Muay Thai Ricardo Correia
Ricardo Correia: “Menos tentar. Mais fazer. Porque são as ações que nos fazem avançar”
Depois de um período particularmente exigente a nível pessoal, Ricardo Correia encontrou nas artes marciais uma ferramenta para recuperar, voltar a competir e reencontrar a paixão pelo combate. Entre o Jiu Jitsu, Wrestling, Muay Thai e as experiências vividas na Tailândia, o atleta fala sobre aprendizagem, saúde mental, disciplina e os objetivos que ainda guarda em segredo.
28/09/2026 15h02 Atualizada há 7 horas
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
Imagens cedida Ricardo Correia

O último ano foi marcado por desafios, sobretudo a nível mental, mas também por um processo de reconstrução através das artes marciais. Ricardo Correia assume-se como um “eterno aprendiz” e como um atleta com vontade de continuar a evoluir.

Com um percurso construído entre diferentes modalidades, começou no Taekwondo, passou pelo Muay Thai, pelo MMA e pelo Jiu Jitsu, tendo encontrado no Wrestling uma ferramenta para melhorar as suas quedas. Em 2026, decidiu voltar a testar-se no Muay Thai e viveu duas experiências particularmente marcantes na Tailândia, em Chiang Mai: uma vitória aos pontos diante de um atleta espanhol e, posteriormente, um triunfo por KO no segundo assalto frente a um lutador tailandês.

Nesta entrevista à Fight News Portugal, Ricardo Correia fala sobre o percurso, as aprendizagens, a saúde mental e a vontade de continuar a competir.

Imagem cedida Ricardo Correia

“Serei um eterno aprendiz”

FightNews: Ricardo, olhando para o último ano, disseste que foi um período “exigente”, sobretudo a nível mental. Hoje, com alguma distância, como te vês enquanto atleta e enquanto pessoa?

Eu sou muito vocal em relação à saúde mental e, quando falo de exigência, falo muito nesse aspeto. Não foi um ano fácil, mas as artes marciais ajudam a encontrar mecanismos para seguirmos em frente.

Vejo-me novamente com sonhos e objetivos, até porque acredito que só seremos velhos quando substituirmos os sonhos pelas lamentações.

Serei um eterno aprendiz e vejo-me essencialmente como um aluno dedicado.

Como atleta, sinto que há muito por aprender e vontade não falta.

Imagem cedida Ricardo Correia

FightNews: Nos últimos anos tens construído um percurso que passa pelo Jiu Jitsu, Wrestling e, mais recentemente, pelo Muay Thai. O que sentes que cada uma destas modalidades trouxe para a tua evolução enquanto atleta de artes marciais?

Considero-me um artista marcial misto. Comecei no Taekwondo, passei pelo Muay Thai e, mais tarde, pelo MMA e pelo Jiu Jitsu. O Wrestling surgiu da vontade de melhorar as minhas quedas.

Uma vez, num seminário, perguntaram-me:

“És melhor em quê?”

Respondi que não era melhor em nada, mas que era competente em tudo!

Gosto de aprender e acredito que devemos saber um pouco de cada arte, procurando ser o mais completos possível.

Todas as artes têm algo para nos ensinar. Basta estarmos dispostos a aprender.

Imagem cedida Ricardo Correia

A experiência na Tailândia

FightNews: Em que momento percebeste que querias também testar-te no Muay Thai e sair da tua zona de conforto para competir numa modalidade com características tão diferentes?

Experimentei Muay Thai com o meu melhor amigo, falecido, José Landim, e fui treinando com grandes amigos lutadores sempre que podia, mas já estava a treinar Jiu Jitsu.

Este ano decidi testar-me e assim foi. Fui convidado para lutar em Chiang Mai, em abril. Ganhei aos pontos contra um lutador fortíssimo espanhol.

E fui novamente convidado pela equipa Kru Frame para lutar em julho contra um tailandês, noutro estádio, e venci por KO no 2.º round.

Imagem cedida Ricardo Correia

FightNews: Competir na Tailândia é um desafio especial para qualquer atleta de Muay Thai. O que significou para ti dar esse passo e viver essa experiência em Chiang Mai?

Vou à Tailândia desde 2017.

Adoro a cultura, já tinha treinado lá noutras alturas.

Lutar o desporto nacional no seu próprio país teve um valor muito especial para mim.

Fiz muitas amizades e sou muito grato pela oportunidade.

Imagem cedida Ricardo Correia

FightNews: Em abril enfrentaste um atleta espanhol em Chiang Mai e, em julho, tiveste pela frente um adversário tailandês. Que diferenças sentiste entre os dois combates e o que retiraste de cada experiência?

Senti que o espanhol tinha um boxe muito bom, então explorei o clinch e usei muito as pernas. Foi assim que trouxe a vitória para casa.

Em relação ao tailandês, senti que era Muay Thai puro e, felizmente, consegui vencer por KO no 2.º round.

Imagem cedida Ricardo Correia

“O meu coração ainda quer muito competir”

FightNews: Mais do que o resultado, o que aprendeste sobre ti próprio durante esses combates na Tailândia?

Não dar ouvidos a quem não acredita em mim e lutar pelos meus sonhos, que o corpo aguenta mais daquilo que pensamos. Que, se fizermos as coisas com paixão, tudo no final vai bater certo.

Aprendi que o meu coração ainda quer muito competir e que não posso ignorar isso! Faz-me feliz.

Imagem cedida Ricardo Correia

FightNews: A competição obriga-nos muitas vezes a enfrentar medos, inseguranças e limitações. Sentiste que estes desafios na Tailândia também foram importantes para o teu crescimento fora do ringue?

Sem dúvida. A competição obriga-nos a sair da nossa zona de conforto e a lidar com situações que, muitas vezes, não conseguimos controlar.

Na Tailândia, para além do desafio físico, houve também o desafio mental: estar longe de casa, enfrentar adversários com mais experiência e colocar-me à prova num ambiente e numa cultura diferentes.

Imagem cedida Ricardo Correia

Mudar a “lente” através da qual vemos a vida

FightNews: No teu relato falas muito sobre a importância de mudar a “lente” através da qual vemos a vida. As artes marciais ajudaram-te a mudar essa perspetiva nos momentos mais difíceis?

Sim, sem dúvida. As artes marciais ajudaram-me muito a mudar a lente através da qual vejo a vida.

Nos momentos mais difíceis, especialmente quando lidamos com ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental, é fácil sentirmos que tudo perdeu a cor. Mas, muitas vezes, não é o mundo que deixou de ter cor, é a forma como estamos a conseguir olhar para ele naquele momento.

As artes marciais ensinaram-me a perceber que a nossa perspetiva pode mudar. Há dias em que estamos fortes, outros em que estamos cansados, frustrados ou com medo, mas isso não significa que a realidade seja sempre igual.

Tal como num combate, aprendemos a adaptar-nos, a respirar, a recuperar e a procurar uma nova estratégia quando aquilo que estamos a fazer não está a resultar.

Imagem cedida Ricardo Correia

“Menos tentar. Mais fazer.”

FightNews: Escreveste uma frase muito forte: “Menos tentar. Mais fazer.” O que significa esta frase para o Ricardo atleta neste novo ciclo?

Para mim, “Menos tentar. Mais fazer.” significa deixar de esperar pelo momento certo e começar a agir.

Durante muito tempo podemos ficar presos ao “vou tentar”, “vou ver se consigo”, “talvez amanhã”. E eu próprio já passei muito por isso. Hoje prefiro assumir as minhas decisões e fazer acontecer, mesmo sabendo que posso falhar.

Neste novo ciclo, quero ser mais consistente, mais disciplinado e, acima de tudo, mais presente no processo. Não quero estar constantemente a pensar no resultado ou naquilo que poderia acontecer. Quero treinar, aprender, competir e evoluir.

“Menos tentar. Mais fazer” é isso: parar de negociar comigo próprio e começar a cumprir aquilo que digo que quero fazer. Porque, no final, são as ações, e não as intenções, que nos fazem avançar.

Imagem cedida Ricardo Correia

“Ainda vão ter notícias sobre mim”

FightNews: Quando olhas para os próximos anos, como imaginas o teu percurso nas artes marciais? Há algum objetivo que ainda tenhas por cumprir e que seja particularmente importante para ti?

Sim, mas, como sou supersticioso, prefiro não partilhar. Mas ainda vão ter notícias sobre mim. Fiquem atentos.

Uma mensagem para quem acompanha o percurso

FightNews: Para terminar: tens construído este percurso com muito trabalho, sacrifício e também momentos difíceis. Que mensagem gostarias de deixar a todos os que acompanham o teu trabalho, treinam contigo, torcem por ti e se inspiram no teu percurso?

A mensagem que gostava de deixar é que cada pessoa encontre aquilo que a faz continuar.

No meu caso, as artes marciais são muito mais do que um desporto. São terapêuticas para mim. Têm-me ajudado imenso a ultrapassar alguns dos momentos mais difíceis da minha vida. Houve alturas em que treinar foi simplesmente a forma que encontrei de me levantar, sair de casa, limpar a cabeça e voltar a sentir-me eu próprio.

E é por isso que acredito tanto nas artes marciais. Não é só aquilo que acontece dentro do ringue ou do tatami. É tudo aquilo que elas nos ensinam sobre nós próprios, sobre disciplina, sobre dor, sobre resiliência e sobre continuar mesmo quando não estamos bem.

A quem me acompanha, treina comigo ou se inspira no meu percurso, só posso dizer: encontrem aquilo que vos faz bem e agarrem-se a isso. Não tenham vergonha de pedir ajuda, de recomeçar ou de admitir que nem sempre estamos bem.

Eu também tenho os meus dias maus. A diferença é que hoje sei que eles não definem quem sou nem aquilo que ainda posso fazer.

As artes marciais ajudaram-me a perceber isso. E, de certa forma, continuam a salvar-me um bocadinho todos os dias.

Imagem cedida Ricardo Correia

Um novo ciclo pela frente

A história de Ricardo Correia é, acima de tudo, marcada pela procura constante de aprendizagem e pela capacidade de encontrar nas artes marciais um caminho para continuar em frente.

Entre diferentes disciplinas, experiências internacionais e novos desafios competitivos, o atleta parece ter reencontrado a vontade de competir. Sem revelar ainda quais são os próximos objetivos, deixa uma promessa: “Ainda vão ter notícias sobre mim. Fiquem atentos.”

Para já, fica a certeza de que o percurso continua e que, para Ricardo Correia, o combate acontece tanto dentro como fora do ringue