
Quem pratica Kickboxing, Boxe, MMA, Muay Thai ou qualquer modalidade de striking já ouviu, certamente, a velha máxima: "Para ter bom cardio, é preciso correr."
A corrida faz parte da rotina de praticamente todos os atletas de desportos de combate. Ajuda a desenvolver a resistência cardiovascular, melhora a recuperação e fortalece a capacidade aeróbica.
Mas há uma questão que continua a surgir dentro e fora dos ginásios: porque é que tantos atletas, mesmo correndo diariamente, continuam a perder intensidade nos últimos minutos do combate?
A resposta parece estar na especificidade do treino.

Imagem Instagram Escola do Nocaute
É comum ver atletas acumularem quilómetros na estrada durante meses, construindo uma sólida base aeróbica. Ainda assim, quando chegam ao terceiro round, a velocidade diminui, os reflexos tornam-se mais lentos e a capacidade de manter o mesmo ritmo de combate desaparece.
A razão não está na falta de preparação.
O problema é que uma luta de Kickboxing ou de outra modalidade de striking dificilmente se parece com uma corrida contínua.
Enquanto uma corrida desenvolve a capacidade de manter um esforço prolongado e relativamente constante, um combate é composto por sucessivas explosões de intensidade máxima, seguidas de curtos períodos de recuperação incompleta.
É precisamente esta diferença que faz toda a diferença.

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Durante um combate de Kickboxing, o atleta alterna constantemente entre momentos de máxima intensidade — combinações rápidas, deslocações explosivas, ataques e defesas — e pequenos períodos de recuperação ativa.
Estas sequências repetem-se ao longo de três ou mais rounds.
Na prática, o organismo é obrigado a responder continuamente através do sistema anaeróbico, suportando elevados níveis de intensidade quando já existe acumulação de fadiga.
Já a corrida contínua trabalha predominantemente o sistema aeróbico, preparado para esforços longos e estáveis.
São dois estímulos fisiológicos distintos.
Treinar apenas um deles significa chegar preparado apenas para parte das exigências da luta.

É precisamente aqui que entra o treino intervalado de alta intensidade (HIIT).
Ao alternar períodos curtos de esforço máximo com recuperações incompletas, o HIIT consegue reproduzir de forma muito mais fiel aquilo que acontece dentro do ringue.
Em vez de correr durante vários quilómetros a um ritmo constante, o atleta aprende a repetir explosões intensas sucessivas, mantendo elevados níveis de rendimento mesmo quando o cansaço já se faz sentir.
Esta capacidade torna-se particularmente importante nos últimos rounds, onde muitas vezes se decide o vencedor de um combate.
Diversos estudos sobre modalidades de striking demonstram que os combates decorrem frequentemente com intensidades médias superiores a 85% do VO₂ máximo durante as fases de trocação.
Trata-se de uma intensidade que a corrida contínua raramente consegue reproduzir.
Em contrapartida, protocolos específicos de HIIT conseguem aproximar-se dessas exigências fisiológicas.
Além disso, atletas que substituíram parte do volume de corrida por treino intervalado específico conseguiram manter — ou até melhorar — o rendimento físico durante os rounds finais.
Isto não significa que a corrida deva desaparecer da preparação dos atletas.
Muito pelo contrário.
A corrida continua a desempenhar um papel importante na construção da capacidade aeróbica, na recuperação entre sessões de treino e no desenvolvimento da resistência geral.
O ponto essencial é compreender que correr, por si só, não prepara totalmente um atleta para aquilo que acontece dentro do ringue.
Para responder às exigências reais de um combate, é necessário complementar esse trabalho com métodos de treino específicos que reproduzam a intensidade, a imprevisibilidade e os padrões de esforço característicos dos desportos de combate.

À medida que a ciência do treino evolui, também a preparação física dos atletas de Kickboxing, Boxe, MMA e Muay Thai tem vindo a adaptar-se às verdadeiras exigências da competição.
Hoje, treinadores e preparadores físicos procuram cada vez mais aproximar o treino da realidade do combate, privilegiando métodos que desenvolvam não apenas a resistência geral, mas sobretudo a capacidade de manter potência, velocidade e lucidez até ao último segundo.
Porque, no final, vencer um combate não depende apenas de ter "gás".
Depende de preparar o corpo para responder exatamente ao tipo de esforço que o ringue vai exigir.