Boxe Europeu de Boxe
Duas mulheres. Uma equipa. Um objetivo: o Campeonato Europeu de Boxe
As duas atletas são atualmente as únicas mulheres da Seleção Nacional Portuguesa de Boxe e chegam ao Campeonato Europeu depois de um ano marcado por evolução, trabalho e maior confiança.
02/09/2026 11h19 Atualizada há 7 horas
Por: Redação Fonte: Miriam Rautenberg
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Em setembro chega mais um grande palco internacional: o Campeonato Europeu de Boxe. O evento decorre na Bulgária, entre 15 e 26 de setembro, na Asics Arena.

Por Portugal, Sofia Resende e Beatriz Almeida vão subir ao ringue, sendo atualmente as duas únicas mulheres da Seleção Nacional Portuguesa de Boxe.

As duas já conhecem a competição internacional, cada uma construiu o seu próprio caminho no boxe e ambas sabem o que significa representar Portugal dentro do ringue.

Por isso, desta vez, não queremos voltar ao início das suas histórias. Queremos saber onde estão hoje.

O que muda quando já não se treina apenas para o próximo combate, mas para competir contra algumas das melhores atletas da Europa? Como vivem duas atletas a mesma preparação? O que podem aprender uma com a outra? E o que significa serem, neste momento, as únicas duas mulheres da Seleção Nacional?

Antes do Campeonato Europeu, falamos com Sofia Resende e Beatriz Almeida sobre evolução, pressão, preparação, o seu papel na equipa e aquilo que querem mostrar no ringue.

ENTREVISTA — SOFIA RESENDE & BEATRIZ ALMEIDA

FightNews: Neste momento, são as duas únicas mulheres da Seleção Nacional Portuguesa. O que é que isso significa para vocês pessoalmente? Sentem mais orgulho, responsabilidade ou é algo em que quase não pensam no dia a dia?

Beatriz Almeida: Já todos sabemos que o boxe feminino em Portugal ainda está a crescer. Somos poucas meninas, e isso torna cada oportunidade de representar o nosso país ainda mais especial.

Tenho um enorme orgulho no caminho que tenho feito e, acima de tudo, na oportunidade de vestir as cores de Portugal e dar o meu melhor sempre que entro no ringue.

Quero continuar a mostrar, todos os dias, que é isto que quero e que estou disposta a trabalhar para o conseguir. O meu maior objetivo é continuar a evoluir, aproveitar cada oportunidade e, acima de tudo, conseguir mostrar dentro do ringue aquilo de que sou capaz.

Imagem cedida Miriam Rautenberg

Sofia Resende: Para mim, é sobretudo um orgulho gigante. Representar Portugal e vestir as cores do nosso país, por si só, já é um enorme privilégio e uma enorme responsabilidade, na minha opinião.

Acredito que o boxe feminino em Portugal está a crescer e que, dentro de uns anos, haverá mais meninas a competir e, certamente, mais mulheres na Seleção Nacional.

Estar aqui é o resultado de muito esforço, muita abdicação, muitas horas de trabalho e, também, de muita felicidade!

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FightNews: Partilham estágios, preparação e competições internacionais. O que é que cada uma traz para a equipa que a outra valoriza especialmente?

Beatriz Almeida: Eu tenho a maior sorte de não só partilhar a Seleção com a Sofia, mas também todos os treinos diários e o sofrimento na nossa segunda casa, o Crosspunch.

A sua dedicação e força de vontade motivam-me diariamente e o seu progresso inspira-me sempre a querer mais e mais. Sinto que, para além de uma colega de equipa, tenho uma amiga, e acho que isso é o mais importante: poder apoiarmo-nos uma na outra.

Sofia Resende: Acho que nos completamos bastante. Acho que nunca disse isto a ninguém, mas, quando surgiu o bichinho da competição, já seguia o Crosspunch nas redes sociais e via as meninas da equipa como uma inspiração. Tinha vontade de ser como elas. Hoje, estou com elas.

Partilhar toda esta preparação com a Tiz e com toda a equipa que está por trás é incrível, traz leveza a todo o processo.

Valorizo muito a resiliência dela e a vontade constante de querer melhorar e de se manter focada. É precisamente a sua determinação e força de vontade que me inspira todos os dias!

Termos alguém ao nosso lado que está a viver exatamente o mesmo processo também dá força, porque sabemos que não estamos sozinhas. Tenho a sorte de o boxe me ter dado uma grande amiga.

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FightNews: Se compararem a atleta que são hoje com a atleta que eram há um ano, qual foi a maior evolução que sentiram em vocês próprias?

Beatriz Almeida: Consigo dizer com toda a certeza que a Tiz de há um ano era uma Tiz mais insegura, menos confiante e menos certa das suas capacidades.

Foi um ano de muito crescimento, muito treino e muito estudo. Acho que é preciso reconhecer as nossas falhas para conseguirmos trabalhá-las e melhorar, e é isso que temos feito.

Os resultados acabam por ser consequência desse trabalho, por isso é continuar a trabalhar, a corrigir o que temos de corrigir e a procurar cada vez mais a evolução.

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Sofia Resende: Acho que a minha maior evolução foi a nível mental. Tecnicamente e fisicamente continuamos sempre a evoluir, também graças ao facto de termos um treinador que faz os possíveis e os impossíveis pela nossa evolução constante e que nos dedica bastante tempo nesse sentido.

Sinto que hoje conheço muito melhor a atleta que sou. Tenho mais confiança nas minhas capacidades, consigo lidar melhor com a pressão e aprendi a não dar tanta importância a um treino menos conseguido ou a um resultado menos positivo.

Sinto que, há um ano, entrava para um combate a pensar apenas no resultado e deixava que esse resultado definisse se eu era suficientemente boa ou não para estar ali. Acabava por não desfrutar tanto do combate.

Hoje sinto que me divirto genuinamente, faço o que gosto e aproveito a 100% cada round, dando o meu melhor para alcançar o melhor resultado possível.

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FightNews: Num Campeonato Europeu enfrentam algumas das melhores atletas da Europa. Mentalmente, o que é preciso para respeitar uma adversária sem deixar que esse respeito se transforme em medo ou em excesso de cautela?

Beatriz Almeida: Este tema já foi um grande entrave na minha preparação. Sempre olhei para as minhas adversárias com demasiado respeito e admiração.

Acho que é importante e essencial tê-los, mas também temos de perceber que elas, tal como nós, estão ali para dar o melhor delas.

O único fator que nós conseguimos controlar é a nossa própria preparação, por isso tenho tentado focar-me nisso e tem ajudado a mudar a forma como olho para as minhas adversárias e me sinto dentro do ringue.

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Sofia Resende: Acho que respeito e medo são coisas completamente diferentes. Eu respeito qualquer adversária que esteja à minha frente, porque sei o trabalho que existe por trás de estar num Campeonato Europeu.

Mas, quando o combate começa, somos duas atletas no mesmo ringue e tudo o que aconteceu antes deixa de importar.

Tenho de confiar no meu trabalho, nas palavras do meu treinador durante os combates, nas minhas capacidades e acreditar que também pertenço àquele nível.

Acredito que, para conseguirmos chegar mais longe e continuarmos a evoluir, temos de estar com as melhores e enfrentar as melhores.

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FightNews: Há algum aspeto específico do vosso boxe em que estejam a trabalhar particularmente nesta preparação e que gostassem que se notasse no ringue durante o Europeu?

Beatriz Almeida: Acho que tenho trabalhado um pouco em tudo, tanto a nível técnico como físico e mental.

Não há propriamente uma coisa específica que queira destacar, porque sinto que tenho evoluído em vários aspetos. Temos vindo a trabalhar bastante para tornar o meu boxe mais completo e consistente, e sinto que estou muito mais preparada do que estava há um ano.

Gostava que isso se notasse no ringue e que conseguisse mostrar todo o trabalho que tenho feito nesta preparação.

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Sofia Resende: Há sempre coisas a melhorar! Sei algumas das adversárias que, muito possivelmente, irei enfrentar. Portanto, o trabalho passa também por estudá-las e perceber como posso ajustar o meu jogo às características de cada uma.

Tenho trabalhado muito para ser uma atleta mais completa e mais consistente, e quero que isso se note no ringue, obviamente.

Quero conseguir adaptar-me ao que tenho pela frente, sem deixar de impor o meu boxe, o meu ritmo e aquilo que tenho vindo a trabalhar.

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FightNews: Uma preparação não é feita apenas de bons dias de treino. O que fazem nos dias em que o corpo está cansado, falta motivação ou simplesmente o treino não corre como queriam?

Beatriz Almeida: É frustrante. Bastante. Não há muito a fazer senão “live through it”.

Sabemos que o boxe a este nível é isto. É dar tudo nos treinos para estarmos preparadas para tudo o que possa aparecer.

Para mim, quando um treino corre menos bem, tento perceber o que não correu como queria, aceito a frustração e uso isso para voltar no treino seguinte ainda mais focada.

Nem todos os dias vão ser bons, e acho que também faz parte aprender a lidar com isso.

Sofia Resende: A motivação nem sempre está presente e acho que uma das coisas que aprendemos é precisamente a não depender dela.

Há dias em que custa mais ou em que simplesmente o corpo não responde da forma que eu queria. Acaba por ser um pouco frustrante, em certa medida, mas lembro-me do meu grande objetivo e tento focar-me ainda mais nisso nesses dias.

A verdade é que, sempre que faço um treino que “não me apetecia”, por estar mais cansada, são muitas vezes esses os treinos de que saio com a melhor sensação: “Ainda bem que fui!”

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FightNews: Estão as duas a preparar-se para o mesmo grande objetivo, mas certamente vivem este processo de formas diferentes. Qual é, neste momento, o maior desafio desta preparação para cada uma de vocês?

Beatriz Almeida: Neste momento, sinto que estou numa fase bastante boa da preparação.

Tenho uma rotina mais estruturada, que me tem dado mais motivação para os treinos, e sinto-me mais forte, tanto fisicamente como mentalmente.

Acho que estou numa fase em que me sinto mesmo focada no que tenho de fazer e isso tem feito com que esteja a aproveitar muito mais o processo.

Agora é continuar a trabalhar e manter este ritmo até ao Europeu.

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Sofia Resende: Estou sempre a dizer que adoro o processo que está por trás de uma competição. Gosto muito do trabalho que existe para chegar a um combate: os treinos de boxe, os treinos acessórios e toda a rotina que está por trás da preparação.

Mesmo aqueles treinos em que, às vezes, digo mal da minha vida enquanto os estou a fazer, no fundo também gosto deles.

Acho que é muito importante gostarmos do processo, porque é nele que passamos a maior parte do tempo. O combate é o momento para o qual trabalhamos durante meses e semanas, mas, no fundo, são todos os dias de treino que nos fazem chegar lá.

Vai ser a minha primeira vez num Campeonato Europeu e estou muito entusiasmada!

O meu maior desafio é conseguir estar física e mentalmente preparada para aproveitar esta experiência da melhor forma possível. É uma preparação exigente, com muitos treinos e muita disciplina, mas tento viver cada dia e aproveitar cada sessão para melhorar, sem pensar demasiado no que vai acontecer quando chegar o momento de competir.

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FightNews: Se tivessem de escolher uma qualidade uma da outra enquanto boxeadora: o que torna a Sofia Resende especialmente forte dentro do ringue? E o que torna a Beatriz Almeida especialmente forte?

Beatriz Almeida: Estou sempre a dizer-lhe isto, mas a Sofia é uma inspiração para mim.

Admiro muito o foco e a garra dela e a forma como se entrega aos treinos. Trabalhar e crescer com ela tem sido especial.

A evolução que ela tem tido tem sido enorme e tenho mesmo muito orgulho nela.

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Sofia Resende: Ela traz-me muita leveza nos momentos em que me sinto mais tensa, nervosa ou ansiosa.

Tal como disse acima, já a via como uma inspiração antes de competir. Agora que treino diariamente com ela, admiro muito a sua determinação, resiliência e competitividade.

Adoro a intensidade que ela mete nos combates e é um orgulho e uma inspiração ver todo o caminho e evolução que ela está a fazer.

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FightNews: O boxe feminino está a crescer muito a nível internacional. Olhando para Portugal, o que acham que ainda precisa de mudar para que, daqui a alguns anos, não sejam apenas duas, mas muitas mais mulheres a lutar por um lugar na Seleção Nacional?

Beatriz Almeida: Acho que ainda há muito por fazer.

Precisamos de mais mulheres a começar no boxe e, para isso, é importante que o boxe feminino tenha mais visibilidade.

Quanto mais meninas virem outras mulheres a lutar, mais fácil será também para elas imaginarem-se a fazer o mesmo.

Somos poucas neste momento, mas espero que daqui a uns anos isso seja muito diferente e que existam muitas mais meninas a lutar por um lugar na Seleção.

Sofia Resende: Acredito que ainda há muito trabalho pela frente. Acho que precisamos, sobretudo, de continuar a dar visibilidade ao boxe feminino e criar mais oportunidades para que as meninas comecem e queiram permanecer na modalidade.

É bom que uma menina que queira experimentar boxe consiga olhar para outras atletas e pensar: “Eu também posso chegar aqui.”

Quanto mais referências tivermos, mais fácil será inspirarmos, de certa forma, a próxima geração.

Já temos competições muito boas em Portugal e com alto nível. É importante que também se invista mais nas condições dadas às atletas, para que o caminho possa ser levado ainda mais longe.

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FightNews: Imaginem uma rapariga em Portugal que está a ler esta entrevista, gostaria de experimentar boxe, mas ainda não tem coragem de entrar num ginásio. O que lhe diriam?

Beatriz Almeida: Experimentem.

Acho que, muitas vezes, o mais difícil é mesmo dar o primeiro passo. Se têm curiosidade ou vontade de experimentar, não pensem demasiado e apareçam num treino.

Não têm nada a perder e podem acabar por encontrar o “vosso” desporto.

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Sofia Resende: Ahaha, eu era essa menina!

Quando me sugeriram ir fazer boxe, eu ri-me e pensei que nunca o iria fazer. Dei por mim a dar demasiada importância àquela sugestão e acabei simplesmente por ir.

O que custa é sair de casa. Por isso, mesmo que tenham medo ou vergonha, experimentem.

O boxe pode parecer intimidante quando estamos de fora, mas, quando entramos, percebemos que é muito mais do que lutar.

Conhecem uma nova versão de vocês próprias. O boxe dá-nos disciplina, confiança e força.

Ninguém nasce a saber fazer nada. Começa-se simplesmente por dar o primeiro passo e, com o tempo e consistência, os resultados começam a aparecer!

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FightNews: Imaginem que o Campeonato Europeu terminou e acabaram de sair do ringue. Independentemente de medalhas ou resultados: o que teria de acontecer para poderem dizer a vocês próprias: “Tenho orgulho naquilo que mostrei aqui”?

Beatriz Almeida: Genuinamente, sei que vou sair de lá orgulhosa porque sei que vou dar tudo de mim.

Quero sentir que consegui mostrar o meu boxe e transmitir tranquilidade e inteligência dentro do ringue.

Acima de tudo, quero confiar no trabalho que fiz até chegar lá e conseguir fazer aquilo que sei fazer.

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Sofia Resende: É um tema que tenho desenvolvido muito nos últimos meses: não me prender simplesmente ao resultado, mas sim saber que dei tudo o que tinha.

Quero sair do ringue sem ficar com a sensação de que podia ter feito mais ou que deixei a pressão tomar conta de mim.

Se conseguir mostrar a atleta que se diverte a fazer o que mais gosta, competir sem se limitar e lutar até ao último segundo, vou sair orgulhosa de mim mesma, independentemente do resultado.

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FightNews: Para terminar, completem as duas a mesma frase, sem saber a resposta uma da outra:

“Neste Campeonato Europeu quero…”

Beatriz Almeida: Neste Campeonato Europeu quero fazer-me notar.

Sofia Resende: Neste Campeonato Europeu quero mostrar que treinei bastante para estar aqui.

Quero competir neste nível, nestes “palcos maiores”, aproveitar esta oportunidade e sentir que todo o trabalho que tenho feito tem um propósito e está a dar resultados!

Duas atletas. Uma equipa. Uma oportunidade.

Duas respostas diferentes para a mesma pergunta, mas uma ambição que se cruza.

Beatriz Almeida quer “fazer-se notar”. Sofia Resende quer mostrar que todo o trabalho realizado a trouxe até ali.

Em setembro, as duas vão vestir as cores de Portugal e subir ao ringue no Campeonato Europeu.

Mais do que representar uma Seleção, levam consigo o trabalho de meses, a evolução de um ano e a vontade de provar que estão preparadas para competir entre as melhores da Europa.

E, enquanto procuram o seu próprio espaço neste grande palco internacional, Sofia Resende e Beatriz Almeida sabem também que podem estar a abrir caminho para muitas outras meninas que, no futuro, sonhem fazer o mesmo.