Há histórias que transcendem o desporto. A de Fernando Kinguell é uma delas. O que começou com um jovem de 15 anos, vindo de uma infância marcada por dificuldades e inspirado pelo filme Rocky IV, transformou-se numa carreira de referência no boxe português. Representou Portugal em competições internacionais, vestiu a camisola da Seleção Nacional e, atualmente, integra a equipa técnica nacional como selecionador-adjunto, além de liderar a Don Kinguell Academy, um dos projetos de formação mais reconhecidos da modalidade.
Em entrevista à Fight News Portugal, Fernando Kinguell recorda o seu percurso, fala dos valores que o boxe lhe transmitiu, das memórias que guarda da alta competição e da missão que hoje assume: formar atletas, mas, acima de tudo, formar pessoas.
FightNews: A sua história no boxe começou aos 15 anos, no Boavista Futebol Clube. Como nasceu essa paixão pela modalidade?
Fernando Kinguell: A minha paixão pelo boxe nasceu num daqueles momentos que ficam gravados. Eu era um miúdo pobre e comecei a trabalhar num talho aos 12 anos para ajudar a minha família, numa altura em que não havia telemóveis nem informação como hoje. Havia apenas trabalho, dificuldades e a tentação constante dos caminhos errados à minha volta.
A primeira vez que entrei num cinema foi para ver Rocky IV, em 1985. Saí daquela sala transformado. Vibrei com o filme como se estivesse lá dentro e senti que aquilo era o sinal de que precisava para acreditar num futuro diferente.
Três anos depois, com 15 anos, consegui chegar ao Boavista Futebol Clube. Não foi apenas o início no boxe; foi a continuação da luta que já travava desde criança. O boxe tornou-se o meu escape, a minha força e a prova de que, mesmo vindo de onde vinha, podia escolher outro caminho.
Imagem Instagram
FightNews: Alguma vez imaginou que aquele jovem que entrou pela primeira vez num ginásio viria a representar Portugal e, mais tarde, a integrar a equipa técnica da Seleção Nacional?
Fernando Kinguell: Nunca imaginei que aquele jovem que entrou pela primeira vez num ginásio viesse um dia a representar Portugal e, mais tarde, a integrar a equipa técnica da Seleção Nacional.
Quando se vem de baixo, aprende-se a agarrar todas as oportunidades como se fossem únicas. O boxe, para mim, foi muito mais do que um desporto; foi a prova de que o futuro dependia apenas do meu esforço, da minha disciplina e da minha capacidade de nunca desistir.
Acreditei sempre, mesmo quando tudo à minha volta parecia empurrar-me para caminhos errados. Trabalhei, lutei, sacrifiquei muito e, hoje, com enorme orgulho, olho para trás sem arrependimentos. Todo o sacrifício valeu a pena para ser reconhecido na modalidade que amo e para representar o meu país ao mais alto nível.
Imagem cedida Fernando Kinguell
Fight News Portugal: O que é que o boxe lhe ensinou enquanto homem e que ainda hoje transporta para a sua vida?
Fernando Kinguell: O boxe ensinou-me muito mais do que técnicas e vitórias. Ensinou-me, acima de tudo, a respeitar as pessoas, a valorizar cada obstáculo que aparece no caminho e a perceber que são esses desafios que nos moldam.
As vitórias no ringue ficam na memória, claro, mas aquilo que realmente me marca é moldar pessoas, ajudá-las a acreditar que tudo é possível, exatamente como fizeram comigo quando eu era apenas um miúdo à procura de um rumo.
O boxe fez de mim o homem que sou hoje. Deu-me disciplina, caráter, propósito e uma missão. Por tudo isso, sou profundamente grato à modalidade que amo.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Teve uma longa carreira no boxe amador e representou Portugal em várias competições internacionais. Que memórias guarda desses anos?
Fernando Kinguell: As memórias que guardo desses anos no boxe amador e nas competições internacionais são daquelas que levarei comigo até ao meu último dia de vida.
Foram emoções intensas, verdadeiras, vividas num tempo em que o boxe era mais duro, mais real, sem redes sociais, sem filtros, sem distrações. Existiam apenas trabalho, sacrifício e coração.
Representar Portugal foi um orgulho que ainda hoje me arrepia. Cada viagem, cada combate e cada vez que envergava a bandeira ao peito faziam-me sentir que todo o esforço valia a pena. São lembranças construídas com suor, disciplina e uma paixão que me moldou para sempre.
FightNews: O que significou vestir a camisola da Seleção Nacional de Boxe?
Fernando Kinguell: Vestir a camisola da Seleção Nacional de Boxe significou muito mais do que representar uma modalidade.
Representar o país, em qualquer desporto, é sempre um sentimento de dever cumprido. É a confirmação de que todo o trabalho, sacrifício e disciplina estão a colocar o atleta no caminho certo.
Ser selecionado para defender Portugal traz um orgulho enorme, mas também o dobro da responsabilidade. Quando carregamos a bandeira ao peito, percebemos que já não lutamos apenas por nós. Lutamos pela nossa família, pelos nossos treinadores, pelos nossos colegas e por todos aqueles que acreditam no boxe português.
É um privilégio que marca para sempre.
Imagem cedida Fernando Kinguell
Fight News Portugal: Há algum combate que nunca esquecerá, seja pela dificuldade, pela emoção ou pelo significado que teve na sua carreira?
Fernando Kinguell: No meio de tantos combates que tive ao longo da minha carreira, houve vários que me marcaram profundamente. Mas existe um que guardo na memória como se tivesse acontecido ontem.
Em 1993 combati em Barcelona contra um adversário que não conhecia. Naquela altura não havia telemóveis, redes sociais ou vídeos para analisar. Só descobri quem ele era quando subi ao ringue: Rafael Lozano, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Barcelona e, atualmente, selecionador espanhol de boxe.
Foi um combate inesquecível. Perdi aos pontos, é verdade, mas protagonizámos uma batalha tão intensa, limpa e emocionante que conseguimos colocar todo o público de pé para nos aplaudir.
Esse momento marcou-me para sempre. Não pela derrota, mas pela certeza de que estava ao nível dos melhores. Foi um daqueles combates que moldam um atleta e ficam gravados para toda a vida.
Imagem cedida Fernando Kinguell
Fight News Portugal: Viveu uma época em que os confrontos entre Boavista e FC Porto eram autênticos dérbis dentro do ringue. Como descreve esse ambiente competitivo?
Fernando Kinguell: Os confrontos entre o Boavista e o FC Porto eram autênticos dérbis dentro do ringue, vividos com uma intensidade que hoje deixa saudades.
Era uma época em que se respirava boxe de forma verdadeira, com uma rivalidade saudável que nos fazia crescer, competir e dar sempre mais.
O ambiente era duro, competitivo, mas genuíno. Não havia redes sociais nem distrações. Existiam apenas atletas, treinadores e paixão pela modalidade. E, no meio dessa rivalidade, nasceram grandes amizades que ainda hoje guardo com muito respeito.
Foram tempos únicos, que marcaram todos nós.
Imagem Instagram
FightNews: A competitividade daquela geração era diferente da que existe atualmente?
Fernando Kinguell: Na minha opinião, sim. A competitividade daquela geração era diferente.
Os tempos eram outros. Vivia-se o boxe de forma mais dura, mais crua e mais intensa. Havia menos distrações e menos facilidades, o que fazia com que cada combate tivesse um peso enorme.
Mas também é verdade que, com o crescimento da modalidade, existe hoje muita competitividade nacional. O boxe evoluiu, ganhou mais praticantes, mais clubes e mais eventos, o que elevou significativamente o nível competitivo.
São épocas diferentes, cada uma com o seu valor, mas ambas importantes para o crescimento do boxe português.
Imagem Instagram
FightNews: Fundou a Don Kinguell Academy com o objetivo de formar atletas e pessoas. Que filosofia procura transmitir diariamente no ginásio?
Fernando Kinguell: Hoje, a filosofia que se vive dentro da Don Kinguell Academy é simples, forte e verdadeira: respeito mútuo entre colegas, treinadores e pela própria modalidade.
No nosso ginásio, cada pessoa sabe que o boxe não é apenas competição. É formação, caráter, disciplina e transformação.
Através do boxe conseguimos trabalhar aspetos essenciais da vida das pessoas: confiança, resiliência, foco, responsabilidade e capacidade para superar obstáculos.
Para nós, o boxe é muito mais do que ganhar combates. É moldar pessoas, criar valores e construir um ambiente onde todos crescem juntos.
É essa filosofia que transmitimos todos os dias e que faz da Don Kinguell Academy uma verdadeira família, dentro e fora do ringue.
Imagem cedida Fernando Kinguell
Fight News Portugal: Por fim, depois de uma vida inteiramente dedicada ao boxe — primeiro como atleta e agora como membro da equipa técnica nacional — que mensagem gostaria de deixar a todos os atletas, treinadores, dirigentes e apaixonados pela modalidade?
Fernando Kinguell: Antes de mais, é importante esclarecer que não sou o Selecionador Nacional de Boxe. A equipa técnica nacional é composta por quatro treinadores, sendo o selecionador o Bruno Carvalho, enquanto eu desempenho funções como selecionador-adjunto.
O facto de integrar a equipa técnica nacional não me faz melhor do que ninguém. Foi apenas uma opção entre muitas possíveis, mas uma opção que me deixou profundamente orgulhoso.
A mensagem que quero deixar a todos os atletas, treinadores, dirigentes e apaixonados pelo boxe é simples e verdadeira: o nosso caminho é longo, duro e exige o esforço de todos.
A atual direção da Federação Portuguesa de Boxe tem feito o melhor possível para que os nossos atletas estejam presentes nas maiores competições mundiais, apesar da falta de apoio que a modalidade ainda enfrenta em Portugal.
Mesmo com todas as dificuldades, já demonstrámos que temos qualidade, que somos capazes e que merecemos que acreditem em nós.
Hoje, os atletas têm objetivos ao seu alcance que, na minha altura, pareciam quase impossíveis.
Imagem cedida Fernando Kinguell
"O boxe deu-me um propósito e a missão de transformar vidas"
Da infância difícil à representação de Portugal, Fernando Kinguell construiu um percurso assente na resiliência, no trabalho e na paixão pelo boxe. Hoje, divide o seu tempo entre a formação de novos atletas na Don Kinguell Academy e o trabalho desenvolvido na equipa técnica nacional, continuando a defender os valores que sempre orientaram a sua carreira.
Mais do que recordar o passado, deixa uma mensagem de esperança para o futuro da modalidade: acredita que o boxe português tem talento para alcançar voos ainda mais altos, desde que continue a existir investimento, união e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido diariamente por atletas, treinadores e clubes em todo o país. Com a mesma convicção que o levou a entrar pela primeira vez num ginásio, Fernando Kinguell continua a acreditar que o boxe não forma apenas campeões; forma cidadãos, molda caráter e tem o poder de mudar vidas.