Fernando Tererê é um dos nomes mais carismáticos e respeitados da história do Jiu Jitsu mundial. Nascido e criado no Cantagalo, no Rio de Janeiro, encontrou na arte suave não apenas um caminho para o sucesso desportivo, mas também uma forma de transformação pessoal e social. Campeão mundial em todas as faixas, da azul à preta, Tererê construiu um legado que ultrapassa o tatame. Nesta entrevista exclusiva a Fight News Portugal, o faixa-preta revisita as suas origens, os momentos decisivos da carreira e a missão de devolver à comunidade aquilo que o Jiu Jitsu lhe proporcionou.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Tererê, cresceste no Cantagalo e começaste na capoeira antes do Jiu Jitsu. Que memórias guardas dessa fase inicial da tua vida?
Guardo a oportunidade que eu tive. Muitos que frequentavam a mesma vida que eu acabaram por desviar para o caminho do crime. Eu aproveitei o primeiro avião da oportunidade e segui em frente.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Como surgiu o convite para treinar Jiu Jitsu aos 14 anos e de que forma esse momento mudou o teu destino?
A oportunidade verdadeira veio através de um convite do Otávio Couto, o Ratinho, e eu abracei essa oportunidade com toda a força do mundo.
Fight News Portugal: Foste campeão mundial em todas as faixas, da azul à preta. O que representou para ti essa consistência ao mais alto nível?
Não foi fácil. Dediquei-me bastante ao longo do tempo e tive a certeza de que, na minha categoria, eu já era o melhor.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Entre os títulos mundiais de 2000 e 2003 na faixa-preta, qual teve um significado mais especial e porquê?
O de 2000, porque ali era o meu primeiro Mundial de faixa-preta. Muitos que estreavam na preta já esperavam encontrar adversários que estavam no topo, e eu encontrei logo o Nino Schembri, um dos melhores do mundo. Quando o venci, ganhei mais segurança para competir nas outras competições e soube que tinha começado a ser um dos melhores da minha categoria.
Fight News Portugal: O apelido “Tererê” tornou-se uma marca mundial no Jiu Jitsu. De onde surgiu esse nome?
Esse apelido surgiu porque eu ficava a ouvir rap americano o tempo todo e cantava sem parar. O professor Múcio de Angelis pegou nos meus fones, ouviu a música e começou a chamar-me de Tererê. Depois disso, quando fui reparar, toda a academia já me tratava por esse apelido.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: De que forma o Jiu Jitsu te salvou ou transformou enquanto homem, para além do atleta?
A maturidade e o conhecimento que o Jiu Jitsu me deu transformaram o meu carácter e fizeram de mim uma pessoa honesta.
Fight News Portugal: O Cantagalo nunca deixou de fazer parte da tua história. O que te motivou a criar e desenvolver projectos sociais na comunidade?
Eu via os meus amigos a admirarem-me e a torcerem pelas minhas vitórias no SporTV ( canal de TV por assinatura brasileiro), mas eles não tinham condições de ter a mesma oportunidade que eu tive, que foi uma bolsa numa academia. Naquela época, eram poucos os moradores de favela que tinham acesso ao desporto. Então comecei a ajudá-los por conta própria. Já na faixa-roxa consegui um espaço e comecei a ensinar-lhes a metodologia do Jiu Jitsu.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Qual é o maior desafio de manter um projecto social numa comunidade?
Força de vontade. Tenho o meu projecto desde 1998 e nunca tive um patrocinador. Às vezes surgiam alguns apoios, mas nunca nada concreto. A força de vontade é o mais importante para continuar este trabalho lindo, que é mudar a vida de outras pessoas.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Que valores procuras transmitir aos teus alunos, dentro e fora do tatame?
Transmito a eles que sejam bons seres humanos, pessoas boas para a nossa sociedade.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Quem foi o adversário que mais te surpreendeu, o mais duro dentro do tatame?
O adversário mais técnico e mais esperto com quem me deparei foi o Vítor Shaolin.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Como gostarias de ser lembrado no mundo do Jiu Jitsu?
Gostaria de ser lembrado por ter feito a diferença na vida desses jovens e por ter sido um bom exemplo.
Imagem Instagram
Fight News Portugal: Há pessoas que foram fundamentais na tua caminhada e a quem sentes necessidade de agradecer publicamente?
O Alexandre Paiva, o Fábio Gurgel e também o meu pai foram peças-chave na minha evolução. Eles acreditaram em mim.
Fight News Portugal: Por fim, que mensagem gostarias de deixar à tua família, equipa, alunos e a todos os que sempre acreditaram em ti?
A mensagem que deixo é para as pessoas não desistirem dos seus sonhos. Mesmo que o caminho seja estreito, sigam em frente e não fiquem a olhar para trás.
Imagem Instagram