
Roberto Pestana cresceu dentro do karate, iniciou cedo o seu percurso no dojo e, ao longo dos anos, assumiu a responsabilidade de dar continuidade a um legado familiar marcado pela dedicação, pela disciplina e pelo compromisso com a formação técnica e humana. Filho do fundador do Pestana Karate Clube, uma das escolas de karate mais importantes do Rio de Janeiro, Roberto construiu a sua trajetória entre a preservação da tradição e a necessidade de preparar novas gerações.
Com um percurso expressivo dentro do karate, Roberto Pestana é 6.º Dan JKA, está à frente do Pestana Karate Clube, preside à JKA Rio de Janeiro e integra a equipa técnica da Seleção Brasileira JKA. A partir dessa experiência, defende uma visão de karate que não se limita à competição.
Para Roberto, o resultado desportivo deve ser consequência de um trabalho técnico sólido, de uma prática contínua e de uma formação que mantém vivo o sentido mais profundo do dojo: ensinar, transmitir e formar carácter.
Fight News: Roberto, quando falamos do Pestana Karate Clube, é impossível não começar pelo seu pai. O que ele representou para si dentro e fora do karate?
Pai é pai, né? Sempre foi uma referência de dedicação, de esforço, de não desistir — e uma referência de paixão pelo karate. Certamente, se pudesse, teria começado no karate com cinco anos, assim como fez comigo. Mas ele entrou mais tarde, já com seus 34 anos.
Da mesma forma que me influenciou no karate, influenciou fora dele. Sempre foi uma pessoa que lutava muito pela união da família — tanto a família de casa quanto a família do karate na academia. O bem-estar do grupo e a qualidade do ambiente, para ele, sempre foram fatores determinantes.
Todos esses valores permanecem inegociáveis dentro do dojo do Pestana Karate Clube. A qualidade do ambiente, a união do grupo e a dedicação — minha, do meu irmão e dos instrutores envolvidos — garantem a posição ímpar que a escola ocupa dentro do cenário estadual e nacional do karate.

Foram três momentos distintos.
O primeiro foi em 1982, quando, com 15 anos, comecei a ajudar meu pai a dar aulas. O segundo foi em 1992: meu pai havia abandonado as aulas e eu, já com meu irmão com dez anos, consegui reaproximá-lo e fazer o Pestana Karate Clube funcionar novamente em Jacarepaguá.
E o terceiro foi em 2000, quando retomei as atividades da escola envolvendo meu irmão, que cursava Educação Física. A partir dali, percebi claramente que tínhamos um legado a deixar.
É, de facto, um grande dilema manter essas duas frentes em equilíbrio: de um lado, preservar o respeito e toda a tradição moldada nas origens japonesas; do outro, expandir a marca como academia e pensar no crescimento sustentável.
Acredito que o segredo, ou pelo menos a melhor solução que encontramos, seja a formação de instrutores criados integralmente por nós, obrigatoriamente alunos da escola desde a faixa branca.

O Paulo é meu irmão temporão, tenho mais de 15 anos a mais do que ele. A história do Pestana Karate Clube está diretamente ligada à sua presença, porque a escola surge no ano em que ele nasce.
Ele treinou até a faixa marrom com nosso pai e comigo, e a partir daí seguiu treinando comigo e com o Sensei Arrigoni, formando-se faixa preta. Em paralelo, concluiu a graduação em Educação Física e foi sendo naturalmente envolvido no trabalho de dar aulas e estruturar a escola.
Nos últimos dez anos, passou a fazer parte do desenvolvimento de forma integral. Eu sou mais velho e mais graduado, mas ele é parte indissociável disso, tem uma graduação elevada, um nome reconhecido dentro da seleção da JKA Brasil, e a gente literalmente soma forças.
É exatamente isso que coloca a escola em um patamar diferenciado.
Isso não é um problema para nós. A escola segue o mesmo padrão que existe no Japão desde sempre — como originalmente nascemos, assim permanecemos. Não abrimos mão disso.
A missão principal de qualquer entidade é aumentar o número de praticantes — no nosso caso, de Karate Shotokan no estado.
Mas não basta crescer em quantidade. A JKA tem uma preocupação permanente com a qualidade técnica, então o objetivo é aumentar o número de praticantes com nível técnico elevado.

A maior dificuldade que percebo é a falta de instrutores que continuam sendo praticantes. Muita gente procura fazer a transição de praticante para instrutor como se fossem papéis excludentes — e não são.
O bom instrutor é aquele que nunca deixa de ser praticante. Essa é, na minha visão, a maior dificuldade que enfrentamos hoje.

No Pestana Karate Clube seguimos uma filosofia clara: participamos da competição utilizando o karate que é praticado na JKA e não o contrário.
Não treinamos o karate que é disputado na competição. Partimos do princípio de que, se a gente fizer o karate correto, o bom resultado é inevitável.
Quando se pensa apenas na competição, a parte técnica e filosófica perde-se. O caminho, a disciplina e a formação resultam diretamente na performance dentro da competição.
O grande sonho é deixar tanto a JKA Rio de Janeiro quanto o Pestana Karate Clube — as duas entidades à frente das quais estou — com o maior número possível de atletas e com o maior nível técnico possível, servindo de referência e de estímulo para que outras entidades busquem fazer o mesmo.

A entrevista com Roberto Pestana revela uma visão de karate que ultrapassa a dimensão competitiva. No centro do seu discurso está a continuidade: da família, da escola, da técnica e de uma forma de ensinar que entende o dojo como espaço de formação prolongada.
O Pestana Karate Clube surge, assim, como uma estrutura construída sobre presença, responsabilidade e transmissão. A influência do pai permanece como base ética; o trabalho com Paulo Pestana reforça a dimensão coletiva do projeto; e a ligação à JKA sustenta uma exigência técnica que Roberto considera indispensável para o futuro do Karate Shotokan.
Mais do que falar sobre medalhas ou resultados, Roberto Pestana aponta para uma ideia essencial nas artes marciais: o legado não se preserva apenas pelo que se ensina, mas pela forma como se continua a praticar.