Se acompanhas MMA há algum tempo, de certeza que já passaste por isto: o combate termina, estás com a adrenalina no topo, convencido de quem ganhou, e, de repente, o comentador lê a folha de pontuação e o teu queixo cai. Ficas a olhar para o ecrã, a processar o choque, e a primeira palavra que te sai da boca (ou que digitas furiosamente no teclado) é:
"ROUBO!".
É a reação mais humana do mundo. O problema é que, no sofá, nós pontuamos com o coração; mas, na mesa dos juízes laterais, pontua-se com o manual de regras debaixo do braço.
No artigo anterior, desmontámos a matemática fria do 10-Point Must System e vimos que o MMA moderno não premeia quem "parece" estar a ganhar, mas sim quem aplica o dano mais eficaz, assalto a assalto. Hoje, vamos deixar a teoria de lado. Vamos criar três cenários hipotéticos — mas que acontecem quase todos os fins de semana — para perceberes, de uma vez por todas, se os juízes andam a ver mal o combate ou se tu estás a cair numa ilusão de ótica.
Prepara o teu bloco de notas. Hoje, tu vais ser o juiz.
Imagina o seguinte cenário no Round 2 de um combate equilibrado:
O Lutador A passa o assalto todo a andar para a frente. Desfere combinações espetaculares de quatro e cinco golpes, pontapés rodados e grita a cada impacto. A bancada vem abaixo.
O Lutador B passa o assalto a recuar, colado à grade. No entanto, esquiva-se da maioria das sequências e, nos intervalos, coloca dois ou três contragolpes limpos, diretos ao queixo do Lutador A, que chega a cambalear.
Quando o gongo soa, o público assume imediatamente que o Lutador A venceu o round pela iniciativa e pelo espetáculo. Quem ganha o round para os juízes? O Lutador B.
Se analisarmos a frio, a ilusão do volume desfaz-se. O Lutador A desferiu "quarenta" golpes vistosos, mas quase todos explodiram na guarda, resultando em apenas cinco conexões reais e nenhum dano visível. Já o Lutador B foi cirúrgico: com apenas "quinze" contragolpes, colocou algumas pancadas limpas no rosto, deixando o adversário a sangrar do nariz.
Como isto não é boxe de exibição, o critério que manda é o Striking Efetivo (impacto e dano). O Lutador A gastou energia a bater nos braços, enquanto o Lutador B, mesmo a recuar, causou mossa real, esteve mais perto do KO e garantiu o round por dez-nove.
Imagem cedida João Vitor Costa
Vamos agora para o chão, onde nascem as maiores vaias do público. Imagina este cenário:
O Lutador A consegue uma queda logo nos primeiros segundos do round. Passa os minutos seguintes por cima do adversário, na posição de meia-guarda. No entanto, limita-se a segurar o oponente, sem desferir golpes ou tentar passagens de posição. Está a "fazer peso" para garantir o assalto.
O Lutador B, que está por baixo, de costas no chão, não consegue levantar-se, mas mantém-se ativo: desfere cotoveladas curtas no corpo do Lutador A, tenta duas chaves de braço e um triângulo, obrigando o adversário a defender-se continuamente.
O público e os comentadores dizem: "O Lutador A dominou o round por cima". Os juízes dão o round ao Lutador B.
A ilusão de ótica: estar por cima (posição dominante) dá uma falsa sensação de vitória.
A regra nua e crua: lembras-te da ordem de desempate? O controlo posicional só desempata se a eficácia for igual. O Lutador A teve o controlo, mas foi passivo. O Lutador B, mesmo por baixo, causou mais dano (cotoveladas) e procurou ativamente acabar o combate (tentativas de finalização). O Grappling Efetivo foi do Lutador B.
Imagem cedida João Vitor Costa
Este é o cenário clássico da matemática fria, assalto a assalto. Imagina um combate de três rounds:
Dois assaltos mornos, muito táticos. O Lutador A é ligeiramente mais preciso e vence ambos por uma margem mínima (10-9 em cada um).
O Lutador B reage de forma furiosa. Consegue um knockdown, massacra o Lutador A no ground and pound, deixa o adversário com o olho completamente fechado e quase consegue a interrupção nos segundos finais. O Lutador A sobrevive por milagre até ser "salvo pelo gongo".
O combate acaba e a sensação geral é de que o Lutador B "destruiu" o Lutador A. No entanto, quando as notas são lidas, o Lutador A vence por decisão unânime (29-28). A internet implode em fúria. Foi roubo?
Round 1: 10-9 para o Lutador A
Round 2: 10-9 para o Lutador A
Round 3: 10-9 (ou mesmo um dominante 10-8) para o Lutador B
Resultado final: 29-28 (vitória do Lutador A) ou 28-28 (empate).
Se o terceiro round não tiver sido considerado um 10-8 (o que exige um domínio absoluto e quase uma interrupção durante a maioria do round), o Lutador A ganha o combate. Ele perdeu a imagem final da batalha, mas ganhou os dois primeiros terços da guerra.
Agora vais poder ver de outra forma e, a partir destas explicações e dos artigos de opinião que o Fight News disponibiliza, sempre que vires um combate renhido, revê-o novamente e faz o teu próprio exercício mental antes de ires gritar para as redes sociais.
Desliga o modo "emocional" e pergunta a ti próprio:
O MMA é um desporto apaixonante exatamente porque vive nessa linha ténue entre a agressividade bruta e a estratégia cirúrgica.
Da próxima vez que vires uma decisão dividida que choque os teus amigos, já não precisas de alinhar no coro do "foi roubo". Podes simplesmente explicar-lhes como funciona o livro de regras. É muito mais elegante.
Imagem cedida João Vitor Costa
Deixem os vossos argumentos aqui em baixo, nos comentários!