Em entrevista à Fight News Portugal, Ana Rita Oliveira recorda o momento em que percebeu que era campeã, fala sobre a exigência mental da competição, os sacrifícios que estão por detrás dos minutos de combate e deixa um alerta sobre a necessidade de maior investimento no Karaté português.
Há conquistas que ficam para sempre na história de uma modalidade. A de Ana Rita Oliveira é uma delas.
A karateca portuguesa conquistou a medalha de ouro nos Jogos do Mediterrâneo, escrevendo uma página inédita no Karaté nacional: esta é a primeira medalha conquistada por um atleta português da modalidade na história da competição.
Mais do que um título, o resultado representa o culminar de anos de trabalho, dedicação e sacrifícios que, muitas vezes, acontecem longe dos olhos do público.
Quando olhou para o marcador e percebeu que tinha acabado de se sagrar campeã, a primeira frase que lhe surgiu foi curta, mas carregada de significado: “Afinal consegues.”
A partir desse momento, Ana Rita Oliveira passou a fazer parte da história do Karaté português.
Mas a campeã não esquece aqueles que continuam a lutar diariamente por uma oportunidade. Na sua visão, Portugal tem talento suficiente para alcançar grandes resultados, mas continua a faltar uma estrutura capaz de transformar esse talento em conquistas internacionais.
Em entrevista à Fight News Portugal, a atleta fala sobre a histórica medalha de ouro, a importância da preparação mental, a realidade de conciliar o alto rendimento com um dia inteiro de trabalho, os sacrifícios que o público não vê e aquilo que ainda precisa de mudar no Karaté português.
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FightNews: Ana Rita, quando olhou para o marcador e percebeu que era campeã dos Jogos do Mediterrâneo, qual foi o seu primeiro pensamento?
“Afinal consegues.”
FightNews: Esta é a primeira medalha do Karaté português na história dos Jogos do Mediterrâneo. Quando entrou no tatami, tinha consciência de que poderia escrever uma página inédita para a modalidade?
Sim, apesar de o nível competitivo ser exigente, sabia que atingir o pódio não era impossível e estava ao meu alcance e, assim, trazer a primeira medalha para o Karaté.
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FightNews:Sentiu, desde o primeiro combate, que aquele poderia ser um dia diferente ou essa confiança foi sendo construída à medida que avançava na competição?
Na verdade, desde os primeiros treinos aqui em Taranto que vinha a sentir boas sensações. No aquecimento, igual. O mais difícil é levar essa confiança para os combates, mas desde o primeiro que senti que estava lá.
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FightNews:O que significa para si não ser apenas campeã, mas tornar-se a primeira karateca portuguesa a subir ao pódio nesta competição?
Deixa-me bastante orgulhosa, sobretudo porque sei que as camadas mais jovens têm muita capacidade para continuar a somar pódios nas próximas edições.
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FightNews:Acredita que este resultado pode ajudar o Karaté português a conquistar maior visibilidade, investimento e reconhecimento em Portugal?
Assim o espero. O Karaté português está cheio de talentos, mas que precisam de apoios e investimento para conseguirem chegar mais longe e atingirem todo o seu potencial. Infelizmente, ao longo dos anos tenho visto muito talento ser desperdiçado. Apenas espero que esta conquista ajude a que tal não se suceda no futuro.
FightNews:Numa final decidida por apenas um ponto, o que pesa mais: a preparação técnica, a condição física ou a capacidade de controlar as emoções?
Sem dúvida, a capacidade mental, a capacidade de me permitir sentir todas as emoções que uma competição traz, mas não me deixar assoberbar por elas. Vamos sempre sentir medo, felicidade, receio, raiva, orgulho. O difícil é, apesar de tudo, mantermos o foco e deixarmos as nossas capacidades “funcionarem”.
FightNews:Como é, na prática, a rotina de preparação de uma karateca portuguesa para conseguir competir ao mais alto nível internacional?
Acho que não existe uma resposta unânime, infelizmente, porque todos temos realidades diferentes. A minha passa por treinar 1h30 por dia depois de um dia inteiro de trabalho. Infelizmente, não me é possível mais, neste momento. Então, tenho de usar bem o pouco tempo que tenho e treinar com qualidade. E aliar sempre uma boa nutrição e descanso, que para mim são fundamentais.
FightNews:Quais são os sacrifícios que o público não vê quando assiste apenas aos poucos minutos de um combate?
Os treinos a horas tardias, quando já só queríamos estar a descansar, os momentos de família em que não conseguimos estar presentes, a evolução profissional que não conseguimos acompanhar, a vida pessoal que muitas vezes fica em stand-by.
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FightNews: O que ainda falta em Portugal para que os atletas de Karaté possam preparar-se em condições semelhantes às das principais potências internacionais?
Na minha opinião, organização. Como disse anteriormente, existe muito talento em Portugal. Mas, se não existir uma estrutura que consiga pegar nesse talento e dar-lhe condições financeiras, organizacionais, de treino e acompanhamento, o talento vai acabar por ser desperdiçado.
FightNews:Para terminar, se pudesse falar com a Ana Rita dos momentos de maior dúvida, o que lhe diria hoje, com a medalha de ouro ao peito? E que mensagem gostaria de deixar a todos os que acompanham o seu percurso e o Karaté português?
Independentemente daquilo que achas, acredita em ti. Tens todas as capacidades para chegares onde queres chegar.
Obrigada por todo o apoio ao longo destes anos, por acreditarem em mim e me ajudarem a sonhar.
A história já está escrita. Ana Rita Oliveira é campeã dos Jogos do Mediterrâneo e tornou-se a primeira karateca portuguesa a conquistar uma medalha nesta competição.
Mas as palavras da atleta mostram que esta conquista representa muito mais do que uma medalha de ouro.
Por detrás do momento histórico estão anos de treino, horas sacrificadas, momentos familiares perdidos e a difícil conciliação entre o alto rendimento e a vida profissional. Uma realidade que, como a própria atleta sublinha, continua a fazer parte do percurso de muitos desportistas portugueses.
A conquista em Taranto surge, assim, não apenas como uma recompensa individual, mas também como um possível ponto de viragem para uma modalidade que, segundo Ana Rita Oliveira, continua a ter talento, mas necessita de maior apoio, investimento e organização para conseguir explorar todo o seu potencial.
E talvez seja precisamente essa a mensagem mais forte deixada pela campeã.
Depois das dúvidas, dos sacrifícios e dos momentos em que foi necessário continuar a acreditar, Ana Rita Oliveira pode agora olhar para trás e dizer a si própria:
“Afinal consegues.”