Uma das frases mais repetidas por quem não acompanha MMA é que, dentro do Octógono, "vale tudo". A expressão vem dos primórdios da modalidade, quando as regras ainda estavam em desenvolvimento, mas hoje está completamente desajustada da realidade. O MMA moderno é um dos desportos de combate mais regulamentados do mundo. Existem dezenas de ações proibidas, critérios de segurança rigorosos e uma estrutura de arbitragem preparada para identificar e penalizar qualquer infração.
No artigo anterior abordámos os diferentes tipos de vitória. Hoje vamos olhar para o outro lado da moeda: as faltas que podem mudar completamente o rumo de um combate.
As infrações podem ser divididas em três grandes grupos: comportamentais, físicas e ataques a um atleta em posição de grounded.
Nem todas as infrações envolvem golpes ilegais. Algumas estão relacionadas com a conduta dos atletas e das equipas. O uso de linguagem ofensiva ou inapropriada, atitudes antidesportivas que provoquem lesão no adversário, atacar antes do início do combate, durante uma pausa ou após o final da luta são exemplos claros de comportamentos proibidos.
Também constitui infração atacar um adversário que esteja sob a proteção do árbitro ou do médico, fugir deliberadamente ao combate (timidity), ignorar instruções do árbitro ou beneficiar da interferência dos treinadores e membros da equipa. Embora estas situações possam parecer raras, representam uma ameaça direta à integridade da competição e ao respeito pelas regras.
Imagem cedida João Vitor Costa
É neste grupo que encontramos as infrações mais conhecidas pelo público. São proibidas cabeçadas, ataques aos olhos, mordidas, cuspir no adversário, puxões de cabelo e o chamado fish hook, técnica que consiste em introduzir os dedos na boca ou noutras cavidades para controlar ou causar dor ao adversário.
Também são ilegais os ataques aos genitais, a manipulação das pequenas articulações, como os dedos das mãos e dos pés, a utilização de dedos esticados para medir a distância de forma perigosa, bem como atacar ou agarrar a garganta.
Outras ações proibidas incluem arranhar, beliscar ou torcer a pele, atacar diretamente a coluna vertebral ou a nuca e executar técnicas de spiking, nas quais o adversário é projetado de forma perigosa sobre a cabeça. Além disso, agarrar o equipamento do adversário, segurar a rede ou as cordas da área de combate também constitui infração.
Imagem cedida João Vitor Costa
Uma das áreas mais debatidas no MMA moderno está relacionada com os atletas considerados grounded. Um atleta é considerado grounded quando tem qualquer parte do corpo em contacto com o solo, excetuando as mãos e os pés.
Nestas situações existem técnicas especificamente proibidas devido ao risco acrescido de lesão. Entre elas encontram-se os pontapés na cabeça, as joelhadas na cabeça e os pisões.
São precisamente estas regras que muitas vezes geram polémica entre atletas, treinadores e público, mas que têm como principal objetivo proteger a integridade física dos competidores.
Nestes casos, o papel do árbitro vai muito além de identificar uma falta. O árbitro tem de avaliar a gravidade da infração, perceber se foi intencional ou acidental e decidir qual a sanção adequada.
Dependendo da situação, pode haver uma simples advertência verbal, dedução de pontos, desqualificação imediata ou até um No Contest. É uma responsabilidade enorme, tomada em segundos e sob enorme pressão.
A existência destas faltas demonstra uma realidade que muitos continuam a ignorar: o MMA não é um combate sem regras. É um desporto altamente regulamentado, onde a liberdade de competir termina no momento em que a segurança dos atletas é colocada em risco.
Imagem cedida João Vitor Costa
E fica a pergunta: se o MMA tem tantas regras, tantos critérios e tantas limitações técnicas, porque continua tanta gente a dizer que "vale tudo"?
No próximo artigo, iremos explorar em detalhe as diferenças regulamentares entre os vários escalões da modalidade, desde os Youth até ao nível profissional, e perceber como as regras evoluem em função da idade, da experiência e da responsabilidade exigida a cada atleta.