Rafael "Coxinha" é um dos nomes que representam a escola do Karaté tradicional dentro do MMA moderno. Com uma trajetória construída através da superação, da disciplina e da persistência, o atleta brasileiro transformou uma infância marcada por dificuldades numa carreira de sucesso nas artes marciais.
Após perder o pai aos 11 anos de idade, Rafael encontrou no Karaté um novo propósito. Foi na Academia Simões que deu os primeiros passos na modalidade, inicialmente sob a orientação de Nikomedes Simões e, posteriormente, sob a liderança do Sensei Fábio Simões, figura que se tornaria uma referência e uma espécie de figura paterna ao longo da sua formação.
O Karaté abriu-lhe portas que jamais imaginara. Vestiu a camisola da Seleção Brasileira, representou o seu país em competições internacionais e viveu experiências marcantes, incluindo passagens pelo Japão, berço da modalidade, aprofundando os conhecimentos sobre a arte que moldou a sua vida e a sua carreira.
Com a ascensão no MMA, Rafael "Coxinha" começou a destacar-se no cenário nacional brasileiro, chamando a atenção de grandes nomes da modalidade. A mudança para os Estados Unidos marcou uma nova etapa da sua trajetória, onde passou a trabalhar ao lado de Shinzo Machida e a integrar um ambiente de alto rendimento ligado à família Machida, referência mundial na utilização do Karaté aplicado ao MMA.
Hoje, consolidado como atleta profissional e reconhecido pela sua movimentação e estilo característico, Rafael continua a carregar consigo os valores que aprendeu no tatame. Entre conquistas e desafios, o lutador segue determinado em construir uma história que possa servir de inspiração para futuras gerações.
Neste bate-papo com o Sensei Paulo Pestana, o atleta falou sobre o seu início na modalidade, os obstáculos que enfrentou e as motivações que o levaram a construir uma carreira de sucesso nas artes marciais.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
FightNews:Quem era o Rafael antes de tudo isso?
Antes da Seleção Brasileira, do MMA, dos títulos e das viagens pelo mundo, eu era um menino que perdeu o pai aos 11 anos de idade por causa de um câncer. Depois que ele faleceu, minha família passou por muitas dificuldades. Nós estávamos sendo despejados e, naquele momento, tudo parecia muito difícil para uma criança da minha idade.
Lembro que meu pai havia feito uma promessa: se conseguíssemos nos mudar para a casa em frente à Academia Simões, eu começaria no Karaté. Por um acaso divino, depois do falecimento dele, fomos morar exatamente naquela casa. Com apenas 11 anos, lembrei da promessa que ele havia feito e comecei no Karaté. Sem saber, aquele seria o primeiro passo para mudar completamente a minha vida.
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FightNews: Quem foram os seus primeiros mestres?
Quando entrei na academia, meu primeiro professor foi Nikomedes Simões, pai do professor Fábio Simões. Pouco tempo depois, fui para a turma avançada e, dali em diante, entre os meus 12 e 13 anos, o professor Fábio se tornou uma figura paterna para mim.
Ele me ensinou muito mais do que golpes e técnicas. Me ensinou valores, disciplina, respeito e, principalmente, como me comportar na vida. Tudo o que a vida me trouxe, dentro e fora do tatame, eu consegui enfrentar graças aos ensinamentos que recebi ali.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
FightNews: O que o Karaté representou na sua vida?
Foi algo mágico. O Karaté me mostrou que, quando você une esforço e fé, é capaz de voar muito mais alto do que imagina. Através dele, tive a oportunidade de representar o Brasil, conhecer países, culturas e abrir portas que eu jamais imaginaria que se abririam para um menino que, pelas circunstâncias da vida, talvez não tivesse muitas perspectivas de futuro.
FightNews: Como foi representar o Brasil num Campeonato do Mundo?
Eu ainda não estava na Seleção em 2004. Se não me engano, foi em 2012, no Mundial da Irlanda. Foi algo incrível, porque eu nunca tinha saído do Brasil. Minha primeira viagem internacional foi justamente por causa do Karaté. É uma experiência que vou levar para a vida inteira.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
FightNews: Como surgiu o MMA na sua vida?
Percebi que existia um caminho no MMA quando alguns lutadores profissionais começaram a frequentar a academia do meu professor. Aos 14 anos, comecei a participar desses treinos, mesmo sabendo apenas Karaté.
Aos 16 anos fiz minha primeira luta de MMA amador e consegui a vitória. Foi naquele momento que despertou em mim a certeza de que o Karaté poderia me levar ainda mais longe.
FightNews: O Karaté é um diferencial no MMA?
Eu acredito que sim. Quando alguém entra no MMA sem uma base sólida, as possibilidades ficam muito equilibradas. Mas o Karaté oferece algo diferente: distância, tempo, precisão e movimentação. Isso nos dá uma vantagem muito grande dentro da luta.
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FightNews: Qual é a principal característica do seu Karaté?
Acredito que sejam a distância e a velocidade com que conseguimos alcançar o alvo. O Karaté me ensinou a entrar e sair rapidamente, encontrar o tempo certo e ser eficiente nos movimentos.
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FightNews: Como surgiu a oportunidade de ir para os Estados Unidos?
A oportunidade surgiu quando comecei a me destacar no MMA no Brasil. Ganhei uma luta no Future FC, que me deu a vaga para lutar no LFA, nos Estados Unidos, e, nesse meio tempo, o Lyoto Machida me convidou para vir para a América também. Esse é o vínculo que tenho com eles.
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FightNews: O que você espera do futuro?
O futuro, para mim, é continuar construindo histórias, conquistando vitórias para a minha família e para a família do Karaté, e seguir escrevendo o meu nome na história do esporte.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
FightNews: Qual é o maior desafio?
O maior desafio é vencer a si mesmo todos os dias. É acreditar em você, enfrentar as dificuldades não apenas dos treinamentos, mas também da vida. A luta dentro do cage é, muitas vezes, a parte mais fácil do processo. O verdadeiro combate acontece diariamente, dentro da nossa mente e nas escolhas que fazemos.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
FightNews: Existe uma luta que marcou a sua carreira?
Sim. Foi no Future FC, um dos maiores eventos do Brasil. Aquela vitória teve repercussão nacional e internacional e abriu as portas para que eu chegasse ao LFA. Foi uma luta muito importante para a minha carreira, embora eu considere que cada luta tenha um significado especial na minha trajetória.
FightNews: Qual legado você quer deixar?
Quero deixar como legado a persistência. Mostrar às pessoas que, mesmo quando ninguém vem para te salvar, você ainda pode salvar a si mesmo.
Se eu consegui chegar até aqui sem dinheiro, sem padrinho, sem meu pai e sem uma grande estrutura familiar, qualquer pessoa também pode romper a própria bolha e correr atrás dos seus sonhos.
Minha história é a prova de que as circunstâncias não determinam o seu destino. O que determina é a sua capacidade de acreditar, persistir e continuar caminhando, mesmo quando tudo parece impossível.
Imagem cedida sensei Paulo Pestana
Entre o Karaté e o MMA, Rafael "Coxinha" construiu uma trajetória marcada pela superação e pela disciplina. Da infância difícil à Seleção Brasileira, passando pelas competições internacionais e pela mudança para os Estados Unidos, o lutador transformou os ensinamentos recebidos no tatame numa filosofia de vida.
Mais do que títulos e vitórias, o atleta brasileiro procura deixar uma mensagem de perseverança para as novas gerações. Uma história que demonstra que a força mental e a capacidade de acreditar em si próprio podem ser tão importantes quanto qualquer técnica dentro do cage.