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Grão-Mestre Edinei Pedroso: “Indestrutível” é a palavra que resume quase quatro décadas de Muay Thai
Do primeiro contacto com o Muay Thai, aos 17 anos, à formação de atletas e campeões, Edinei Pedroso recorda uma trajectória marcada por desafios, conquistas e uma missão que continua viva. Em novembro, será homenageado no Hall da Fama da CBMT.
31/08/2026 14h22
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
Imagem cedida Assessoria Margot Brasil

Há histórias que se confundem com a própria evolução de uma modalidade. A trajectória do Grão-Mestre Edinei Pedroso é uma delas. Natural de Carlópolis, no interior do Paraná, o brasileiro teve o primeiro contacto com o Muay Thai aos 17 anos, numa época em que treinar a modalidade significava enfrentar limitações que hoje parecem impensáveis.

Sem a estrutura e os equipamentos actualmente disponíveis, Edinei encontrou no Muay Thai um novo mundo e, com o passar dos anos, transformou a paixão pela modalidade numa missão de vida. Foram 69 lutas, 45 vitórias, títulos, combates internacionais, a formação de atletas e campeões e a criação da World Strong Fight Team.

Em novembro, a sua trajectória será reconhecida com a entrada no Hall da Fama da CBMT, distinção que o próprio considera “o ponto máximo onde uma pessoa pode chegar”.

Nesta entrevista, Edinei Pedroso revisita o início da sua história, recorda os combates que mais o marcaram, fala sobre os atletas que ajudou a formar e explica por que razão, mesmo depois de tantos anos, continua a considerar o Muay Thai uma verdadeira filosofia de vida.

“Aquilo era totalmente diferente de tudo o que eu conhecia como desporto”

FightNews: Edinei, vamos começar pelo princípio. Como surgiu o seu primeiro contacto com as artes marciais e, concretamente, com o Muay Thai?

Eu sou natural de Carlópolis, no interior do Paraná. Tinha 17 anos e, após as aulas, pelo período da tarde, eu e os meus amigos íamos à praça jogar ou nadar, mas sempre estávamos a praticar desporto, até que um amigo apareceu com um uniforme que tinha na lateral das pernas duas cobras Naja desenhadas, entrelaçadas numa faixa branca.

Isso aguçou a minha curiosidade e perguntei do que se tratava. Ele disse que estava a praticar Muay Thai, que era boxe tailandês.

Então, eu e os meus amigos fomos até esta academia e matriculámo-nos. Aquilo era totalmente diferente de tudo o que eu conhecia como desporto. Senti-me noutro mundo.

Imagem cedida Assessoria Margot Brasil

Os primeiros tempos do Muay Thai no Brasil

FightNews:Como era praticar Muay Thai no Brasil naquela época, especialmente em Curitiba? Era fácil encontrar informação, professores e estruturas para treinar?

Na minha época, não era nada fácil treinar, porque só havia duas academias e uma era rival da outra.

Fora isso, há o facto de que, naqueles tempos, não havia a infraestrutura de hoje. Não havia manopla, não existia aparador de chute. Tudo era muito rudimentar, a estrutura e os treinos eram muito crus e isso, de alguma maneira, fazia com que todos os alunos fossem muito mais focados em aprender e reproduzir cada movimento que o professor passava, pois era tudo o que tínhamos ao nosso dispor.

Essa era a vida real do Muay Thai. Só havia saco de pancada e luva para a gente sair na porrada (sic), também não havia torneio, era só exame de graduação.

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Uma mensalidade paga com trabalho numa academia

FightNews:Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou nos primeiros anos de treino e quem foram as pessoas que mais influenciaram a sua formação enquanto praticante e que tiveram importância na construção do seu caminho nas artes marciais?

Duas pessoas marcaram-me muito e tenho grande admiração por eles até hoje: o Mestre e meu professor Rubens Melantonio Filho e os parceiros de treino André Sapão, Pedroski e Leandro Fras.

A grande dificuldade era pagar a mensalidade, que na época custava um salário mínimo. No primeiro mês, vendi um rádio que tinha ganho dos meus pais e, quando estava perto de vencer a próxima mensalidade, o meu mestre resolveu abrir uma segunda academia e precisava de mão de obra.

Ele disse que quem ajudasse a construir a Muay Thai 2 nunca mais pagaria mensalidade e eu apresentei-me como voluntário, como ajudante de pedreiro, e fui até ao fim da obra, trabalhando, e nunca mais paguei mensalidade.

O trabalho durou 11 meses e 30 dias. Envolvia a limpeza das telhas com escovão, a subida de baldes com concreto para o andar de cima da laje. Lembro-me de que, conforme o tempo ia passando, o número de pessoas a ajudar na obra ia diminuindo e, no fim, só havia eu e mais um.

Faltava um dia para terminar e eu olhei para ele e falei: “Não adianta esperar amanhã porque não vem mais ninguém, vamos dar uma adiantada e terminar tudo hoje?” Ele concordou e entregámos a obra um dia antes do prazo.

Imagem cedida Assessoria Margot Brasil

De paixão a missão de vida

FightNews:Em que momento percebeu que as artes marciais deixariam de ser apenas uma paixão e passariam a ser uma missão de vida?

Eu percebi que ali era a minha vida quando comecei a lutar, em 1988, e também com a presença cada vez maior do meu mestre, apoiando-me e vendo a minha evolução, e depois convidando-me para dar aulas.

Na Muay Thai 2, comecei a dar aulas em alguns horários, até que foi inaugurada a Muay Thai 3 e fiquei responsável por todos os horários da sede 2.

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Os combates que ficaram na memória

FightNews:Quais foram os momentos mais marcantes da sua trajectória enquanto atleta e praticante? Existe algum combate, competição ou episódio da sua carreira que tenha ficado especialmente marcado na sua memória? Porquê?

Foram duas lutas específicas que marcaram a minha vida, uma contra o paulista Francisco Veras, em São Paulo, e a outra contra o curitibano Carlos Santos.

A luta contra o Veras teve um peso grande, pois ele era um adversário invicto que ostentava os títulos Sul-Americano e Intercontinental. Ao chegar a São Paulo, a equipa local tratava-me com desdém, como se a derrota já estivesse consumada. No entanto, eu ganhei.

E, com Carlos Santos, foram cinco rounds muito pesados, que também terminei vencedor.

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A criação da World Strong Fight Team

FightNews:A criação da World Strong Fight Team representa uma parte muito importante da sua história. Como nasceu a equipa?

Eu era o único lutador, mas já tinha uma equipa de alunos e sofri um acidente. Comecei a colocar os meus atletas para lutar e eles começaram a trazer grandes resultados.

Entre eles, Tico Pedroso, Ariel Machado, Sidnei Silva, Petros Freitas e Silvio Cursio.

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O orgulho de formar atletas e campeões

FightNews: Ao longo dos anos, passaram pela sua equipa atletas que chegaram a competir em grandes palcos nacionais e internacionais. O que significa para si ver um atleta que começou consigo alcançar grandes resultados?

É uma sensação de orgulho e trabalho bem concluído, por ver que passei o que me foi ensinado pelo mestre Rubens e que antes foi ensinado a ele pelo Mestre Nélio Naja. Ou seja, cumpri o meu dever e eles foram escrevendo o nome deles em competições como:

Tico Pedroso, que ganhou o GP Brave e o Hurricane Demolition; Ariel Machado, campeão brasileiro e sul-americano; Silvio Curcio, Storm Muay Thai.

Além deles, Edinei também treinou Petros Freitas, campeão sul-americano em Buenos Aires e campeão do GP WGP Super 8 e postulante ao título WGP.

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De atleta a treinador e mentor

FightNews:Depois de tantos anos ligados à competição, como foi a transição de atleta para treinador e mentor de outros lutadores?

Eu fiz 69 lutas, com 45 vitórias. Fui campeão brasileiro e lutei também noutros países, como Argentina e Ucrânia.

Chegou um momento em que senti que precisava de espalhar isso através de outras pessoas e comecei a forjar os meus alunos em atletas e depois em lutadores e campeões.

Isso realizou-me muito.

“As pessoas procuram a academia buscando saúde”

FightNews: Muitas pessoas entram numa academia à procura de aprender a lutar, mas acabam por transformar completamente a sua vida. O que acredita que as artes marciais podem ensinar a uma pessoa fora do ringue?

Eu creio que ninguém procura uma academia para se tornar um lutador. As pessoas procuram a academia buscando saúde e acabam por encontrar uma forma de driblar o stress e vendo que ali é uma família e gostam disso.

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A entrada no Hall da Fama da CBMT

FightNews: Agora chegamos a um momento muito especial da sua carreira: a homenagem no Hall da Fama da CBMT, em novembro próximo. Como recebeu a notícia de que seria homenageado? O que representa para si este reconhecimento, depois de quase quatro décadas dedicadas às artes marciais?

Entrar para o Hall da Fama é uma honraria. Eu sei que o meu nome não será esquecido.

Eu não tenho nem palavras para descrever... É o ponto máximo onde uma pessoa pode chegar. Para mim é isso.

“O Muay Thai é a minha vida”

FightNews: Para si, o que significa entrar para um Hall da Fama do Muay Thai Brasileiro? É o reconhecimento de um trabalho já realizado ou também uma responsabilidade para continuar a contribuir para o crescimento do Muay Thai?

Significa ambos, o reconhecimento de tudo a que me dediquei e vivi. O Muay Thai é a minha vida e, portanto, continuarei activo e ensinando mais pessoas esta filosofia de vida.

Muay Thai não é só treino e competição... é uma forma de olhar ao redor e perceber a vida, onde o que é correcto tem que estar em primeiro lugar.

Onde a união ensina, na prática, como a força e o respeito modificam vidas e dão a eles propósito.

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“Indestrutível”

FightNews: Depois de tantos anos de Muay Thai, se tivesse de resumir toda a sua trajectória numa única palavra, qual seria essa palavra e porquê?

Indestrutível.

Indestrutível porque sofri muitas pressões para parar de dar aulas e nem isso me fez parar.

Em maio de 2023, tive um AVC que me tirou a mobilidade do lado esquerdo e, assim mesmo, continuo à frente das decisões burocráticas e graduações da minha academia.

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O legado para a nova geração

FightNews: Para terminar, que mensagem gostaria de deixar para a nova geração de professores e treinadores que está a surgir no Muay Thai e no Kickboxing brasileiro?

Para a nova geração, deixo o seguinte recado: carácter, ser uma boa pessoa, ensinar disciplina e a honra que o mestre passou e eles devem passar aos seus alunos.

Cada aluno é um ser humano com dificuldades e dúvidas e devemos dar atenção a isso.

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Um legado que continua dentro e fora do ringue

A história de Edinei Pedroso ultrapassa os resultados obtidos enquanto atleta. Das primeiras aulas num Muay Thai ainda rudimentar à formação de lutadores e campeões, o Grão-Mestre construiu uma trajectória assente na transmissão de conhecimento, disciplina, carácter e respeito.

Agora, perante o reconhecimento do Hall da Fama da CBMT, a palavra escolhida pelo próprio para definir o seu percurso ganha ainda mais força: “Indestrutível”.

Quase quatro décadas depois de descobrir o Muay Thai, aos 17 anos, Edinei Pedroso continua ligado à modalidade e mantém a mesma convicção que marcou todo o seu caminho: o Muay Thai não termina no treino ou na competição; é, para ele, uma filosofia de vida.