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A Psicologia de saber lutar
O que muda na cabeça de uma mulher quando ela aprende a defender-se?
10/08/2026 17h39 Atualizada há 3 horas
Por: Ananda D´Ecanio Fonte: Redação FightNews
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Das sufragistas que aprenderam jūjutsu no início do século XX aos estudos contemporâneos sobre autodefesa feminina, a investigação sugere que aprender a defender-se pode produzir efeitos que começam muito antes de uma agressão: na percepção de capacidade, nos limites, na leitura do risco e na autonomia.

 

Em julho de 1910, a revista britânica Punch publicou uma caricatura com um título curioso: “The Suffragette that Knew Jiu-Jitsu. The Arrest”. A imagem mostrava uma sufragista a dominar fisicamente um polícia e fazia parte de um fenómeno que já chamava a atenção da imprensa britânica: mulheres ligadas ao movimento pelo direito ao voto estavam a aprender jūjutsu. A relação não era apenas simbólica. A instrutora Edith Garrud deu demonstrações para a Women’s Social and Political Union (WSPU) e passou a ensinar aulas de jūjutsu destinadas às suas integrantes; anos depois, treinaria também a unidade de proteção da organização conhecida como Bodyguard.

A história é mais do que uma curiosidade do passado. Investigadores que estudaram Garrud e outras pioneiras das artes marciais no início do século XX mostram que o jūjutsu foi utilizado simultaneamente como autodefesa, instrumento político e forma de questionar ideias estabelecidas sobre fragilidade feminina. Garrud insistia publicamente na utilidade da prática para a proteção das mulheres diante da violência masculina, tanto na rua como no espaço doméstico.

Mais de cem anos depois, é justamente com aquela caricatura da sufragista que a filósofa Sylvia Burrow abre o capítulo “Martial Arts and Moral Life”, publicado em Philosophy and the Martial Arts: Engagement. A escolha não é acidental. Burrow quer discutir algo que vai além da capacidade de executar uma técnica: o que aprender a defender-se pode fazer com a maneira como uma mulher percebe a própria vulnerabilidade, as suas escolhas e a sua capacidade de manter essas escolhas diante de pressão.

É importante dizer desde o início que o texto de Burrow não é um estudo experimental sobre mulheres que praticam artes marciais. Trata-se de um ensaio filosófico que constrói um argumento a partir de investigação já existente sobre violência contra as mulheres, autodefesa, medo, autoestima, autoeficácia e treino marcial. A sua tese central é que autoconfiança pode ser relevante para duas capacidades que considera fundamentais na vida moral: autonomia e integridade.

A autodefesa pode começar antes da agressão

Quando se fala em autodefesa feminina dentro das artes marciais, é comum imaginar o momento em que algo já aconteceu: como libertar-se de uma pega, criar distância, bloquear uma agressão ou conseguir escapar.

Burrow desloca a pergunta para um momento anterior.

Uma ameaça pode influenciar uma pessoa mesmo sem nunca se concretizar. O medo do que pode acontecer é capaz de alterar percursos, comportamentos, relações e decisões. No caso das mulheres, a autora discute como o receio da violência pode interferir na capacidade de fazer determinadas escolhas ou de percebê-las como verdadeiramente disponíveis.

Isso não significa que aprender autodefesa faça uma mulher deixar de sentir medo. Muito menos significa que ela passará a conseguir enfrentar fisicamente qualquer agressor.

A mudança que interessa a Burrow é mais subtil: o que acontece quando uma mulher deixa de se perceber como completamente sem resposta?

Há uma diferença entre reconhecer que uma situação é perigosa e acreditar que, diante dela, não existe nenhuma possibilidade de ação. E “ação”, neste contexto, não significa necessariamente bater, derrubar ou imobilizar alguém. Pode significar identificar o risco antes, sair, verbalizar um limite, procurar ajuda, criar distância ou decidir não entrar numa determinada situação.

É aí que autodefesa e autonomia começam a encontrar-se.

Saber uma técnica e sentir-se capaz não são a mesma coisa

Esta distinção também aparece na investigação psicológica.

Num estudo publicado em 2000 no Journal of Applied Psychology, Janet Weitlauf, Ronald Smith e Daniel Cervone analisaram os efeitos de treino físico de autodefesa sobre diferentes dimensões da autoeficácia de mulheres. Os resultados mostraram aumentos não apenas na confiança especificamente relacionada com autodefesa, mas também em percepções mais amplas de eficácia física e global.

Isto ajuda a explicar uma experiência que muitas praticantes reconhecem intuitivamente: aprender uma técnica é uma coisa; começar a perceber o próprio corpo como capaz de aprender, resistir, adaptar-se e responder sob pressão é outra.

Burrow utiliza precisamente essa diferença para construir o seu argumento. Se o treino altera a confiança que uma pessoa tem nas próprias capacidades, os seus efeitos podem não ficar confinados ao espaço onde a técnica foi aprendida.

Mas é importante não transformar esta ideia numa promessa exagerada. Nenhum destes resultados permite concluir que frequentar algumas aulas fará automaticamente uma mulher mais segura, mais autónoma ou mais capaz de enfrentar violência.

A questão é probabilística e contextual, não mágica.

Autonomia não significa reagir a tudo

Talvez um dos pontos mais interessantes do capítulo de Burrow seja justamente aquilo que ele não diz.

Mais confiança não significa mais confrontação.

Uma mulher que aprende a defender-se não passa a ter a obrigação de reagir fisicamente a um assalto, enfrentar um parceiro violento ou testar as próprias competências numa situação que possa colocar a sua vida em risco.

Burrow utiliza um exemplo muito simples: se alguém lhe apontasse uma arma exigindo a carteira, entregar a carteira poderia continuar a ser a escolha mais sensata. A existência de uma capacidade de defesa não transforma todas as situações em combates que devem ser vencidos.

A autonomia está justamente na possibilidade de escolher.

E isso torna a discussão sobre autodefesa muito mais interessante do que a fantasia da mulher que aprende a lutar e deixa de precisar de ter medo.

O risco continua a existir. Diferenças de força continuam a existir. Armas, surpresa, múltiplos agressores e inúmeras outras variáveis tornam qualquer promessa de invulnerabilidade irresponsável.

Autodefesa não elimina vulnerabilidade. Pode, porém, alterar a relação de uma mulher com a ideia de impotência.

Quando a autodefesa ultrapassa o confronto físico

Outro estudo importante foi publicado pela socióloga Jocelyn Hollander em 2014. A investigação acompanhou uma disciplina universitária feminista de autodefesa com duração de dez semanas e comparou as participantes com mulheres semelhantes que não realizaram o curso. Ao longo de um ano, as mulheres que receberam o treino relataram menos agressões sexuais e maior confiança na capacidade de resistir eficazmente a uma agressão.

O estudo não prova que toda aula de autodefesa produz os mesmos resultados. O próprio programa tinha características específicas e foi realizado num contexto universitário. Mas é uma das evidências que ajudam a sustentar a ideia de que autodefesa pode ter consequências comportamentais e psicológicas que vão além de memorizar respostas físicas.

Essa dimensão aparece de forma ainda mais explícita numa investigação publicada em 2023 sobre o programa feminista de autodefesa IMPACT. Noventa e sete participantes foram questionadas sobre quais competências continuavam a utilizar meses ou anos depois do curso. Os principais temas que emergiram foram consciência das situações, estabelecimento de limites, linguagem corporal assertiva e gestão da adrenalina para prevenir ou interromper comportamentos desconfortáveis, invasivos ou hostis.

É uma informação particularmente interessante porque desloca novamente o centro da autodefesa.

A memória mais importante do treino não precisa de ser uma técnica.

Pode ser perceber mais cedo que alguma coisa não está bem.

Reconhecer violência também faz parte da discussão

Burrow dedica parte do capítulo ao facto de a violência contra as mulheres não se resumir a ataques físicos de desconhecidos. O texto discute intimidação, coerção, isolamento, abuso emocional, controlo económico e outras formas através das quais poder e controlo podem interferir na autonomia de uma pessoa. Também questiona a forte socialização para temer a violência de estranhos quando a ameaça pode surgir dentro de relações próximas.

Isto tem uma consequência importante para a maneira como pensamos autodefesa.

Se a imagem clássica é a de uma mulher surpreendida na rua, uma concepção mais ampla exige também capacidade de reconhecer comportamentos que procuram intimidar, controlar ou diminuir progressivamente a liberdade de decisão.

Nem toda ameaça começa com um golpe.

E perceber isso não significa transferir para a mulher a responsabilidade de impedir a violência. A responsabilidade pela agressão continua a ser de quem a pratica. O treino oferece recursos; não cria uma garantia de prevenção nem transforma a vítima em responsável pelo resultado.

Há evidência de que programas de resistência podem reduzir vitimização?

Aqui é preciso separar artes marciais convencionais de programas especificamente concebidos para prevenção e resistência à violência sexual.

Um dos estudos mais robustos nesta área foi publicado em 2015 no New England Journal of Medicine. No ensaio de Charlene Senn e colegas, 916 universitárias foram inicialmente randomizadas; 893 entraram na análise final, 451 no grupo de intervenção e 442 no controlo. As participantes do grupo de intervenção receberam um programa estruturado que ensinava avaliação de risco, reconhecimento de perigo e estratégias verbais e físicas de resistência.

Ao fim de um ano, a incidência de violação consumada foi de 5,2% no grupo que recebeu o programa contra 9,8% no grupo de controlo. Para tentativas de violação, os valores foram 3,4% contra 9,3%.

São resultados importantes, mas é igualmente importante dizer aquilo que não demonstram.

O programa não era simplesmente uma aula de Jiu-Jitsu, Krav Maga, boxe ou outra modalidade. Tratava-se de uma intervenção especificamente desenhada para resistência à agressão sexual, combinando reconhecimento de risco, educação, componentes verbais e resistência física. Portanto, esses números não podem ser utilizados para afirmar que qualquer arte marcial reduz o risco de violação pela mesma proporção.

Uma revisão integrativa publicada no Journal of the American Psychiatric Nurses Association, disponível online desde 2024 e integrada no volume de 2025, analisou 19 publicações quantitativas entre 2011 e 2023. Os autores encontraram evidência consistente de menor ocorrência de contacto sexual não consentido, tentativas de violação e violações consumadas em vários programas de autodefesa estudados. Para autoeficácia, os resultados também foram globalmente favoráveis, embora os métodos e programas variassem bastante. A própria revisão ressalva que ainda é necessário determinar quais conteúdos, durações e formatos são mais eficazes e ampliar a investigação para populações mais diversas.

Há outro detalhe revelador nessa revisão: entre os programas analisados havia cursos feministas de autodefesa, intervenções específicas de resistência sexual, programas comunitários e até uma disciplina universitária de karaté. Os resultados não foram uniformes entre todos eles. Isso reforça a necessidade de não tratar “artes marciais” e “programas de autodefesa baseados em evidência” como se fossem exatamente a mesma coisa.

E as artes marciais?

É aqui que a resposta precisa de ser mais cuidadosa.

Existem investigações que encontram diferenças psicológicas positivas entre mulheres praticantes de artes marciais e outros grupos. Um estudo publicado em 2025, por exemplo, comparou 407 mulheres que praticavam Muay Thai, kickboxing, boxe ou Taekwondo com 395 praticantes de Pilates e encontrou valores superiores nas praticantes de artes marciais em duas dimensões de resiliência psicológica — controlo e desafio — mas inferiores na dimensão compromisso.

O próprio desenho desse estudo, porém, não permite concluir que as artes marciais causaram essas diferenças. É um estudo comparativo baseado em questionários, e as mulheres que escolhem modalidades de combate podem diferir previamente das que escolhem outras atividades. Os próprios resultados também mostram que os possíveis benefícios não aparecem de forma uniforme em todas as dimensões avaliadas.

Essa cautela já estava presente no texto de Sylvia Burrow. O capítulo propõe que o treino marcial pode contribuir para autoconfiança, autonomia e integridade, mas reconhece que são necessárias mais investigações sobre diferenças entre modalidades, métodos de treino, contextos e formas de ensino.

Isso talvez seja especialmente importante para academias que anunciam “autodefesa feminina”.

Não basta uma modalidade possuir técnicas potencialmente úteis. É preciso perguntar o que está realmente a ser ensinado, como é treinado, se existe oposição realista, se há trabalho de reconhecimento e prevenção, se se discutem limites e fuga, e se o ambiente aumenta a capacidade de decisão da praticante em vez de simplesmente exigir obediência.

Essa última reflexão é uma interpretação editorial a partir da literatura, e não uma conclusão experimental específica de Burrow.

Talvez a maior mudança não seja aprender a lutar

A imagem da sufragista de 1910 continua poderosa porque concentra numa única cena uma inversão que parecia quase absurda para a sociedade da época: uma mulher que deveria ser fisicamente vulnerável aparecia como alguém capaz de resistir.

Edith Garrud utilizou o jūjutsu para desafiar precisamente essa representação. Os historiadores que estudaram o período concluem que a prática apresentou às mulheres novas possibilidades para compreender o próprio género e colocou em causa noções estabelecidas sobre vulnerabilidade feminina.

Mais de um século depois, a investigação permite olhar para essa transformação com menos romantismo e mais precisão.

Aprender autodefesa não garante que uma mulher conseguirá derrotar um agressor. Não elimina diferenças físicas. Não impede toda violência. Não transforma medo em invulnerabilidade.

Mas programas de autodefesa estudados cientificamente têm sido associados a aumentos de autoeficácia e capacidade percebida, e algumas intervenções estruturadas produziram reduções mensuráveis em formas de vitimização sexual. Mulheres que participaram em programas feministas de autodefesa também relatam utilizar competências como consciência situacional, imposição de limites e gestão da adrenalina muito depois do treino.

É neste ponto que a proposta filosófica de Sylvia Burrow ganha força.

Talvez o valor da autodefesa feminina não possa ser medido apenas pela pergunta: “Ela conseguiria vencer uma luta?”

Uma pergunta mais interessante seria:

“Depois de aprender a defender-se, quantas situações ela passou a perceber de forma diferente?”

Talvez tenha reconhecido um limite antes. Talvez tenha pedido ajuda. Talvez tenha decidido sair. Talvez tenha dito não. Talvez tenha percebido melhor um risco. Talvez tenha descoberto que consegue continuar a tomar decisões mesmo quando sente medo.

E talvez nunca precise de utilizar uma única técnica fora da academia.

Isso não tornaria o treino inútil.

Pelo contrário.

Porque, como sugere Burrow, a autodefesa pode ter importância não apenas por aquilo que permite fazer fisicamente, mas por aquilo que pode alterar na relação de uma mulher com autoconfiança, autonomia, integridade e a percepção das próprias possibilidades.

Fonte base: Sylvia Burrow, “Martial Arts and Moral Life”, em Philosophy and the Martial Arts: Engagement (Routledge, 2014), complementada nesta matéria exclusivamente por estudos académicos e fontes científicas verificadas.

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