O último ano foi marcado por desafios, sobretudo a nível mental, mas também por um processo de reconstrução através das artes marciais. Ricardo Correia assume-se como um “eterno aprendiz” e como um atleta com vontade de continuar a evoluir.
Com um percurso construído entre diferentes modalidades, começou no Taekwondo, passou pelo Muay Thai, pelo MMA e pelo Jiu Jitsu, tendo encontrado no Wrestling uma ferramenta para melhorar as suas quedas. Em 2026, decidiu voltar a testar-se no Muay Thai e viveu duas experiências particularmente marcantes na Tailândia, em Chiang Mai: uma vitória aos pontos diante de um atleta espanhol e, posteriormente, um triunfo por KO no segundo assalto frente a um lutador tailandês.
Nesta entrevista à Fight News Portugal, Ricardo Correia fala sobre o percurso, as aprendizagens, a saúde mental e a vontade de continuar a competir.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Ricardo, olhando para o último ano, disseste que foi um período “exigente”, sobretudo a nível mental. Hoje, com alguma distância, como te vês enquanto atleta e enquanto pessoa?
Eu sou muito vocal em relação à saúde mental e, quando falo de exigência, falo muito nesse aspeto. Não foi um ano fácil, mas as artes marciais ajudam a encontrar mecanismos para seguirmos em frente.
Vejo-me novamente com sonhos e objetivos, até porque acredito que só seremos velhos quando substituirmos os sonhos pelas lamentações.
Serei um eterno aprendiz e vejo-me essencialmente como um aluno dedicado.
Como atleta, sinto que há muito por aprender e vontade não falta.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Nos últimos anos tens construído um percurso que passa pelo Jiu Jitsu, Wrestling e, mais recentemente, pelo Muay Thai. O que sentes que cada uma destas modalidades trouxe para a tua evolução enquanto atleta de artes marciais?
Considero-me um artista marcial misto. Comecei no Taekwondo, passei pelo Muay Thai e, mais tarde, pelo MMA e pelo Jiu Jitsu. O Wrestling surgiu da vontade de melhorar as minhas quedas.
Uma vez, num seminário, perguntaram-me:
“És melhor em quê?”
Respondi que não era melhor em nada, mas que era competente em tudo!
Gosto de aprender e acredito que devemos saber um pouco de cada arte, procurando ser o mais completos possível.
Todas as artes têm algo para nos ensinar. Basta estarmos dispostos a aprender.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Em que momento percebeste que querias também testar-te no Muay Thai e sair da tua zona de conforto para competir numa modalidade com características tão diferentes?
Experimentei Muay Thai com o meu melhor amigo, falecido, José Landim, e fui treinando com grandes amigos lutadores sempre que podia, mas já estava a treinar Jiu Jitsu.
Este ano decidi testar-me e assim foi. Fui convidado para lutar em Chiang Mai, em abril. Ganhei aos pontos contra um lutador fortíssimo espanhol.
E fui novamente convidado pela equipa Kru Frame para lutar em julho contra um tailandês, noutro estádio, e venci por KO no 2.º round.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Competir na Tailândia é um desafio especial para qualquer atleta de Muay Thai. O que significou para ti dar esse passo e viver essa experiência em Chiang Mai?
Vou à Tailândia desde 2017.
Adoro a cultura, já tinha treinado lá noutras alturas.
Lutar o desporto nacional no seu próprio país teve um valor muito especial para mim.
Fiz muitas amizades e sou muito grato pela oportunidade.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Em abril enfrentaste um atleta espanhol em Chiang Mai e, em julho, tiveste pela frente um adversário tailandês. Que diferenças sentiste entre os dois combates e o que retiraste de cada experiência?
Senti que o espanhol tinha um boxe muito bom, então explorei o clinch e usei muito as pernas. Foi assim que trouxe a vitória para casa.
Em relação ao tailandês, senti que era Muay Thai puro e, felizmente, consegui vencer por KO no 2.º round.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Mais do que o resultado, o que aprendeste sobre ti próprio durante esses combates na Tailândia?
Não dar ouvidos a quem não acredita em mim e lutar pelos meus sonhos, que o corpo aguenta mais daquilo que pensamos. Que, se fizermos as coisas com paixão, tudo no final vai bater certo.
Aprendi que o meu coração ainda quer muito competir e que não posso ignorar isso! Faz-me feliz.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: A competição obriga-nos muitas vezes a enfrentar medos, inseguranças e limitações. Sentiste que estes desafios na Tailândia também foram importantes para o teu crescimento fora do ringue?
Sem dúvida. A competição obriga-nos a sair da nossa zona de conforto e a lidar com situações que, muitas vezes, não conseguimos controlar.
Na Tailândia, para além do desafio físico, houve também o desafio mental: estar longe de casa, enfrentar adversários com mais experiência e colocar-me à prova num ambiente e numa cultura diferentes.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: No teu relato falas muito sobre a importância de mudar a “lente” através da qual vemos a vida. As artes marciais ajudaram-te a mudar essa perspetiva nos momentos mais difíceis?
Sim, sem dúvida. As artes marciais ajudaram-me muito a mudar a lente através da qual vejo a vida.
Nos momentos mais difíceis, especialmente quando lidamos com ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental, é fácil sentirmos que tudo perdeu a cor. Mas, muitas vezes, não é o mundo que deixou de ter cor, é a forma como estamos a conseguir olhar para ele naquele momento.
As artes marciais ensinaram-me a perceber que a nossa perspetiva pode mudar. Há dias em que estamos fortes, outros em que estamos cansados, frustrados ou com medo, mas isso não significa que a realidade seja sempre igual.
Tal como num combate, aprendemos a adaptar-nos, a respirar, a recuperar e a procurar uma nova estratégia quando aquilo que estamos a fazer não está a resultar.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Escreveste uma frase muito forte: “Menos tentar. Mais fazer.” O que significa esta frase para o Ricardo atleta neste novo ciclo?
Para mim, “Menos tentar. Mais fazer.” significa deixar de esperar pelo momento certo e começar a agir.
Durante muito tempo podemos ficar presos ao “vou tentar”, “vou ver se consigo”, “talvez amanhã”. E eu próprio já passei muito por isso. Hoje prefiro assumir as minhas decisões e fazer acontecer, mesmo sabendo que posso falhar.
Neste novo ciclo, quero ser mais consistente, mais disciplinado e, acima de tudo, mais presente no processo. Não quero estar constantemente a pensar no resultado ou naquilo que poderia acontecer. Quero treinar, aprender, competir e evoluir.
“Menos tentar. Mais fazer” é isso: parar de negociar comigo próprio e começar a cumprir aquilo que digo que quero fazer. Porque, no final, são as ações, e não as intenções, que nos fazem avançar.
Imagem cedida Ricardo Correia
FightNews: Quando olhas para os próximos anos, como imaginas o teu percurso nas artes marciais? Há algum objetivo que ainda tenhas por cumprir e que seja particularmente importante para ti?
Sim, mas, como sou supersticioso, prefiro não partilhar. Mas ainda vão ter notícias sobre mim. Fiquem atentos.
FightNews: Para terminar: tens construído este percurso com muito trabalho, sacrifício e também momentos difíceis. Que mensagem gostarias de deixar a todos os que acompanham o teu trabalho, treinam contigo, torcem por ti e se inspiram no teu percurso?
A mensagem que gostava de deixar é que cada pessoa encontre aquilo que a faz continuar.
No meu caso, as artes marciais são muito mais do que um desporto. São terapêuticas para mim. Têm-me ajudado imenso a ultrapassar alguns dos momentos mais difíceis da minha vida. Houve alturas em que treinar foi simplesmente a forma que encontrei de me levantar, sair de casa, limpar a cabeça e voltar a sentir-me eu próprio.
E é por isso que acredito tanto nas artes marciais. Não é só aquilo que acontece dentro do ringue ou do tatami. É tudo aquilo que elas nos ensinam sobre nós próprios, sobre disciplina, sobre dor, sobre resiliência e sobre continuar mesmo quando não estamos bem.
A quem me acompanha, treina comigo ou se inspira no meu percurso, só posso dizer: encontrem aquilo que vos faz bem e agarrem-se a isso. Não tenham vergonha de pedir ajuda, de recomeçar ou de admitir que nem sempre estamos bem.
Eu também tenho os meus dias maus. A diferença é que hoje sei que eles não definem quem sou nem aquilo que ainda posso fazer.
As artes marciais ajudaram-me a perceber isso. E, de certa forma, continuam a salvar-me um bocadinho todos os dias.
Imagem cedida Ricardo Correia
A história de Ricardo Correia é, acima de tudo, marcada pela procura constante de aprendizagem e pela capacidade de encontrar nas artes marciais um caminho para continuar em frente.
Entre diferentes disciplinas, experiências internacionais e novos desafios competitivos, o atleta parece ter reencontrado a vontade de competir. Sem revelar ainda quais são os próximos objetivos, deixa uma promessa: “Ainda vão ter notícias sobre mim. Fiquem atentos.”
Para já, fica a certeza de que o percurso continua e que, para Ricardo Correia, o combate acontece tanto dentro como fora do ringue