Durante muitos anos, achei que o caminho natural de qualquer atleta passava pela competição.
Cresci num ambiente onde competir era o objetivo. Treinávamos para competir, evoluíamos para competir e, muitas vezes, o sucesso media-se pelas medalhas conquistadas ou pelo desempenho nas provas. Consequentemente, durante muito tempo, essa também foi a minha forma de ver o desporto. Mas será que, ao querermos criar mais competidores, não estaremos a esquecer-nos de perguntar porque é que cada atleta começou a treinar?
Sou a Bárbara. Sê bem-vindo ao Meu Canto.
Hoje deixo uma pergunta que me tem acompanhado cada vez mais:
Quando é que competir deixa de ser um objetivo e passa a ser uma obrigação?
Quando comecei a dar treinos, continuei a acreditar que incentivar os meus atletas a competir era a melhor forma de os fazer evoluir e continuo a acreditar que a competição tem um valor enorme. Competir obriga-nos a sair da zona de conforto, expõe as nossas fragilidades e faz-nos crescer de uma forma que poucos treinos conseguem. Além disso, regra geral, quanto mais experiência competitiva temos, mais preparados nos sentimos para a seguinte.
Imagem cedida Bárbara Silva
Foi aí que um atleta meu me fez parar para pensar.
Era um atleta em clara evolução. Treinava melhor, competia melhor, estava mais confiante e tudo indicava que, mais cedo ou mais tarde, os resultados iam aparecer. Ainda não tinha chegado ao pódio em nenhuma competição, mas estava a enfrentar atletas muito experientes e a crescer de forma evidente.
Por isso, quando me disse que queria fazer uma pausa nas competições, fiquei surpreendida.
Na minha cabeça, não fazia sentido. Eu via evolução, via progresso, via potencial. Mas percebi que estava a olhar para a situação através dos meus objetivos, não dos dele.
Mais tarde, comecei a entender melhor. Para ele, não bastava evoluir ou ter um bom desempenho em competição. O objetivo era ganhar. Era subir ao pódio. Era sentir que o esforço se traduzia em vitórias. E enquanto isso não acontecia, toda a evolução que eu via não era suficiente para alimentar a motivação dele.
E foi aí que percebi uma coisa importante: nem todos os atletas entram na competição com o mesmo objetivo que nós, treinadores, imaginamos, por mais que lhes tentemos passar esses valores.
Talvez o problema não esteja em competir demasiado. Talvez esteja em competir sem um propósito claro. Sem que os atletas se perguntem “porquê” e sem que nós, treinadores, saibamos as suas ambições concretas.
Imagem cedida Bárbara Silva
Hoje existem muito mais oportunidades para competir do que existiam há alguns anos e, à primeira vista, isso é bastante positivo. Mais competições significam mais experiência, mais aprendizagem e mais oportunidades de evolução.
Mas comecei a perguntar-me se esse acesso tão fácil também não nos faz correr outro risco: o de banalizar aquilo que torna uma competição especial.
Competir é uma escolha. E escolher também é abdicar.
É dizer que não a um jantar de amigos porque estás em preparação. É organizar a tua vida em função de um objetivo que, muitas vezes, não é visível para quem está de fora.
É estar em corte de peso e, ao mesmo tempo, tentar manter a cabeça focada no trabalho ou nos estudos — mesmo quando isso significa lidar com testes, exames, responsabilidades profissionais e relações pessoais que não param por causa de uma competição.
É treinar sem a mesma energia porque a alimentação já não é a habitual. E, para muitas atletas, é também aprender a gerir o próprio corpo numa fase do mês em que ele não ajuda.
E no meio disto tudo, chega sempre o mesmo pensamento:
“Como é que vou conseguir conciliar isto tudo?”
E, quase sempre, uma pergunta ainda mais honesta logo a seguir:
“Porque é que aceitei esta competição?”
A verdade é que essa dúvida não é um problema. Faz parte.
O problema começa quando deixamos de conseguir responder-lhe.
Quando já não competimos porque queremos. Competimos porque a equipa vai, porque já está marcado.
Imagem cedida Bárbara Silva
Sem nos apercebermos, aquilo que começou como um desafio deixa de ser uma escolha e passa a ser apenas mais um compromisso. E uma rotina raramente tem o mesmo significado que um objetivo.
Com isto, não quero dizer que devamos competir menos. Muito menos que devam existir menos oportunidades para competir. Pelo contrário.
É um privilégio ver o crescimento das artes marciais e dos desportos de combate e termos hoje mais provas, mais eventos e mais acesso à competição do que alguma vez tivemos.
A questão, para mim, é outra.
Talvez devêssemos voltar a perguntar mais vezes por que motivo um atleta vai competir.
Vai porque definiu esse objetivo? Porque quer desafiar-se? Porque sente que este é o momento certo?
Ou vai apenas porque há uma competição no calendário e sente que é suposto estar presente?
Enquanto treinadora, esta também passou a ser uma reflexão que faço. Continuo a incentivar os meus atletas a competir, mas hoje procuro que cada competição tenha um propósito e faça sentido para o momento que cada um está a viver.
Nem todos os atletas têm os mesmos objetivos. Nem todos vivem a competição da mesma forma. E talvez o nosso papel, enquanto treinadores, não seja colocar um atleta em todas as competições possíveis, mas ajudá-lo a perceber quando competir acrescenta realmente valor ao seu percurso e qual é o “porquê” da sua escolha. Todos têm um, por mais pequeno que pareça.
Imagem cedida Bárbara Silva
Porque, no fim de contas, talvez o valor de uma competição não esteja na quantidade de vezes que competimos, mas na razão pela qual escolhemos fazê-lo.
— No Meu Canto, por Bárbara Silva