necessária muita coragem para apostar numa modalidade desconhecida para a época. Eu, que já era campeão de Taekwondo, deixei de ministrar aulas da modalidade para me dedicar exclusivamente ao Muay Thai, interiorizando a cultura, filosofia e técnica, de modo aprofundado e constante.
Em 1979, embarquei para Curitiba pela primeira vez e realizei treino intensivo com o mestre Nélio, firmando o compromisso de difundir o Boxe Tailandês no Rio de Janeiro e no Brasil, sendo fiel a este legado, honrando e valorizando as minhas raízes e o meu mestre.
Em acordo com Nélio Borges, a nomenclatura deveria ser mantida como “Boxe Tailandês”, o que foi prontamente atendido por mim. Esta necessidade de Nélio surgiu devido ao facto de alguns dos seus alunos terem tido a intenção de modificar a nomenclatura proposta por ele, retirando a identidade do seu legado. Essas desavenças entristeceram-no e fizeram-no procurar alguém que, de facto, representasse o legado do Boxe Tailandês, com iniciativa, qualidade técnica e lealdade.
Diante deste compromisso e devido à relação de confiança estabelecida entre mestre e discípulo, por escolha do próprio Nélio, no mesmo ano de 1979, fui diplomado primeiro grau preto do Brasil e nomeado como 001 do Muay Thai no país.
Imagem cedida GM Narany
Nélio escolheu-me para difundir a cultura Thai, oficializar e regulamentar o desporto junto dos órgãos responsáveis, ministrando aulas, realizando treinos e exames e trabalhando intensamente em prol da cultura e filosofia do desporto, de modo supervisionado até ao ano de 1985.
O treino naquela época era muito tradicional, seguindo o estilo da Tailândia, com golpes traumáticos e perigosos. Por isso, a prática exigia responsabilidade e domínio da técnica, mantendo a integridade física dos alunos.
No início dos anos 80, retornei a Curitiba levando o meu aluno Sandro Lustosa e, até então, o meu sócio na Academia Naja, Flávio Molina. O objetivo era que Nélio os avaliasse e graduasse. Sandro Lustosa foi contemplado com o grau azul-escuro e Flávio Molina com o grau preto.
Este foi um momento bastante delicado da história, visto que, após este acontecimento, muitos procuraram ser contemplados com o grau preto, mesmo não cumprindo as diretrizes necessárias — temporização, conduta, parte lúdica, filosófica, educativa e desportiva.
Ocorriam situações em que muitos atletas vinham de outras modalidades, com a mentalidade de outros desportos e não puramente do Muay Thai. Devido a isto e a outros fatores, diversos foram reprovados por mim em exame. Na época, fui interpretado como uma pessoa ingrata. Fui designado por Nélio Borges para avaliar a primeira geração de Muay Thai do Rio de Janeiro e estava apenas a seguir as diretrizes do meu mestre.
Na verdade, eu procurava cumprir o protocolo tailandês com excelência, fugindo da mentalidade da época, baseada em “cair na porrada a qualquer custo”.
Muitos foram contemplados contra a minha vontade, e isso não significa que fossem incapazes, mas apenas que não haviam vivenciado o processo necessário para se tornarem faixa preta no desporto.
Graduei-me em 1979 pelo introdutor do Boxe Tailandês no Brasil, Nélio Borges. No início dos anos 80, como dito anteriormente, Flávio Molina graduou-se com o grau preto e Sandro Lustosa com o grau azul. Com o passar do tempo, o Muay Thai foi ganhando um grande número de adeptos e vieram a ser formados novos faixas pretas, como Eduardo Ramisur, Luiz Alves, Eugenio Tadeu, Marco Ruas, Vandro, Flavinho e Jutu.
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Fui o único que treinou com Nélio Borges o tempo necessário para estar apto, inclusive para avaliar todos os atletas citados como primeira geração do Muay Thai: Luis Alves, Chaeppe, Eduardo Rami, entre outros.
Os alunos contemplados por mim foram, de facto, aqueles que se dedicaram o suficiente para conquistar a sua graduação, como acordado com o mestre Nélio Borges.
Mas, infelizmente, nesta época, alguns conquistaram a faixa preta basicamente por serem lutadores de Vale-Tudo. Poucos se intitulavam do Boxe Tailandês, passando a criar nomenclaturas ou estilos próprios e enfraquecendo a identidade do desporto.
Independentemente desta situação, permaneci fiel ao conselho do mestre Nélio, dando sequência aos eventos que fortaleceram e estruturaram a modalidade Boxe Tailandês no país.
A procura por aulas de Boxe Tailandês aumentava. Devido ao facto de os golpes serem altamente contundentes, houve um conflito com o Conselho Nacional de Desportos (CND) e, assim, existiu a necessidade de adaptação do desporto no país.
Para regulamentar e oficializar o desporto no Brasil, em 1983, procurei o advogado Carlos Couto e o presidente da Confederação de Pugilismo (CBP), o Sr. Luiz Alberto Vasconcelos, para que me orientassem sobre como regulamentar o Boxe Tailandês Amador no Brasil.
Apresentei o meu diploma de faixa preta de Muay Thai e documentos que comprovavam que tinha capacidade técnica para introduzir e regulamentar a nova modalidade no Brasil.
Na época, Luiz Alberto Vasconcellos explicou-me que, no futuro, os desportos teriam as suas próprias federações e que o desporto Muay Thai, para ser regulamentado, teria de ser algo muito desportivo, didático, com metodologia prática e que pudesse ser praticado por crianças, jovens, mulheres e até mesmo idosos.
Para isto, criei uma série de regras e adaptações, com o objetivo de que o desporto pudesse ser praticado no país. Inclusive, o nome Muay Thai foi trocado para Boxe Tailandês Amador.
Com a documentação pronta, encaminhei-a ao Conselho Nacional de Desportos (CND). Na época, encontrei-me com o presidente Manuel Gomes Tubino que, ao analisar a regulamentação e os objetivos deste novo desporto — Boxe Tailandês Amador —, ofereceu total apoio.
Deste modo, fundei a primeira Associação de Boxe Tailandês Amador do estado do Rio de Janeiro e orientei a fundação das demais Associações de Boxe Tailandês Amador naquele estado.
Com diversas associações de Boxe Tailandês Amador, também foi fundada a primeira Federação de Boxe Tailandês Amador do Estado do Rio de Janeiro.
Naquela época, toda esta estrutura foi estabelecida para que o Boxe Tailandês Amador pudesse ser reconhecido como desporto.
Entre 1979 e 1983, organizei diversas competições de Muay Thai no Rio de Janeiro.
A primeira competição de Muay Thai no Rio de Janeiro foi realizada em 1982, na Academia Lagoa Esporte, hoje famosa Academia Nobre e Arte de Boxe. Foi realizada uma competição interna entre os alunos da Academia Naja.
Além disso, foram realizados inúmeros eventos em praças, escolas e eventos diversos, com demonstrações públicas da modalidade, além de torneios, entre outras atividades.
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Fightnews: A fundação da Naja tornou-se uma das academias pioneiras do Muay Thai no Brasil. Como nasceu este projeto e qual era a sua visão quando decidiu fundá-la?
Estive à frente e registei a lendária Academia Naja na Federação de Pugilismo do Rio de Janeiro. A academia é a primeira especializada em Boxe Tailandês do país, com todos os equipamentos e ringue, fundada por mim em 1979, juntamente com os meus sócios na época, Flávio Molina e Nilo Sérgio. Nilo rompeu com a sociedade em 1981 e Flávio, em 1983.
Permaneci na Naja, consolidando a equipa Team Naja Thai/Team Narany Thai. Esta equipa era formada pelos meus alunos, que realizavam treinos intensos, a ponto de estarem aptos a disputar competições estaduais e nacionais, sendo vencedores nas disputas entre diversos estados do Brasil.
A equipa Naja venceu as maiores equipas de Boxe Tailandês do país, tornando-se invicta durante longos anos, com a minha supervisão técnica. Inclusive, por muitas vezes, eu era o primeiro a lutar em competições estaduais e nacionais, antecedendo os meus alunos e dando exemplo de preparação, coragem, ousadia e dedicação.
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Fightnews: Ao longo dos anos, passaram pela Naja muitos atletas. Há algum momento ou geração que considere particularmente marcante na história da academia? E, mais do que títulos e vitórias, que valores procurou transmitir aos atletas que passaram pela sua academia?
Conquistei a minha graduação e diplomação como primeiro faixa preta e 001 do Muay Thai no Brasil, pelas mãos do mestre Nélio Borges, em 1979.
A partir de 1982, graduaram-se os professores Flávio Molina, Eduardo Ramisur e Luiz Alves. Com o passar do tempo, o Muay Thai foi ganhando um grande número de adeptos e vieram a ser formados novos faixas pretas, como Eugenio Tadeu, Marco Ruas, Vandro, Flavinho e Jutu.
Graduações, títulos e conquistas representam uma história construída ao longo de décadas, por todos aqueles que fizeram e fazem parte desta caminhada. Isto é sobre responsabilidade e não superioridade, visto que somos todos parte de uma mesma trajetória.
Muitos dos meus alunos, praticantes de Muay Thai nos anos 80, hoje são mestres e Grão-Mestres, impactando vidas e transformando destinos por meio desta valiosa ferramenta, que, com certeza, é uma aliada no combate à violência, depressão, ansiedade, baixa autoestima, entre outros males sociais e emocionais da nossa sociedade.
Podemos dizer que cada Grão-Mestre hoje é um fruto repleto de sementes, cuja responsabilidade é perpetuar o trabalho com propósito, honestidade, inclusão e empatia. Somos todos sujeitos responsáveis pela transformação social.
Ao longo da minha trajetória, formei muitos graus pretos, professores, mestres e Grão-Mestres, que atuam com dedicação e esmero.
O desporto, a filosofia e a cultura do Muay Thai foram absorvidos com louvor, proporcionando a muitos uma mudança de vida radical, motivados pela disciplina, integração social, entre diversos outros benefícios trazidos por meio da prática desportiva e do convívio diário num ambiente saudável.
Precursores são pessoas que desbravaram com coragem o desconhecido, colocando-se à prova humildemente e agindo com firmeza em meio aos desafios, dando exemplo positivo sempre que necessário.
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Fightnews: A sua história está também muito ligada à do Grão-Mestre Artur Mariano. Como nasceu esta amizade e parceria? E vocês desenvolveram vários projetos em conjunto. Quais foram os mais importantes e que impacto tiveram no crescimento do Muay Thai brasileiro?
Conheci o Grão-Mestre Artur Mariano na Academia Boxe Thai do Luiz Alves, no Grajaú, Rio de Janeiro. A sua postura era de lealdade para com o seu mestre e isto chamou a minha atenção. Era um atleta dedicado, talentoso e demonstrava muita atenção para com todos.
Começámos a trabalhar juntos no Pan-Americano e nos campeonatos mundiais, trazendo títulos para os brasileiros nas categorias amador e pro-am e elevando o nível do Muay Thai no Brasil para o mundo.
No ano de 2012, recebemos aprovação do Conservatório de Cultura da Tailândia, ou seja, um documento ligado ao Ministério dos Desportos, Cultura, Turismo, Filosofia, Educação e Conservação do Muay Thai.
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O documento redigido declara que somos membros e representantes no Brasil, filiados às entidades CBMT (nacional) e WMF (internacional). É importante salientar que este é o documento mais importante para o país e foi concedido pelo Governo da Tailândia.
Em 2013, recebemos uma homenagem do então presidente da World Muay Thai Federation, pelo alto nível técnico e desenvolvimento do Muay Thai no Brasil.
Em 2015, fui graduado Grão-Mestre Golden e Artur, Grão-Mestre, ambos pelo Governo Tailandês, com a chancela da World Muay Thai Federation. Estes marcos foram importantes, pois trouxeram reconhecimento e valorização da história do Muay Thai no Brasil.
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Fightnews: As viagens à Tailândia tiveram um papel fundamental na sua formação. Como foram as primeiras experiências naquele país, no contacto direto com o Muay Thai tradicional? E o que mais o surpreendeu quando chegou à Tailândia e percebeu que estava diante da cultura onde nasceu o Muay Thai?
Promovi o primeiro Seminário Internacional com mestres tailandeses no Brasil, em 1991, no Rio de Janeiro, com o mestre Ni Chi O, que permaneceu por quase três anos na Academia Naja, no Rio de Janeiro, ministrando treinos e seminários chancelados pela CBP e pelo Governo Tailandês.
Em 1995, realizei o segundo Seminário Internacional do país, com o mestre Yutanna, desta vez no estado de São Paulo. Não medi esforços para difundir a cultura tailandesa no Brasil, realizando diversas ações e demonstrações do desporto em bairros do Rio de Janeiro e expandindo, sempre que possível, para diversas outras capitais do país.
Quando fui à Tailândia pela primeira vez, já havia tido este contacto com os mestres tailandeses no Brasil e, por ter procurado este intercâmbio com o Muay Thai na sua origem, estive familiarizado durante toda a minha experiência.
O convívio com os mestres fez-me aprender e valorizar a técnica, filosofia e metodologia do Muay Thai. Por isso, durante a experiência, pude conectar-me plenamente com a cultura tailandesa.
Fiquei quase três meses num Camp de Muay Thai, juntamente com atletas da Seleção Brasileira que foram disputar o Mundial, e esta vivência foi fundamental para o desenvolvimento de todos.
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Fightnews: O que trouxe dessas viagens para o Brasil e procurou aplicar no trabalho desenvolvido com os seus atletas?
Filosofia, disciplina e metodologia tailandesa. Treinos de preparação física especial e geral, técnicas gerais e especiais. Aprimorei a metodologia e procurei ainda mais desenvolver o Muay Thai na sua essência.
Fightnews: Também teve a oportunidade de trabalhar como treinador da Seleção Brasileira em competições na Tailândia, juntamente com o GM Artur Mariano. O que significou representar o Brasil nesse contexto?
Trabalhámos como técnicos e treinadores, representando o Brasil na Tailândia. Ambos desenvolvemos um trabalho totalmente diferenciado, pois tínhamos o apoio e o suporte do meu Grão-Mestre Tailandês Yutanna, que, inclusive, esteve comigo no Brasil, realizando seminários anteriormente.
Trouxemos diversos títulos e proporcionámos experiências únicas para o desenvolvimento dos atletas brasileiros participantes nas competições. Estes eventos influenciaram o desenvolvimento do Muay Thai no Brasil, proporcionando valorização do desporto em território nacional.
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Fightnews: Quais eram os principais desafios enfrentados pelos atletas brasileiros nessas competições internacionais? Existe algum campeonato ou combate da Seleção Brasileira na Tailândia que permaneça especialmente vivo na sua memória?
Os maiores desafios estavam relacionados com a disciplina, o fuso horário e a adaptação da alimentação.
Todos os momentos de preparação dos atletas para a competição foram especiais. Além disso, os momentos no Camp foram muito significativos e pude levar atletas para outras competições, como o Lupi Ni, e para outros eventos em cidades tailandesas, com lutadores de todos os níveis.
Alguns lutadores que foram para este Camp permaneceram na Tailândia e tiveram uma grande evolução, como Albino Mendes, Shemom e Robusto. Alguns ainda vivem na Tailândia até aos dias de hoje.
Fightnews:Depois de acompanhar praticamente toda a evolução da modalidade no Brasil, como olha para o Muay Thai brasileiro de hoje? Quais são, na sua opinião, as maiores diferenças entre o Muay Thai dos primeiros anos e o Muay Thai praticado atualmente?
Hoje, o Muay Thai evoluiu bastante, devido à possibilidade de intercâmbio cultural por meio da tecnologia e do acesso à informação. É importante procurar evoluir sempre, porém vivenciando e praticando o Muay Thai na sua verdadeira essência.
Hoje, muitos vivem de aparências e não conhecem, de facto, a verdadeira história do Muay Thai no Brasil, intitulando-se professores, mestres e Grão-Mestres por realizarem seminários de fim de semana ou por simplesmente passarem uma temporada na Tailândia, o que é grave, visto que estamos a tratar de um desporto de contacto, que exige preparação e excelência na sua condução.
No início do Muay Thai, havia mais respeito pela hierarquia, e as bases filosóficas, disciplinares e culturais eram mais sólidas, na minha visão. Hoje, muitos perdem-se com a vaidade e querem graduar-se sem temporização ou capacidade.
O importante é manter-se em constante evolução, procurando as origens e respeitando a história e cultura do Muay Thai. Somos eternos aprendizes.
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Fightnews: Como avalia o papel da CBMT no desenvolvimento e na organização do Muay Thai brasileiro ao longo dos anos? Que importância tem uma entidade nacional forte para garantir o crescimento da modalidade, a formação de atletas e treinadores e a organização das competições?
A CBMT tem evoluído e alcançado estados brasileiros, abraçando atletas e gerando oportunidades de valor imensurável. O Muay Thai no Brasil está em pleno desenvolvimento devido ao papel de entidades como esta, com propósito forte e plena atuação no desporto, impactando a sociedade e transformando vidas por meio do desenvolvimento físico e mental do ser humano.
O Instituto GMG Narany está filiado à Confederação Brasileira de Muay Thai e a órgãos internacionais. Inscreveu e inscreve atletas em diversas competições nacionais e internacionais.
Representei e continuo a ter a oportunidade de representar o Brasil como treinador e técnico, juntamente com a Confederação Brasileira de Muay Thai (CBMT), atualmente presidida pelo Grão-Mestre Arthur Mariano.
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Fightnews:No ano passado recebeu o reconhecimento e entrou para o Hall da Fama. O que significou pessoalmente receber esta homenagem depois de tantos anos dedicados ao Muay Thai?
Para mim, é o reconhecimento de todo o trabalho que venho desempenhando ao longo destes 47 anos dedicados ao Muay Thai, honrando o legado que me foi transmitido pelo saudoso mestre Nélio Borges desde 1979.
Fightnews:Este ano estará novamente presente no Campeonato Brasileiro e no Hall da Fama. O que significa regressar a este ambiente e reencontrar atletas, mestres e amigos que fazem parte da sua história?
É sempre gratificante reencontrar pessoas queridas e personagens ilustres desta jornada maravilhosa e desafiadora da difusão da arte marcial no Brasil.
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Fightnews: E, para terminar: depois de tantas décadas de dedicação, o que ainda falta ao Grão-Mestre Wellington Narany realizar dentro do Muay Thai? E que mensagem gostaria de deixar a toda a comunidade do Muay Thai — atletas, treinadores, mestres, dirigentes e a todos aqueles que, diariamente, continuam a contribuir para o crescimento e desenvolvimento da modalidade?
Na atualidade, estou a desenvolver o Projeto Muay Thai Origens – Uma Nova Era com o Grão-Mestre Golden Narany. O objetivo é resgatar e valorizar as origens da construção da história da modalidade no país, na sua totalidade, ressaltando a cultura, filosofia e prática desportiva aplicada ao contexto da realidade sociocultural brasileira ao longo dos anos e, especialmente, de 1979 até aos dias de hoje.
É realizado um aulão aberto ao público, com foco em técnica, filosofia e cultura tailandesa, seguido de seminário e graduação. O evento teve início no ano de 2025 e já está a caminhar para a sua quarta edição, em expansão para todos os estados do Brasil.
Contamos com a presença de crianças, jovens, adultos e idosos de todas as realidades sociais, incluindo portadores de necessidades especiais.
O trabalho é realizado com inclusão, ética, transparência e equilíbrio, proporcionando saúde e qualidade de vida aos envolvidos e respeitando as diferenças e necessidades de cada participante.
Além disso, o Instituto Grão-Mestre Golden Narany Arts, Fight e Cultura foi criado em 2025 e tem a missão de promover o desporto e a cultura no Brasil.
Para além do desporto de rendimento, o foco está também na dimensão artística, histórica e ritualística, remetendo e refletindo, na totalidade, a ancestralidade e cultura do Muay Thai no Brasil.
Entre as finalidades culturais, a associação constitui-se como entidade de promoção e salvaguarda cultural, tendo como objetivo o fomento do Muay Thai como Património Cultural Imaterial, realizando atividades sociais, educativas e marciais, priorizando o intercâmbio cultural e institucional com autoridades governamentais e diplomáticas.
Entre as bases fundamentais deste trabalho estão a pesquisa, democratização e acessibilidade, projetando profundamente a introdução e o desenvolvimento da modalidade no Brasil, valorizando os pioneiros, ampliando e formalizando o acervo histórico e reconhecendo que o conhecimento é uma herança coletiva.
O Instituto Grão-Mestre Golden Narany – Arts, Fight e Cultura amplia a lente sobre a necessidade constante de formar cidadãos com valores de hierarquia ética, disciplina, honra, gratidão, respeito pelos mais velhos, entre outros pilares fundamentais para a formação do cidadão brasileiro.
Possuindo importância educacional, atua como ferramenta de mediação de conflitos e controlo emocional, sendo um poderoso instrumento de inclusão social e redução da violência escolar e social de modo geral.
Busco reforçar, por meio da modalidade, conceitos de disciplina e o valor simbólico do esforço contínuo para a conquista de novos graus de conhecimento. Investindo em novos talentos, formando cidadãos preparados para gerar bons frutos e impactar diretamente na construção de uma sociedade melhor e de um país cuja importância para o mundo é gigantesca.
Acredito que esta é a nossa missão como professores, mestres e Grão-Mestres de Muay Thai.
Imagem cedida GM Narany
A trajetória do Grão-Mestre Golden Narany confunde-se com diferentes momentos da construção e desenvolvimento do Muay Thai no Brasil. Desde o encontro com Nélio Borges, em 1979, passando pela Academia Naja, pela formação de atletas e professores, pela estruturação da modalidade e pelos intercâmbios com a Tailândia, o seu percurso tem sido marcado pela defesa da cultura, da filosofia e da identidade do Muay Thai.
Mais do que recordar títulos, graduações ou competições, Narany coloca no centro da sua mensagem a responsabilidade de transmitir conhecimento às novas gerações e preservar a memória daqueles que contribuíram para a construção da modalidade.
É também esse o propósito do Projeto Muay Thai Origens, que procura olhar para o passado para compreender o presente e preparar o futuro, valorizando os pioneiros e defendendo uma prática assente em disciplina, ética, respeito, inclusão e conhecimento.
Depois de 47 anos dedicados ao Muay Thai, o Grão-Mestre Golden Narany mantém a mesma ideia que atravessa toda a sua entrevista: a evolução da modalidade não deve significar o afastamento das suas raízes.
Como resume o próprio Grão-Mestre: “O importante é manter-se em constante evolução, buscando as origens e respeitando a história e cultura do Muay Thai. Somos eternos aprendizes.”