
Figura incontornável das artes marciais no Brasil, Artur Mariano construiu uma carreira singular como atleta invicto de Muay Thai, campeão internacional e mais tarde como líder, formador e gestor. Antigo lutador de MMA, discípulo directo do lendário Grão-Mestre Luiz Alves, é actualmente presidente da Confederação Brasileira de Muay Thai (CBMT), vice-presidente da World Muay Thai Federation e fundador da rede de academias Champions Factory. Nesta entrevista, Artur Mariano revisita o passado, analisa o presente e projecta o futuro da modalidade, sempre guiado por valores sólidos e uma visão humanista do desporto.

Imagem cedida Artur Mariano
FightNews: O seu percurso nos desportos de combate começou ainda muito jovem. Como recorda os primeiros passos nas artes marciais e o que o levou a iniciar-se no judô e, mais tarde, no Muay Thai?
Artur Mariano: Comecei no judo, e foi muito importante para mim porque o judo ajudou-me na parte da disciplina e da hierarquia. Tempos depois, mudei para uma localidade onde havia uma concentração de várias torcidas organizadas e, nesse mesmo período, estudava numa escola em frente a uma comunidade. Na década de 80 não existia bullying, ou seja, todos os dias eram uma questão de sobrevivência.
Tinha de correr na escola e, quando chegava perto de casa, precisava de observar como estava a redondeza para conseguir entrar; caso contrário, tinha de dar a volta ao quarteirão para entrar por outra rua. Era uma questão de necessidade e protecção.
O meu início no Muay Thai, na época conhecido como Boxe tailandês, foi influenciado por um amigo meu, de origem chinesa, que entrou primeiro, também por motivos semelhantes aos meus. Fui influenciado naquele momento a procurar protecção e maior autoconfiança. Esse meu amigo chamava-se Rogério e começou a treinar na Boxe Thai do saudoso Grão-Mestre Luiz Alves. Foi ele que me levou para a academia Boxe Thai, no Grajaú, no Rio de Janeiro.

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FightNews: Quais foram os principais valores que as artes marciais lhe transmitiram ao longo da vida e que ainda hoje orientam o seu trabalho dentro e fora do desporto?
Artur Mariano: As artes marciais transmitiram-me valores que carrego até hoje e que orientam todas as áreas da minha vida. Desde o judo, aprendi profundamente sobre disciplina e hierarquia, entendendo a importância do respeito aos mais experientes e às regras do caminho. No Muay Thai, especialmente na Academia Boxe Thai com o saudoso Grão-Mestre Luiz Alves, esses valores foram ainda mais fortalecidos.

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Ali desenvolvi princípios sólidos de igualdade, respeito, disciplina, autocontrolo e resiliência. Aprendi que todos são iguais dentro do tatame, independentemente da origem, condição social ou história de vida, e que o carácter é construído no dia a dia, através de atitudes, esforço e responsabilidade.
Esses valores moldaram não apenas o atleta que me tornei, mas principalmente o homem, o professor, o líder e o empresário. Eles orientam o meu trabalho dentro e fora do desporto, na forma como trato as pessoas, conduzo negócios, formo alunos e encaro desafios, sempre com ética, honra, humildade e compromisso com a evolução constante.

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FightNews: Foi discípulo do Grão-Mestre Luiz Alves, uma referência incontornável da Boxe Thai no Brasil. Que ensinamentos desse período marcaram de forma mais profunda a sua carreira?
Artur Mariano: Ser discípulo do Grão-Mestre Luiz Alves foi um divisor de águas na minha vida e na minha carreira. Mais do que técnicas de luta, ele ensinou-me valores e princípios de vida que carrego até hoje. Com ele, aprendi que o Muay Thai vai muito além do combate: é formação de carácter.
Um dos ensinamentos mais marcantes foi a disciplina absoluta e a compreensão de que o talento sem disciplina não sustenta uma trajectória longa. Aprendi também o valor do respeito, tanto dentro como fora da academia — respeito ao professor, aos colegas, aos adversários e à própria arte.
Outro ponto fundamental foi a igualdade dentro do tatame. Independentemente de quem se é fora dali, todos começam do mesmo ponto, e o que realmente importa é a dedicação, o esforço e a postura. Isso moldou a minha visão como professor e formador de atletas.
O Grão-Mestre Luiz Alves também me ensinou a importância da responsabilidade de transmitir o conhecimento, mantendo a essência, a ética e os valores que nos eram passados. Esses ensinamentos influenciaram directamente a minha forma de ensinar, liderar e construir projectos, e são a base de tudo o que desenvolvi ao longo da minha carreira dentro e fora do desporto.

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FightNews: Ao longo da sua trajectória construiu um percurso único no Muay Thai, mantendo-se invicto e conquistando títulos nacionais e internacionais. Qual considera ter sido o momento mais determinante dessa caminhada?
Artur Mariano: Acredito que o momento mais determinante da minha caminhada no Muay Thai não foi exactamente a conquista de um título específico, mas sim a decisão consciente de encarar a modalidade como um projecto de vida, e não apenas como competição.
Manter-me invicto e conquistar títulos nacionais e internacionais foi consequência directa dessa mentalidade, aliada à disciplina, à preparação constante e ao respeito pela arte e pelos adversários. Cada luta era encarada como um teste não apenas físico, mas sobretudo mental e emocional.

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Outro momento extremamente marcante foi a transição de atleta para formador de atletas e líderes, quando percebi que o meu maior legado não estaria apenas no meu cartel, mas nas pessoas que poderia impactar através do Muay Thai. Esse entendimento redefiniu a minha missão dentro da modalidade e deu ainda mais sentido a toda a minha trajectória.

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FightNews: O ano de 1997 ficou marcado pela conquista do International Vale Tudo Championship II, um dos pontos mais altos da sua carreira em MMA. Que memórias guarda dessa noite histórica?
Artur Mariano: A conquista do IVC II, em 1997, é uma memória muito viva e especial na minha vida. Aquela noite representou muito mais do que uma vitória ou um cinturão; foi a confirmação de anos de sacrifício, disciplina e preparação, num período em que o vale-tudo era extremamente duro: sem regras, 30 minutos por round, sem luvas, e com três lutas na mesma noite.
A primeira luta foi contra Patrick Assalone (EUA), a semifinal contra Mark Hall (EUA) e a final, considerada um clássico do Vale Tudo, frente a Wanderlei Silva. Por causa desta luta foi produzido um documentário da HBO denominado “A Grande Luta”.


Imagem cedida Artur Mariano
Tiro o chapéu ao promotor Sérgio Batarelli, idealizador do IVC, que tratava muito bem atletas e treinadores, oferecendo uma estrutura de primeira linha. O evento passava na televisão aberta, os atletas ficavam no hotel cinco estrelas Maksoud Plaza, viajávamos de avião e recebíamos bolsas muito boas para a época.
Essa conquista consolidou o meu nome internacionalmente e reforçou a minha responsabilidade de representar bem os meus mestres e o Muay Thai. Agradeço profundamente aos meus mestres Luiz Alves, Osvaldo Alves e João Ricardo, que foram fundamentais nesse processo.

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FightNews: Actualmente, enquanto presidente da Confederação Brasileira de Muay Thai, quais são os maiores desafios da modalidade?
Artur Mariano: O maior desafio é organizar, profissionalizar e unificar o Muay Thai, mantendo a sua essência, tradição e valores. A modalidade cresceu muito no Brasil, mas isso exige estrutura, formação responsável de professores e árbitros, critérios claros e padronização.
Formar atletas, mas também cidadãos, é uma grande responsabilidade. Além disso, é fundamental dar visibilidade aos atletas, criar competições bem organizadas e fortalecer o Muay Thai brasileiro no cenário internacional.

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FightNews: O projecto Champions Factory tem-se destacado como uma das principais franquias de Muay Thai no Brasil. Qual é a filosofia que sustenta este projecto?
Artur Mariano: A Champions Factory nasceu para formar campeões dentro e fora do tatame. A filosofia chama-se RUSH e baseia-se em disciplina, hierarquia, igualdade, respeito, excelência técnica e ética. O foco é transformar vidas, mantendo a tradição do Muay Thai, aliada a uma metodologia profissional e sustentável.


Imagem cedida Artur Mariano
FightNews: Por fim, que conselho deixa às novas gerações de atletas?
Artur Mariano: Respeitem o processo. Não existe caminho curto nas artes marciais. Escolham bons mestres, desenvolvam carácter, disciplina e propósito. O maior título não é um cinturão, mas a pessoa que se tornam ao longo do caminho.

Imagem cedida Artur Mariano
Artur Mariano agradece à Fight News Portugal pela oportunidade da entrevista, reforçando o compromisso com a divulgação, valorização e fortalecimento do Muay Thai e das artes marciais.













