A Seleção Nacional de MMA esteve recentemente em Luanda, Angola, para participar no IMMAF Angola Dipanda Open World Cup 2026, competição que proporcionou aos atletas portugueses mais uma importante experiência internacional antes dos próximos desafios.
Tiago Janeiro, Cauã Ribeiro e Roberto Rosquete representaram Portugal numa prova que, para a equipa técnica, teve como principal objetivo avaliar o comportamento dos atletas perante diferentes estilos de combate, níveis de pressão e contextos competitivos.
Em entrevista à Fight News Portugal, o treinador da Seleção Nacional, Luciano Moura, fez um balanço da participação portuguesa, explicou os principais aspetos identificados pela equipa técnica e falou sobre o trabalho que será desenvolvido nas próximas semanas tendo em vista o Mundial da IMMAF, na Geórgia, em novembro.
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FightNews: Que balanço faz da participação da Seleção Nacional de Portugal no IMMAF Angola Open World Cup 2026?
Faço um balanço muito positivo, sem olhar apenas para os resultados, mas sobretudo para as prestações e para aquilo que queríamos avaliar com estes três atletas.
O Tiago Janeiro integra a Seleção Nacional que vai estar no Mundial da Geórgia, em novembro. Ainda é júnior, mas em Angola competiu em sénior, o que já representava um desafio importante. O Cauã Ribeiro está precisamente nessa transição de júnior para sénior e também vai estar no Mundial, já como sénior. Esta prova serviu muito para o testar nesse novo contexto.
O Roberto Rosquete não foi convocado para o Mundial deste ano, mas é um atleta em quem vemos muito potencial. Foi campeão nacional, fez boas lutas na época anterior e tem mostrado uma evolução muito interessante. Esta competição deu-lhe a oportunidade de ganhar experiência internacional e continuar esse processo de crescimento.
Por isso, o mais importante para nós não era olhar apenas para medalhas, mas perceber como estes atletas respondiam em competição e o que podíamos retirar daqui para continuar a trabalhar.
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FightNews:Quais eram as expectativas da equipa técnica antes da chegada a Luanda e em que medida foram correspondidas durante a competição?
As expectativas eram muito nesse sentido: testar os atletas num contexto internacional e perceber como reagiam a diferentes tipos de pressão.
Dois deles fazem parte da equipa que vai ao Mundial da Geórgia, por isso queríamos perceber até que ponto conseguiam aplicar o seu nível técnico num ambiente competitivo diferente.
Havia uma presença muito forte de atletas angolanos, a competir em casa, com muita intensidade competitiva e um estilo de combate bastante pressionante. Além disso, estamos a falar de um formato de torneio, não de uma luta isolada. É preciso ganhar e voltar a competir, e isso muda bastante a forma como o atleta tem de gerir cada combate.
Queríamos perceber como reagiam, como mantinham o plano de jogo e como lidavam com esse contexto. Nesse sentido, a competição foi muito útil porque trouxe-nos informação concreta para trabalhar já nas próximas semanas.
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FightNews:Como avalia, de uma forma geral, a prestação dos atletas portugueses ao longo do torneio?
No geral, considero que a prestação foi positiva e, acima de tudo, muito útil para percebermos onde estamos e o que temos de melhorar.
O Roberto Rosquete encontrou um adversário com um ground game muito forte em termos de pressão e controlo posicional. O adversário conseguiu condicionar bastante a dinâmica da luta e venceu por decisão unânime, com mérito. Não significa que o Roberto não soubesse trabalhar essas situações, mas naquele combate não conseguiu criar as condições necessárias para desenvolver o seu jogo da forma que pretendíamos. É precisamente esse tipo de detalhe que agora podemos analisar e trabalhar melhor.
O Kauã Ribeiro fez uma luta muito equilibrada, apesar de ter sofrido uma fratura num metacarpo durante o combate. Acabou por perder por decisão dividida. Na minha leitura, o segundo round foi do adversário, o terceiro do Kauã e o primeiro foi muito equilibrado. Talvez tivesse faltado transformar algum do seu controlo em mais ground and pound. São pequenos detalhes, mas neste nível são esses detalhes que muitas vezes fazem a diferença.
O Tiago Janeiro teve uma primeira luta muito boa e conseguiu um KO que acabou por ter bastante impacto nas redes sociais. Foi uma ação estudada e ele conseguiu executar exatamente aquilo que tínhamos trabalhado. Na luta seguinte encontrou um adversário muito forte no ground game, que conseguiu impor uma pressão e um controlo que limitaram algumas das opções técnico-táticas do Tiago.
No fundo, os três saem desta competição com mais experiência e, sobretudo, com uma noção muito mais concreta daquilo que podemos ajustar e desenvolver.
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FightNews:O que considera que os nossos atletas fizeram melhor nesta competição e quais foram os aspetos que identificou como prioritários para melhorar?
Uma das coisas que queríamos avaliar era precisamente a comunicação entre treinador e atleta, e nesse aspeto fiquei bastante satisfeito.
Quando existe uma boa compreensão do plano de jogo definido em conjunto e o atleta consegue fazer os ajustes necessários durante a luta e nos intervalos dos rounds, a resposta tende a ser muito positiva. Essa capacidade de comunicar, interpretar o que está a acontecer e adaptar o plano em tempo real é fundamental.
Um dos aspetos que esta competição também nos mostrou foi a necessidade de trabalhar ainda melhor a resposta a determinados estilos de pressão no ground game. Os nossos atletas têm bom nível técnico no solo e sabem trabalhar essas situações, mas percebemos que há um tipo de pressão que pode limitar as opções técnico-táticas e condicionar a capacidade de desenvolver o próprio jogo.
E isso não se resume apenas à técnica. Pode envolver aspetos físicos, adaptação à categoria de peso, gestão de força, posicionamento, timing e até a decisão de quando criar espaço sem aumentar demasiado o risco.
O objetivo agora é precisamente aperfeiçoar esses mecanismos: perceber melhor quando sair, quando estabilizar, quando criar espaço e como evitar ficar demasiado tempo dentro do jogo que o adversário pretende impor.
A parte positiva é que os próprios atletas perceberam isso e regressam com uma visão muito clara daquilo que têm de trabalhar.
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FightNews:Que nível competitivo encontrou nesta edição do Angola Dipanda Open World Cup?
Encontrei um nível competitivo muito elevado, com várias lutas de grande qualidade técnica e atletas bastante preparados.
Naturalmente, um Campeonato do Mundo da IMMAF tem uma profundidade competitiva ainda maior, até porque reúne um número superior de seleções e algumas das equipas mais fortes do mundo. Mas isso não retira valor ao que encontrámos em Angola.
A qualidade técnica esteve bem presente e, para além disso, havia todo o contexto próprio de uma competição internacional: o ambiente, o público, o facto de competir fora, o perfil dos adversários e a necessidade de adaptação constante.
Por isso, considero que foi uma prova de nível elevado e muito útil para aquilo que pretendíamos testar e desenvolver nos nossos atletas.
FightNews:Para além dos resultados, que tipo de experiência considera que os atletas levam desta competição e que poderá ser importante para o seu desenvolvimento?
Levam sobretudo experiência de competição e de adaptação.
Há uma diferença grande entre o nível de pressão e o tipo de pressão. Um atleta pode estar habituado a competir sob muita pressão, mas depois encontra um ambiente diferente, um adversário diferente ou uma dinâmica a que não está habituado.
E isso obriga-o a adaptar-se.
Estas experiências ajudam os atletas a perceber melhor o que precisam de trabalhar. E nem sempre estamos a falar só de técnica. O ambiente, a gestão emocional, a capacidade de manter o foco e o equilíbrio também fazem parte do rendimento.
Tudo isso é aprendizagem e faz parte do crescimento deles.
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FightNews:Como avalia a evolução do MMA português no contexto internacional e onde entende que ainda existe margem para crescer?
O MMA português está a crescer e continua a ter muita margem para evoluir.
Eu falo sobretudo no contexto da Seleção Nacional e das competições IMMAF, porque este formato tem características muito próprias. Há pesagens e controlos médicos diários, possibilidade de combates em dias consecutivos, gestão de peso, recuperação e ajustes estratégicos constantes.
Ao mesmo tempo, Portugal tem mostrado qualidade. Apresentamos normalmente equipas pequenas em número, mas com um nível médio de qualidade muito elevado. Isso é algo que inclusivamente já me foi referido por elementos do próprio staff da IMMAF.
Já tivemos um campeão mundial, medalhas de prata e bronze e vários atletas que, mesmo sem chegar às medalhas, mostraram capacidade para competir a este nível.
Estamos no caminho certo, mas ainda temos margem para crescer em experiência, consistência e profundidade de equipa.
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FightNews:Quais são agora as principais prioridades da equipa técnica para a preparação das próximas competições?
A prioridade agora é voltar a juntar a Seleção e fazer um novo treino, desta vez no Norte.
O último treino foi no Sul e este ano temos mais atletas do Norte, por isso também faz sentido do ponto de vista logístico.
Uma coisa que gostei muito foi perceber que os próprios atletas que estiveram em Angola quiseram logo marcar o próximo treino. Sentiram que existe uma ligação com a equipa técnica que é importante continuar a desenvolver.
Uma Seleção não pode funcionar apenas quando chegamos a uma competição. Esse trabalho tem de ser feito antes, com tempo.
Agora queremos manter o grupo unido, corrigir aquilo que identificámos em Angola e afinar alguns pormenores técnicos e estratégicos. O foco está claramente no Mundial da Geórgia, em novembro.
FightNews:Depois de acompanhar de perto esta participação, o que lhe dá mais confiança relativamente ao futuro da Seleção Nacional de Portugal?
O que mais me dá confiança é perceber que os atletas querem realmente evoluir e que estão cada vez mais conscientes de tudo aquilo que envolve representar a Seleção neste tipo de competição.
Depois de Angola, e também pelo feedback deles, senti claramente que todos querem repetir a experiência, melhorar e voltar mais preparados.
Isso dá-me confiança de que podemos construir uma equipa cada vez mais coesa, com maior conhecimento dos processos e com uma identidade própria.
Claro que uma Seleção está sempre em renovação. Há atletas que transitam para o profissional, outros terminam ciclos e surgem novos atletas. Faz parte do processo.
Mas quem chega também encontra o exemplo de quem já passou pela Seleção, e isso ajuda a criar uma cultura e uma forma de estar que se vão transmitindo de geração em geração.
FightNews:Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos atletas que representaram Portugal em Luanda e a todos aqueles que trabalham diariamente para desenvolver o MMA nacional?
Aos atletas que estiveram em Luanda, deixo primeiro uma palavra de agradecimento.
Tivemos tempo para conversar, para analisar aquilo que correu bem, aquilo que falhou e o que precisamos de melhorar. E é isso mesmo que temos de continuar a fazer.
O caminho faz-se passo a passo, treino a treino e competição a competição. É fazer sempre o melhor possível com as condições que temos em cada momento e manter a vontade de evoluir.
E depois há uma mensagem que é para toda a gente que trabalha diariamente pelo MMA português: atletas, treinadores, equipas, associações, clubes, dirigentes, árbitros, cutmen, oficiais e todas as pessoas que muitas vezes fazem um trabalho menos visível.
O MMA não é só aquilo que acontece dentro da cage. Há todo um trabalho de regulamentação, seguros, homologações, formação, arbitragem, organização e gestão que é fundamental para a modalidade crescer.
Podemos estar ligados à Seleção, à Federação, à IMMAF ou a outros projetos e competições. No fim, aquilo que nos une é o MMA.
E quanto mais conseguirmos trabalhar em conjunto, mais forte será a modalidade. Acho que esse deve ser sempre o objetivo: desenvolver um MMA com qualidade, com estrutura e também com valor enquanto escola de disciplina, crescimento pessoal e desenvolvimento desportivo.
A participação portuguesa em Luanda termina, assim, não apenas como mais uma etapa competitiva, mas como um momento de avaliação importante para a Seleção Nacional de MMA.
Para Luciano Moura, o valor da experiência está também na capacidade de identificar detalhes, corrigir processos e transformar cada combate numa oportunidade de aprendizagem. Com o Mundial da IMMAF na Geórgia, em novembro, no horizonte, a equipa técnica entra agora numa nova fase de preparação, procurando consolidar o trabalho desenvolvido e continuar a construir uma Seleção cada vez mais coesa e preparada para o contexto internacional.
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Da experiência em Angola ficam os combates, as aprendizagens e, sobretudo, novos pontos de trabalho para o MMA português.