Quinta, 11 de Junho de 2026
18°C 26°C
Cascais, 11
Publicidade

Roberto Pestana: o karate como legado, disciplina e responsabilidade

Do primeiro contacto com o dojo à liderança da JKA Rio de Janeiro, o treinador explica como tradição, exigência e formação humana continuam a orientar o Pestana Karate Clube.

Redação
Por: Redação Fonte: Redação FightNews
03/06/2026 às 20h25 Atualizada em 04/06/2026 às 11h45
Roberto Pestana: o karate como legado, disciplina e responsabilidade

Roberto Pestana cresceu dentro do karate, iniciou cedo o seu percurso no dojo e, ao longo dos anos, assumiu a responsabilidade de dar continuidade a um legado familiar marcado pela dedicação, pela disciplina e pelo compromisso com a formação técnica e humana. Filho do fundador do Pestana Karate Clube, uma das escolas de karate mais importantes do Rio de Janeiro, Roberto construiu a sua trajetória entre a preservação da tradição e a necessidade de preparar novas gerações.

Com um percurso expressivo dentro do karate, Roberto Pestana é 6.º Dan JKA, está à frente do Pestana Karate Clube, preside à JKA Rio de Janeiro e integra a equipa técnica da Seleção Brasileira JKA. A partir dessa experiência, defende uma visão de karate que não se limita à competição.

Para Roberto, o resultado desportivo deve ser consequência de um trabalho técnico sólido, de uma prática contínua e de uma formação que mantém vivo o sentido mais profundo do dojo: ensinar, transmitir e formar carácter.

Fight News: Roberto, quando falamos do Pestana Karate Clube, é impossível não começar pelo seu pai. O que ele representou para si dentro e fora do karate?

Pai é pai, né? Sempre foi uma referência de dedicação, de esforço, de não desistir — e uma referência de paixão pelo karate. Certamente, se pudesse, teria começado no karate com cinco anos, assim como fez comigo. Mas ele entrou mais tarde, já com seus 34 anos.

Da mesma forma que me influenciou no karate, influenciou fora dele. Sempre foi uma pessoa que lutava muito pela união da família — tanto a família de casa quanto a família do karate na academia. O bem-estar do grupo e a qualidade do ambiente, para ele, sempre foram fatores determinantes.

Fight News: O Pestana Karate Clube nasce dessa história, dessa presença e dessa transmissão. Que valores do seu pai continuam vivos no dojo até hoje?

Todos esses valores permanecem inegociáveis dentro do dojo do Pestana Karate Clube. A qualidade do ambiente, a união do grupo e a dedicação — minha, do meu irmão e dos instrutores envolvidos — garantem a posição ímpar que a escola ocupa dentro do cenário estadual e nacional do karate.

Fight News: Há um momento em que o filho deixa de ser apenas aluno e passa também a carregar uma responsabilidade. Quando percebeu que o karate seria um legado familiar?

Foram três momentos distintos.

O primeiro foi em 1982, quando, com 15 anos, comecei a ajudar meu pai a dar aulas. O segundo foi em 1992: meu pai havia abandonado as aulas e eu, já com meu irmão com dez anos, consegui reaproximá-lo e fazer o Pestana Karate Clube funcionar novamente em Jacarepaguá.

E o terceiro foi em 2000, quando retomei as atividades da escola envolvendo meu irmão, que cursava Educação Física. A partir dali, percebi claramente que tínhamos um legado a deixar.

Fight News: Hoje, olhando para o trabalho do Pestana Karate Clube, como é equilibrar respeito pela origem com a necessidade de construir uma equipa, dividir responsabilidades e preparar o futuro?

É, de facto, um grande dilema manter essas duas frentes em equilíbrio: de um lado, preservar o respeito e toda a tradição moldada nas origens japonesas; do outro, expandir a marca como academia e pensar no crescimento sustentável.

Acredito que o segredo, ou pelo menos a melhor solução que encontramos, seja a formação de instrutores criados integralmente por nós, obrigatoriamente alunos da escola desde a faixa branca.

Fight News: Neste processo, o Paulo Pestana também aparece como uma peça importante de apoio, continuidade e construção. Como tem sido pensar o Pestana Karate Clube não como um trabalho individual, mas como uma equipa familiar e técnica?

O Paulo é meu irmão temporão, tenho mais de 15 anos a mais do que ele. A história do Pestana Karate Clube está diretamente ligada à sua presença, porque a escola surge no ano em que ele nasce.

Ele treinou até a faixa marrom com nosso pai e comigo, e a partir daí seguiu treinando comigo e com o Sensei Arrigoni, formando-se faixa preta. Em paralelo, concluiu a graduação em Educação Física e foi sendo naturalmente envolvido no trabalho de dar aulas e estruturar a escola.

Nos últimos dez anos, passou a fazer parte do desenvolvimento de forma integral. Eu sou mais velho e mais graduado, mas ele é parte indissociável disso, tem uma graduação elevada, um nome reconhecido dentro da seleção da JKA Brasil, e a gente literalmente soma forças.

É exatamente isso que coloca a escola em um patamar diferenciado.

Fight News: A JKA é reconhecida mundialmente pelo rigor técnico, pela tradição e pela exigência na formação. Como é manter esse padrão dentro do Pestana Karate Clube e, ao mesmo tempo, dialogar com as novas gerações?

Isso não é um problema para nós. A escola segue o mesmo padrão que existe no Japão desde sempre — como originalmente nascemos, assim permanecemos. Não abrimos mão disso.

Fight News: Como presidente da JKA Rio de Janeiro, qual considera ser hoje a principal missão da entidade no desenvolvimento do Karate Shotokan no estado?

A missão principal de qualquer entidade é aumentar o número de praticantes — no nosso caso, de Karate Shotokan no estado.

Mas não basta crescer em quantidade. A JKA tem uma preocupação permanente com a qualidade técnica, então o objetivo é aumentar o número de praticantes com nível técnico elevado.

Fight News: A formação de professores é uma das bases para a continuidade de qualquer arte marcial. Quais são, na sua opinião, os maiores desafios na preparação de novos instrutores hoje?

A maior dificuldade que percebo é a falta de instrutores que continuam sendo praticantes. Muita gente procura fazer a transição de praticante para instrutor como se fossem papéis excludentes — e não são.

O bom instrutor é aquele que nunca deixa de ser praticante. Essa é, na minha visão, a maior dificuldade que enfrentamos hoje.

Fight News: Muito se fala sobre competição, medalhas e performance. Mas, dentro da JKA e do próprio Pestana Karate Clube, o karate também é caminho, disciplina e formação de carácter. Como equilibrar resultado desportivo e formação humana?

No Pestana Karate Clube seguimos uma filosofia clara: participamos da competição utilizando o karate que é praticado na JKA  e não o contrário.

Não treinamos o karate que é disputado na competição. Partimos do princípio de que, se a gente fizer o karate correto, o bom resultado é inevitável.

Quando se pensa apenas na competição, a parte técnica e filosófica perde-se. O caminho, a disciplina e a formação resultam diretamente na performance dentro da competição.

Fight News: Olhando para o futuro, que legado gostaria de continuar a construir a partir da história iniciada pelo seu pai, à frente do Pestana Karate Clube, com o apoio do Paulo Pestana, da JKA Rio de Janeiro e de uma equipa capaz de transmitir o Karate Shotokan para as próximas gerações?

O grande sonho é deixar tanto a JKA Rio de Janeiro quanto o Pestana Karate Clube — as duas entidades à frente das quais estou — com o maior número possível de atletas e com o maior nível técnico possível, servindo de referência e de estímulo para que outras entidades busquem fazer o mesmo.

A entrevista com Roberto Pestana revela uma visão de karate que ultrapassa a dimensão competitiva. No centro do seu discurso está a continuidade: da família, da escola, da técnica e de uma forma de ensinar que entende o dojo como espaço de formação prolongada.

O Pestana Karate Clube surge, assim, como uma estrutura construída sobre presença, responsabilidade e transmissão. A influência do pai permanece como base ética; o trabalho com Paulo Pestana reforça a dimensão coletiva do projeto; e a ligação à JKA sustenta uma exigência técnica que Roberto considera indispensável para o futuro do Karate Shotokan.

Mais do que falar sobre medalhas ou resultados, Roberto Pestana aponta para uma ideia essencial nas artes marciais: o legado não se preserva apenas pelo que se ensina, mas pela forma como se continua a praticar.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Lenium - Criar site de notícias